De olhos bem abertos e equipados

Angélica de Moraes

Publicado em: 26/08/2011

Categoria: Reportagem, visuais

Olafur Eliasson mimetiza paisagens e fenômenos naturais por meio de uma articulação de equipamentos e conhecimentos científicos aplicados à arte

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“A natureza não me interessa”, diz Olafur Eliasson. A declaração, taxativa, foi feita ao crítico Hans Ulrich Obrist e publicada em livro. O artista esclarece: “Para mim, o mais importante é construir algo que interfira no olhar do público. É esse olhar que, de um modo complexo, constitui ou cria a peça. Isto significa que eu penso muito sobre o que é o espaço e, mais importante ainda, o que pode fazer entender um determinado espaço”. O artista dinamarquês radicado em Berlim cria ilusões do que culturalmente entendemos como natureza e, para isso, utiliza enorme arsenal de conhecimentos técnicos, que transitam das leis da ótica à mecânica dos fluidos, à engenharia e à arquitetura.

Conhecido internacionalmente há mais de uma década por suas instalações impactantes que criaram cascatas sob a ponte do Rio Hudson (New York City Waterfalls, Nova York, 2008) ou um luminoso sol no interior da Tate Modern (The Weather Project, Londres, 2003), Eliasson frisa que tudo é artifício e nada é mera representação de uma suposta realidade. Sanford Kwinter (professor de Teoria e Crítica da Arquitetura, na Universidade de Harvard, EUA), é ainda mais claro: “Eliasson, como Marcel Duchamp, não produz obras de arte. Ambos organizam e transformam as condições de uma experiência sensível. Cada trabalho envolve a produção de uma máquina que ativa outras máquinas, especialmente a máquina de produção de sensações que é o nosso corpo”.

Foi para destacar essa característica maquínica da obra do dinamarquês que Kwinter organizou, em Harvard, de março a maio deste ano, uma mostra com 54 “máquinas experimentais que poderíamos chamar de máquinas de perceber (perceiving machines) de Eliasson, cada uma delas explorando um aspecto de como o corpo humano e o seu sistema nervoso se orientam no espaço e no tempo, tateando pistas implícitas ou explícitas do seu entorno”. Como não há uma única e irredutível visão do aqui e agora, mas sim infinitas interpretações pessoais do que vemos e sentimos, fica nítido que a obra de Eliasson é uma das mais definidoras do mundo relativizado e contingente em que vivemos.

O público brasileiro viu pela primeira vez uma obra desse artista na Bienal de São Paulo de 1998. Era uma divertida pista de patinação, denominada The Very Large Ice Floor (O Grande Chão de Gelo), que atravessava os janelões de vidro do local e dividia a experiência em externa e interna. Feita apenas três anos depois de Eliasson concluir a formação universitária na Academia Real Dinamarquesa de Belas Artes (1989-1995), a obra já apontava o foco central de tudo que se seguiria: a natureza transformada e apropriada. No caso, na pouco eficaz metáfora sobre as rígidas coerções sociais que ele notava no Brasil e que tentou simbolizar no vidro dividindo ambientes e experiências. Para atualizar e contextualizar a eficientíssima envergadura atual da obra de Eliasson, o curador Jochen Volz organiza para setembro, em São Paulo, um conjunto de três exposições. Elas vão ocupar o Sesc Belenzinho, o Sesc Pompeia e a Pinacoteca do Estado. Será a maior mostra do artista já realizada na América Latina. Além de produzir peças inéditas para a ocasião, realiza um filme com o cineasta cearense, de origem argelina, Karim Aïnouz (do bem-sucedido longametragem Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo, de 2010).

A visibilidade internacional de Eliasson consolidou-se em 2003, mesmo ano em que realizou The Weather Project (O Projeto do Tempo) no hall das turbinas da Tate Modern, em Londres, e o magnífico The Blind Pavillion (O Pavilhão Cego) no prédio da representação dinamarquesa na Bienal de Veneza. A obra veneziana foi um emocionante tributo aos constructos artificiais criados pelos artistas e cientistas ao longo da história para explicar o mundo ou armar ilusões de ótica e armadilhas para a percepção dele. O Pavilhão Cego tinha estratégias visuais tão singulares ou ancestrais quanto a reflexão e refração de espelhos distorcidos. Trazia caleidoscópios perfurando as paredes e comunicando suas visões fragmentárias do entorno do prédio. Havia até câmeras obscuras, antigo equipamento (avô da câmera fotográfica) utilizado para transferir, por meio de um jogo de espelhos, o espaço tridimensional para a superfície plana do papel. Eliasson usou esses recursos para levar o espaço verde dos Giardini da exposição para dentro da caixa branca da mostra, criando transparências e convergências vertiginosas.

O percurso ilusionista se completava com elementos arquitetônicos (escadas e mirantes) sobrepostos à estrutura original do prédio. Um passeio visual suntuoso, solidamente fincado na ciência e na arte. Veneza e Londres foram catapultas definitivas para um reconhecimento de público e crítica que lhe renderia, desde então, crescente e quase avassaladora demanda de exposições nos mais diversos pontos do planeta. Um ritmo de produção que acabou extravasando seu modesto ateliê, instalado em um galpão ao lado da estação ferroviária berlinense Hamburger Bahnhof.

O atual Estúdio Olafur Eliasson ocupa as dimensões industriais de uma antiga cervejaria em Prenzlauer Berg (bairro boêmio de Berlim). Desde 2008, o artista imprime um ritmo intenso de produção a esses imensos espaços, com uma equipe de 35 assistentes. Além da equipe fixa, integrada por  arquitetos, calculistas, projetistas, marceneiros, serralheiros e artesãos em geral, o artista recorre a diversos especialistas, conforme o trabalho em gestação. Trabalham juntos para conceber, construir, testar e produzir desde enormes instalações para locais específicos até obras para espaços urbanos, esculturas e máquinas/obras ópticas. Em paralelo ao atendimento da demanda do circuito internacional de mostras culturais e do mercado de arte, Eliasson dedica boa parte de seu dia ao ensino e à pesquisa. Como professor na Universidade de Arte (Universität der Künste) de Berlim, fundou o Instituto para experimentos com o espaço (Institut für Raum experimente), em abril de 2009. Ele está pesquisando “a antigravidade que começou com a geometria euclidiana e depois com a relatividade de Einstein”. O que interessa a ele é que, “quando você mede ou quantifica algo, você tem o impacto cultural do que mede”. A transformação causada no observador pela coisa observada é seu foco central. O que não o impede de mirar projetos aparentemente utópicos, como o Climetrondom, uma enorme cúpula para engastar nela um jardim botânico.

Sim, a natureza não o interessa. Apenas se puder apropriar-se dela para uma estratégia artístico/científica capaz de preservá-la em equilíbrio e viço, coisa cada vez mais artificial no mundo pré-apocalíptico do aquecimento global deste século. Para entender a percepção que Eliasson tem da natureza nunca é demais lembrar que ele nasceu e foi criado em um país onde existe o fenômeno do sol da meia-noite. A luz nórdica e seu rebatimento em imensas superfícies geladas desorientam o olhar, instalando a dúvida entre o que é real e o que é irreal. Entre o que é a noção espacial de um determinado local e as convenções de realidade e luz existentes em outras latitudes menos radicais do planeta. Em todas essas dimensões, o olho humano cumpre papel ativo na construção da imagem. Arbitrária e artificial, sempre, porque feita através das lentes da cultura.

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