Daniel Roesler: “NY é um dos melhores lugares para sermos locais”

Na contramão da crise, galeria Nara Roesler expande os negócios nos Estados Unidos com espaço de 420m² no Chelsea

Nina Rahe

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, Entrevista

Fachada da galeria Nara Roesler no Chelsea (Foto: cortesia MPG Arquitetos)

Em 2015, quando a galeria Nara Roesler decidiu iniciar as operações em Nova York, a maioria das galerias tinha registrado queda de 50% nas vendas nacionais. Cinco anos depois, diante de uma das maiores crises humanitárias do mundo, a Nara Roesler  deixa o espaço que comandava no terceiro andar de um edifício no Upper East Side e se muda para um local quatro vezes maior, no nível da rua, no Chelsea, onde será vizinha de gigantes como Gagosian, David Zwirner e Lisson. A decisão, segundo Daniel Roesler, vem em um momento em que a galeria já se encontra recuperada dos efeitos da pandemia, com um balanço do ano, inclusive, melhor que o de 2019. E a expansão, nesse sentido, seria um passo estratégico em um momento em que a previsão aponta para negócios cada vez mais locais e menos globalizados. “Nova York é uma cidade que tem uma infraestrutura cultural maravilhosa, onde estão os principais museus do mundo, grandes colecionadores, cabeças pensantes e críticos. Então tudo isso se juntou no processo de decisão para que a gente seguisse com essa aposta”, diz Roesler.

De que forma a pandemia da Covid-19 afetou nos planos de expansão em Nova York?
A pandemia mudou a forma de funcionamento das galerias como um todo. A galeria em Nova York está fechada desde abril, as feiras de arte basicamente não aconteceram, e o programa de exposições que tínhamos previsto também não prosseguiu. De toda maneira, a gente colocou muito esforço nas novas iniciativas, mantendo a presença junto aos colecionadores por meio de participações em feiras virtuais, viewing rooms e exposições fora da galeria, como a que fizemos em São Paulo na Fazenda Boa Vista [Ar Livre]. Nós tivemos, na contramão do mercado, um resultado que nos deixou muito contentes porque vimos que o público continuou seguindo o que estávamos fazendo e apoiando nossas iniciativas. Em um primeiro momento, a pandemia levou a uma queda de mais de 50% nas vendas, mas, ao longo do ano, começamos a recuperar. Em agosto, que é um mês tradicionalmente de pouco movimento, tivemos o melhor mês do ano, com um crescimento três vezes maior do que havíamos previsto. O balanço de 2020 já é melhor do que o de 2019 e há boas chances de manter o que a gente tinha planejado inicialmente de crescimento, que é de 20%.

Expandir neste momento é uma boa estratégia?
A gente acredita que a ideia de mostrar obras de arte no espaço físico vai continuar sendo importante, que essa crise vai passar, mas que as feiras e as viagens podem sofrer, o que leva à possibilidade de que as galerias e os mercados fiquem mais locais. Com uma crise da globalização, Nova York é um dos melhores lugares onde poderíamos ser locais. É uma cidade que tem uma infraestrutura cultural maravilhosa, onde estão os principais museus do mundo, grandes colecionadores, cabeças pensantes e críticos. Então tudo isso se juntou no processo de decisão para que a gente seguisse com essa aposta. É uma aposta, pode ser que a crise seja mais séria do que já tem sido e que a transformação realmente seja mais profunda, mas a gente resolveu acreditar que devia seguir em frente.

Daniel Roesler (Foto: Divulgação)


Há cinco anos, vocês declararam que, se fizessem o dever de casa certinho, tinham chance de chegar a ter uma operação americana maior do que a brasileira. Isso se concretizou?
A operação brasileira ainda é maior, mas a americana está crescendo a cada dia. Posso dizer que os Estados Unidos representam hoje mais ou menos 25% do negócio. Ainda temos muito que fazer aqui, muito que crescer no sentido de apresentar os nossos artistas para esse mercado.

Naquele período, o percentual de vendas para estrangeiros era de 20 a 25% e vocês planejavam dobrá-lo. O percentual hoje, então, continua o mesmo?
A proporção continua parecida. A galeria cresceu muito nesses últimos cinco anos, mas nos dois países de forma proporcional. Em 2015, nós abrimos em Nova York um escritório e, depois, mudamos para um espaço no terceiro andar [no Upper East Side] com programa de exposições, o que deu uma boa impulsionada. Nosso próximo passo agora é uma galeria na rua, no Chelsea, quatro vezes maior, onde a gente vai poder experimentar novas possibilidades.

