Dando um tempo

João Bandeira

Publicado em: 13/07/2015

Categoria: Reportagem, visuais

Na pintura de Fabio Miguez, é do relativo isolamento das palavras, e só em seguida das relações entre elas, que secretam significações

Caixa Fabio Miguez 3

Legenda: ‘Valise Dominó’ (2013), óleo e cera sobre madeira e vidro, Fabio Miguez. (Foto: Ricardo Van Steen)

Meu tio Joel recomendava que eu abrisse o dicionário todos os dias e aprendesse cinco palavras novas. Não consegui me aplicar nisso com a devida disciplina. Mas, talvez por conta das tentativas intermitentes que fiz em homenagem a esse primeiro mentor, desenvolvi um gosto por me demorar em palavras isoladas de um texto, ouvindo de novo e de novo seus sons e prestando atenção em como cada uma delas era escrita. Da mesma maneira com que – imagino agora – um arquiteto pode se esquecer um pouco do tempo diante de uma construção, reparando no desenho de uma porta, na inclinação de uma determinada água do telhado, no encontro de materiais diferentes em um canto do piso ou na proporção de uma parede.

Pensei em meu tio e naquele hábito, que deve ter me ajudado a chegar até esta página, já na primeira vez em que pude ver as pinturas que Fabio Miguez vem fazendo nos últimos anos, onde, aqui e ali, há palavras. Parece que, no começo, pensou nas placas de estrada. Os quadros verticais, principalmente, têm quase o mesmo formato e a tipografia semelhante; só que, ele disse, seriam “placas poéticas”. Às vezes até chegam muito perto disso, como naquela pintura em que se sucedem, em intervalos mais ou menos regulares, alinhadas de cima a baixo e na mesma fonte, as palavras “outrora”, “apenas“, “talvez”, e ao lado, também alinhadas e dessa vez em caixa alta, “UM SEGUNDO”, “UMA NATUREZA”, “UM SENTIDO”. A distribuição geral, as cores e as tarjas em que estão contidas permitem várias alternativas de leitura. Por exemplo, esta frase: Um segundo, uma natureza, outrora apenas; talvez um sentido. Ou esta: Um segundo outrora, uma natureza apenas, um sentido talvez.

Tentar logo essas frases provavelmente deve-se à nossa cada vez mais crônica ansiedade por conexões (rápidas, de preferência), mas, de qualquer modo, comum ao mais simples ato de leitura: a expectativa de que, juntando tudo, na certa haverá um sentido – ao menos um. Nessas pinturas pode ser diferente. Temos tempo. As palavras se oferecem, a princípio, cada uma por si. Discretas ali no seu âmbito, algumas delas, quem sabe, quase dão-se por satisfeitas assim. E quando há duas, três ou mais numa tela, ao contrário do que ocorre na vida comum das palavras, é do relativo isolamento (fugaz, diante da nossa impaciência), e só em seguida das relações entre elas, que secretam significações.

Uma Natureza

Legenda: ‘Um Segundo Uma Natureza Um Sentido’ (2012), óleo e cera sobre linho, de Fabio Miguez. (Foto: Sergio Guerini)

As palavras e as coisas

Acontece que elas dividem o quadro com outras formas representativas, além das que recortam suas letras, e com áreas planas de cores raramente fortes, por seu turno, indecisas entre serem planos alternados, fundos ou formas já reconhecíveis como as primeiras – sendo, de uma vez, coisas. Que coisas? Bem, para olhos excessivamente adestrados de leitor, em grande parte lembram itens de um dicionário de elementos construtivos – assoalhos, paredes, janelas, coberturas, quase- plantas, quase-elevações, quase-croquis.

É como se na pouca profundidade indicada em cada prancha convivessem pelo menos dois códigos. E, como sempre, as palavras e as coisas não demoram a se procurar, tendo em vista graus de similaridade ou de oposição dentro de seus próprios universos. Em um deles: “gesso / avesso” (mesma sonoridade); “céu / vento” (mesmo campo semântico); “manhã / revelar / véspera” (quase uma frase); “deserto / fonte” (contrários); “tijolo / sono” (discrepantes). Ou em outro universo: formas básicas que mais ou menos se repetem; um telhado de frente e outro de lado; uma janela acima de uma parede de tijolos: esta que se mede com um muro em blocos de pedra; dois ângulos vizinhos que não batem. 

E às anteriores somam-se relações entre o universo linguístico e o das puras imagens: “dia” e um céu azul acima daqueles telhados; “claro” próximo de um tom claro; “cimento” ou “pedra” acenando para os elementos construtivos. No entanto, na maioria das vezes, são relações abertas: a qual ou a quais formas corresponde a sequência “manhã /revelar /véspera”, ou só uma dessas palavras? De mais a mais, as faixas de texto pintado – além ou aquém de fazer sentido – dançam um ritmo visual próprio, mas sintonizado ao do restante das imagens na tela. (Ritmos sensivelmente diferentes transcorrem se você abre uma das valises de uma série aparentada, em que placas e outras peças articuladas com palavras vão desdobrando a pintura.) Por sua vez, texturas, tons e esquemas visuais chamam os velhos mestres, mestres modernos e alguns mais próximos de nós – aqui dizem Piero, ali Matisse, Johns, Volpi – e abrem-se até, pelas bordas do quadro, aos espaços de fora.

Caixa Fabio Miguez 4

Legenda: ‘Valise Dominó’ (2013), óleo e cera sobre madeira e vidro, Fabio Miguez. (Foto: Ricardo Van Steen)

Nesse mundo de pintura, de modo geral, são muitas as ligações possíveis. Porém, nem tantas que tudo acabe se dispersando. O bastante para fazer com que as palavras e coisas e formas quase sem nome estejam dispostas para se dispor ao contato. Em outras palavras, mudando um pouco o ângulo, Fabio Miguez faz diagramas de uma festa na piscina (com música baixa), em que todos estivessem se vendo pela primeira vez. Tudo assim mais ou menos tranquilo. O fundo é raso e, qualquer dúvida, dá para sair pelos quatro lados.

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