De Pijama no Divã

As possibilidades que o isolamento social colocou no nosso colo

Ana Clara Joly

Publicado em: 25/06/2021

Categoria: Destaque, Laboratório de escrita, Projetos especiais, Reportagem

Frame de video postado por Caetano Veloso no Instagram

Madrugada no Rio de Janeiro, 12 mil pessoas dentro do quarto de Caetano Veloso falam freneticamente enquanto o artista canta e toca violão de pijama xadrez. Paula Lavigne veste uma camisola preta de seda e pede ao marido que não pare de tocar. Eu estava lá, conversei com a Alice Caymmi, paquerei a Bebel Gilberto e pude enxergar as mãos do artista nas minhas mãos. Em uma outra noite, seus filhos Moreno, Zeca e Tom Veloso participaram da farra junto com a gente. Teve política, afeto e música. Todo mundo junto reinventando nossa forma de convívio.

As transmissões ao vivo e as videochamadas têm possibilitado a continuidade das relações interpessoais em meio à necessidade do isolamento. A interação através das telas, ainda que aparentemente solitária, nos aproxima de pessoas e realidades distantes, proporcionando aglomerações sem nenhum risco de contaminação viral.

Por isso, saí da casa do Caetano Veloso e embarquei rumo a Toronto para entrevistar meu sobrinho. Na manhã seguinte, em Ribeirão Preto, estava sentada junto à cama da minha analista aguardando o final de mais uma sessão. Fiz várias viagens desse tipo no último ano. Sem máscara. Descalça. Dentro da minha casa.

“Atenção! Gravando!”

Tom Hulshof (Foto: arquivo pessoal)

O ator Tom Hulshof mora no Canadá, está no auge dos seus 11 anos e já foi dirigido por Frank van Keeken e Douglas Aarniokoski. Há um ano, por causa do coronavírus, precisou ter um canto da sua casa transformado em set de filmagem para poder continuar trabalhando. Ele, que é filho de brasileiros, escuta da sua irmã mais nova no meio da gravação: “Tom, posso show you what eu fez?”. “Corta! Não interrompa novamente a gravação do seu irmão”, intercede o pai.

Além da estrutura que precisou ser montada dentro do ambiente doméstico, agora equipado com iluminação profissional e tela de chroma key, a agenda de trabalho de Tom teve que se ajustar não só à rotina escolar como a familiar. Seu pai o auxilia nas gravações dos testes de elenco, que são feitas pela manhã, antes de começar as aulas na escola, e os personagens e textos são estudados à noite junto com a mãe. Durante as filmagens, o silêncio e a organização do espaço são negociados com sua irmã de seis anos, que, em troca, ganha hambúrgueres ou passeios no parque.

Frame da participação de Tom Hulshof na série Clarice (2021), de Alex Kurtzman e Jenny Lumet

Durante a pandemia, o ator participou da série Clarice e, em cinco dias de atividade presencial, foi submetido a três testes de Covid-19. A energia do set, ele lembra, estava completamente diferente. Havia um clima de tensão pelo risco de contágio e os protocolos de segurança impediram o convívio entre a equipe. Antes disso, Tom gostava muito da interação que acontecia nos bastidores, principalmente no refeitório, onde tinha a possibilidade de lanchar junto com diretores e figurantes, desconstruindo as hierarquias e descobrindo os sabores do dia. Hoje, em contrapartida, o pedido é feito pelo telefone e ele precisa buscar sua comida na porta do trailer culinário, o que é muito chato.

O ator também faz parte do Balé Nacional do Canadá e teve suas apresentações de dança transferidas dos teatros para a sala de estar. Apesar dessa mudança possibilitar que a gente o assista ao vivo e de longe, Tom sente falta da adrenalina dos palcos e, principalmente, dos aplausos.

“Corta!”

A psicanalista Luciana Torrano diz que nunca imaginou ter pacientes entrando no seu ambiente domiciliar. Em uma inversão de papéis, na qual sou eu quem guia a sessão, minha terapeuta responde às poucas perguntas que faço e fala com detalhes da sua rotina, das práticas de ioga às travessuras de seus três cachorros.

Print de chamada entre Tom Hulshof e Ana Clara Joly

Anteriormente, entrar na casa – e na vida – do próprio analista era impensado. No máximo poderíamos fantasiar histórias, mas nunca ter uma concretude sobre elas. Hoje, essa distância deixou de ser tão importante e a aproximação durante o distanciamento social tornou-se mais necessária do que o setting de análise.

Muitas pessoas não se renderam às interações virtuais por sentirem que há um enfraquecimento do vínculo interpessoal. É fato que a conexão não é igual, mas o mundo digital se apresenta como alternativa para o convívio. Se Freud atendia alguns pacientes caminhando com eles em praças públicas, fazer terapia on-line ou assistir à espetáculos via internet é apenas mais uma das possibilidades trazidas pelo isolamento.

Luciana Torrano (Foto: arquivo pessoal)

“A busca pela saúde mental está alta. Muitas pessoas perceberam que o mundo gira em torno da mente humana e passaram a se preocupar mais com isso. O isolamento é um lugar de introspecção e, se sua mente não está tranquila, fica mais difícil”, diz Luciana, que durante a pandemia tornou público o seu perfil no Instagram para propor reflexões e contar histórias, acolhendo um número muito maior de pessoas do que seria possível atender no consultório. A analista afirma que a arte é matéria-prima da psicanálise e que as pessoas com menos contato com práticas artísticas foram as que tiveram maior agravamento do estado de saúde mental.

O peso da situação que estamos vivendo é realmente indiscutível. Enquanto tento colaborar para conter o avanço de uma pandemia que parece longe de acabar, investigo as oportunidades que surgiram nesse caos tentando não perder a sanidade e a esperança. Invento outras formas de transitar nos bastidores, analiso a intimidade dos meus artistas prediletos e converso com pessoas que talvez eu nunca vá conhecer pessoalmente.

Em tempos pandêmicos, a internet virou o meio de transporte ideal, o álcool em gel é o companheiro mais fiel e a casa se tornou um grande palco onde os sons, a iluminação e o tamanho de cada residência são o pano de fundo para uma vida inteira. Os aplausos inaudíveis do público definitivamente não determinam mais a qualidade do engajamento entre o artista e o espectador, assim como o divã pode estar no quarto do analista e isso só será mais uma questão para se olhar durante as sessões.

Print de chamada entre Luciana Torrano e Ana Clara Joly

Ana Clara Joly é artista plástica e arte educadora graduada pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Coordenadora da ONG FINAC, desenvolve esculturas, performances e trabalha como cenógrafa e iluminadora. Em 2017 foi contemplada pelo edital PROAC Obras e Exposições. Seu processo criativo propõe a tradução da sua existência; tradução como equivalência; traição; transmutação; deslocamento; homenagem.

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