De volta para o futuro

Nas primeiras páginas de seu ensaio Brasil, País do Futuro, Stefan Zweig se diz surpreso com o Rio e sua "ordem e limpeza na arquitetura e na paisagem urbana"

Silas Martí

N° Edição: 30

Publicado em: 01/07/2016

Categoria: Colunas Móveis

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Silas Martí (Fotos: Reprodução)

Nas primeiras páginas de seu ensaio Brasil, País do Futuro, Stefan Zweig se diz surpreso com o Rio e sua “ordem e limpeza na arquitetura e na paisagem urbana”, além da “ousadia e grandiosidade em todas as coisas novas” que encontrou na cidade cartão-postal do País. Teve certeza de que acabava de “lançar um olhar para o futuro do nosso mundo”. Nascia ali, se não um mito, uma sentença que condena o Brasil ainda hoje a atropelar o presente com olhos vidrados num porvir incerto. Isso era o que distinguia nosso país das demais repúblicas sul-americanas, de “clima quente e insalubre, situação política instável e finanças em desordem”.

Neste outono tórrido, de temperaturas bem acima do normal, no auge da crise econômica que abala o País e na ressaca da histriônica votação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, vemos o pêndulo oscilar de volta para tudo aquilo que Zweig entendia como o DNA malformado das republiquetas abaixo da linha do Equador. O Brasil parece voltar de modo escancarado à sua essência – é o país violento e instável que todos achavam ter sido sepultado pelos anos Lula.

Estourada a bolha das commodities e findo o ciclo de consumo desenfreado das novas classes C e D, o País volta a mergulhar numa espécie de lama econômica primordial. A política vai junto, instaurando na cúpula do poder uma classe tão corrupta quanto o Partido dos Trabalhadores afundado em desgraça. É um quadro de dissolução e hecatombe político-econômica que vem alarmando não só aqueles que vivem a miséria cotidiana de um país em frangalhos, como também quem manda nos fluxos globais de capital, em especial aqueles que lá fora veem se repetir a história de um golpe de Estado no Brasil.

cristo

Cabe falar em fluxos de capital porque a arte se manifesta no mundo de hoje como indício de movimentos financeiros, transmissões invisíveis de dados num planeta sem fronteiras para o dinheiro. No auge do crescimento econômico que marcou a última década, importantes players da arte global flertaram com o Brasil, prontos para aposentar a pecha de periferia que pairava sobre o País. Primeiro, galerias como as gigantes Gagosian e White Cube testaram as feiras SP-Arte e ArtRio. Depois a coleção suíça Daros aproveitou a euforia do Rio pré-Olimpíada para estabelecer um entreposto carioca ao lado de novas pérolas que surgiam no horizonte, o Museu do Amanhã, o Museu de Arte do Rio e a nova sede do Museu da Imagem e do Som.

Tudo ruiu. A White Cube abriu e fechou uma filial em São Paulo, argumentando que a operação Brasil era só uma experiência de três anos; Casa Daros caiu fora do Rio, alegando não poder fazer frente ao custo Brasil e as feiras minguam com a fuga das gigantes internacionais, enquanto o mercado aqui encolhe. Agravando esse cenário, há um sensível desinteresse das publicações especializadas estrangeiras pelo sistema de arte local, em troca de um interesse crescente pela narrativa da crise.

A velha piada de que a saída para o Brasil é o Aeroporto de Guarulhos virou mantra de uma série de galerias nacionais, que reforçam sua presença no mercado estrangeiro para escapar da crise, aproveitando a alta do dólar. Mais baratas para os estrangeiros, obras-primas da arte do País viram uma pechincha, e o que seria um robusto circuito institucional brasileiro agora parece voltar mais uma vez à condição de colônia de exploração – quem puder que compre.

Mas há quem veja luz no fim da crise. Uma vez esgotado o ciclo extravagante das mostras blockbuster e estancado o deslumbramento com a presença no País dos mandachuvas da arte global, o Brasil tem a chance de reenquadrar suas prioridades de volta à condição de periferia e já longe dos olhos do mundo. O lado bom dessa história é que só o mais relevante vai sobreviver. Não haveria, nessa visão mais otimista, tempo, espaço nem dinheiro para sustentar o supérfluo, e uma arte de verdade ancorada em instituições também de verdade veria a luz do dia mais adiante. Talvez mais do que um retorno à periferia, a crise generalizada seja um retorno ao futuro, àquilo que Zweig achava ter visto há quase um século, mas ainda nem despontou no horizonte, ou à construção que já é ruína.

Silas Martí é repórter de arte visuais e arquitetura da Ilustrada (Folha de S.Paulo) e diretor de redação da Harper’s Bazaar Arte, também colabora com Artforum, Frieze e The Art Newspaper 

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