De que matéria é feito o domingo?

Artistas e colaboradores dos Domingos da Criação reencontram-se em livro-arquivo do projeto que é marco da experimentação em arte e educação

Paula Alzugaray
Domingo do tecido (Foto: Raul Pedreira)

Quando os alunos de Anna Bella Geiger perguntavam, em 1970, o que deveriam levar para seu curso no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro – lápis, pincel, tinta? –, a resposta era: nada disso. Deveriam trazer o que encontrassem em seu caminho de casa até o museu, na rua, no lixo. Então, as aulas começavam com uma incógnita do tipo: “Descubram aí o que é preciso para iniciar um trabalho”. Em um dos primeiros cursos que ela deu, propôs que desmanchassem o jardim do museu. Todas as pedras foram removidas, criando uma nova paisagem. Esse era o contexto do MAM Rio quando Frederico Morais era coordenador dos cursos e ateliês livres, que abriam campo para que jovens artistas como Geiger e Aluísio Carvão ampliassem seus projetos experimentais para o escopo do museu, de seus jardins e da cidade.

Os Domingos da Criação nasceram nesse contexto, concebidos por Morais inicialmente como extensão das atividades didáticas. Mas o projeto revelou-se muito mais do que isso, quando deu materialidade à ideia da ocupação do espaço público como ato estético e político. Assim, nos seis encontros dominicais organizados entre janeiro e agosto de 1971, a área externa do MAM e o Aterro do Flamengo foram incorporados como extensão natural do museu.

Domingo da terra a terra (Foto: Beto Felício)

 

Entre as importantes discussões suscitadas pelo projeto, levanta-se a questão do lugar da arte. Lugar físico – aqui ampliado para a cidade – e lugar temporal. Questionava-se a limitação da fruição da arte a uma atividade de fim de semana, dissociada da vida real. “De que matéria é feito o domingo? Qual a tessitura do domingo? O domingo é um tigre de papel? Com que roupa o vestimos, com que fios tecemos o domingo? Quais as cores e os sons do domingo, sua corporeidade?”, escreveu Frederico Morais em ensaio publicado em Domingos da Criação: Uma Coleção Poética do Experimental em Arte e Educação, organizado por Jéssica Gogan. “Uma das ideias motoras dos Domingos da Criação era de que a criação não está restrita às atividades dominicais. Ela pode e deve ser desenvolvida em tempo integral, em casa ou no trabalho, no lazer e nas atividades produtivas, no modo como nos vestimos, caminhamos, conversamos, nos relacionamos com outras pessoas, como participamos da vida política e social.”

A publicação, projeto contemplado no Rumos Itaú Cultural 2015-2016, define-se como um livro-arquivo. Reúne um acervo precioso de imagens dos seis encontros, uma coleção de fac-símiles de artigos e reportagens de jornais, ensaios e entrevistas realizadas recentemente com os artistas colaboradores dos Domingos, como Angel Vianna, que participou com Klauss Vianna do Corpo a Corpo do Domingo (29/8/71); Carlos Vergara e Antonio Manuel, que integraram Um Domingo de Papel (24/1/71). 

Domingos da Criação: Uma Coleção Poética do Experimental em Arte e Educação
Jéssica Gogan (org.), 308 págs., R$ 75

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