De que forma a orientação curatorial de Luis Pérez-Oramas tem contribuído para a expansão nos EUA? Como se deu a decisão de tê-lo como parte da equipe?
A galeria sempre teve uma preocupação muito grande com os projetos curatoriais, desde o começo dos anos 2000, com o Roesler Hotel, no qual a gente convidada curadores nacionais e internacionais para desenvolver seus conceitos na galeria. E dentro dessa história de abrir nossos espaços e trazer curadores para mostrar diferenças e analogias entre nossos artistas, tivemos esse prazer de ter Luis Pérez-Oramas junto à galeria como um curador sênior que está cuidando de projetos que envolvem não somente uma série de exposições como também o braço de publicações, com monografias e outros livros sobre os nossos artistas. Ele tem uma experiência curatorial e institucional incrível, foi curador de arte latino-americana do MoMA durante muitos anos e traz essa visão de potencializar o significado do trabalho dos artistas. Tem trabalhado desde o começo do ano, não só na galeria, mas em feiras virtuais, usando os espaços que temos para colocar obras que às vezes são de épocas e contextos diferentes, mas que, lado a lado, contam novas histórias e narrativas. Na apresentação visual da Art Basel, o projeto colocava junto obras do Antonio Dias e da Karen Lambrecht, que são dois artistas que não são comuns de serem mostrados lado a lado. São conceitos de trabalhos muito diferentes, mas com soluções visuais parecidas. A recepção foi muito interessante, principalmente do trabalho da Karen, que é menos conhecido fora do Brasil. Um pouco por causa disso, ela vai fazer uma exposição em Londres, que, por conta do lockdown, deve ficar pro ano que vem. O Luis tem uma experiência sobre o processo de curadoria que a gente valoriza e acredita que é o caminho aqui nos Estados Unidos para poder mostrar de forma cada vez melhor os artistas que a gente representa.

Quais os resultados do trabalho que vem sendo feito de articulação da imagem dos artistas brasileiros no exterior?
É algo que envolve uma série de coisas. Os projetos curatoriais ajudam a jogar luz no trabalho dos artistas, e eles são acompanhados também de publicações de livros, conteúdos e textos. Por outro lado, a proximidade dos museus aqui gera um entendimento sobre os artistas que é diferente de quando você está distante. Por fim, também pensamos em projetos de residências, com curadores internacionais que se debruçam sobre os artistas brasileiros, vão para o Brasil, fazem pesquisa, voltam e trazem novas ideias e novas interpretações sobre os trabalhos. Então é um processo longo, persistente e acredito que seja muito consistente. A forma como a gente está encarando esse desafio, já de muito tempo, traz alguns resultados concretos, como aquisições institucionais em coleções de museus de primeira linha. A Tomie Ohtake, que entrou na coleção do Dallas Museum e está em exposição agora lá, foi adquirida por um grande museu que não posso anunciar ainda. Antonio Dias também terá uma grande exposição em um museu americano importante. Mas a gente teve Julio le Parc em exposição no Metropolitan [Museum, de NY], depois da grande mostra no Perez Museum [em Miami]. Mas os processos, infelizmente, são lentos. Diferentemente de uma venda para um colecionador privado, são alguns anos, quando se trata de museus. A gente está falando de coisas que acontecem de quatro anos para frente. É um trabalho de persistência, mas a gente segue nesse caminho e aumentando a aposta.

Poderia comentar também a escolha da Amelia Toledo para inaugurar essa nova fase da galeria?
Aqui nos Estados Unidos, Amelia Toledo não é tão conhecida, mas ela participou de uma exposição muito importante em 2018, a Radical Women [Latin American Art, 1960–1985]. Foi uma mostra que abriu os olhos do mundo para essas artistas latino-americanas importantes e que tinham muito a dizer. Então acho que existe um interesse no trabalho dela e a gente está preparado para mostrá-lo da melhor forma possível. Estamos ainda na dependência da situação da Covid-19, mas imaginando que, depois de fevereiro, já seja possível uma abertura com um público maior. Por conta disso, chegamos à ideia de uma mostra anterior a essa, para janeiro. Será um projeto curatorial que se desdobrará ao longo de cinco semanas e que será mais propício a pequenos encontros. O Luis Pérez-Oramas está selecionando um grupo de artistas e vai mostrar alguns como solo – Antonio Dias e Tomie Ohtake – e outros em diálogo. Então teremos diálogos entre Paul Ramirez Jonas e Berna Reale, que tem uma aproximação pela questão política, justiça social etc; entre Milton Machado e Artur Lescher; e Cristina Canale, Maria Klabin e Karin Lambrecht.

  • The Illustration of Art / Uncovering the Cover-Up (1973), de Antonio Dias (Foto: Divulgação)
  • Detalhe de Rio Léthê # 08 (2018), de Artur Lescher (Foto: Divulgação)
  • Palomo # 05 (2013), de Berna Reale (Foto: Divulgação)
  • Casa triângulo (2014), de Cristina Canale (Foto: Divulgação)

Tomie Ohtake e Amelia Toledo são artistas que já pertencem à história da arte brasileira. O artista que tem inserção na história oferece mais segurança para o início do trabalho internacional da galeria?
A gente tem um grupo diverso de artistas, de gerações diferentes. Se imaginarmos que das cinco exposições iniciais, temos Antonio Dias e Tomie Ohtake e três exposições com artistas contemporâneos, com produção atual. A ideia é mostrar a riqueza e a diversidade do portfólio de artistas da galeria. Os espólios estamos mostrando individualmente, e os artistas contemporâneos a gente está apresentando em diálogo, desenhando também projetos que possam mostrar caminhos de conversa entre eles. Estamos apresentando o programa da galeria como um todo, que é um programa que tem uma diversidade de gerações, linguagens etc. Uma arte internacional a partir de uma perspectiva brasileira.

A operação no Rio de Janeiro vai continuar com uma galeria física?
Temos vários artistas que são cariocas e têm ateliê no Rio de Janeiro e gostamos de estar próximos deles. Um espaço em Ipanema, também, dá possibilidades bem diferentes de exposição do que um espaço em São Paulo. É uma casa em um bairro que é conhecido no mundo inteiro, o bairro da “Garota de Ipanema”, e acho que é um lugar onde a gente pode dar oportunidades para os artistas também escreverem sua história com projetos pensados para aquele tipo de espaço. O Rio é um mercado mais difícil, mas é surpreendente. Na cidade acontecem coisas como a ArtRio deste ano, quase a única feira no mundo a acontecer ao vivo e aconteceu bem, com número controlado de gente, pessoas felizes de poder voltar a ver arte ao vivo e conversar com os galeristas. O Rio é realmente surpreendente e a gente quer manter nossa presença sem dúvida.

Qual o investimento da galeria no on-line, que deve influenciar daqui para a frente não só os negócios e o mercado, como os hábitos comportamentais?
A gente reorganizou as operações para dar mais atenção ao on-line, no sentido de cada projeto ter um desenvolvimento de conteúdo virtual, seja um viewing room, uma conversa no Youtube ou vídeo que conte um pouco da história da exposição. Essa necessidade de desenvolvimento de conteúdo no formato digital realmente cresceu muito. Não sei dizer os números para indicar quanto foi para cá, quanto foi para lá, mas o nosso trabalho está focado também no on-line e nós temos falado sobre estratégias de comunicação digital, que são novas também para a gente. Na pandemia começamos alguns projetos, como o programa Ping Pong no Youtube, um podcast que pode ser acessado no Spotify [intitulado A Flauta Seca] e até playlists dos artistas, que são formas de aproximar o público do pensamento deles. Só que a gente ainda acredita muito no poder da exposição real, então a estamos trabalhando o digital mais como registro de projetos que estão acontecendo nos nossos espaços, distribuindo pra quem não teve oportunidade de ver presencialmente. A base continua sendo o mundo real.

Qual é a estimativa de crescimento em NY a partir  do Chelsea?
Queremos esse novo espaço integrado à comunidade local de Nova York. Estamos numa rua com ótimas galerias – que eu sempre acompanhei, visitando nas feiras ou quando estava na cidade e agora estamos nessa mesma comunidade –, com a vantagem de ter toda a operação no Brasil e todo o apoio que a gente tem no país, construído em mais de 30 anos de história.

 

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