Demasiadamente humano

Sem sobressaltos: Cineasta pernambucano Lírio Ferreira arma-se de suavidade e virilidade para contar o mito do pecado original

Paula Alzugaray

N° Edição: 24

Publicado em: 04/06/2015

Categoria: A Revista, cinema, Review

Daniel de Oliveira como o homem-bala Pedro, em cena do longa-metragem premiado no Festival do Rio e em Paulínia (foto: Divulgação)

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“O cinema nasceu no circo”, diz Kaleb, o ilusionista dono do Circo Netuno, personagem de Paulo César Pereio em Sangue Azul, novo longa-metragem de Lírio Ferreira. Ao encenar a “Lenda do Pecado”, que fabula a origem das pedras do arquipélago de Fernando de Noronha, o diretor pernambucano impõe-se grandes desafios: enfrenta dramas ancestrais da humanidade, tocando os temas do amor proibido, do medo e da morte, e ainda homenageia o cinema com uma série de citações – mais ou menos sutis – de alguns de seus momentos altos.

A primeira cena do filme funciona como um ritual de passagem em que o espectador é pego pelo estômago e lançado ao mar. Com a ótica da câmera subjetiva desde o barco, é transportado juntamente com a trupe do circo, que chega à ilha para uma temporada. No balanço agressivo das ondas, insinuam-se as primeiras citações: às câmeras etílicas de Glauber Rocha e da cinematografia do Dogma dinamarquês.

Em terra, homens do circo e da aldeia juntam forças na tarefa de içar a tenda, em luta contra o vento. Editada em preto e branco e potencializada pela bela direção de fotografia assinada por Mauro Pinheiro, a sequência valoriza a virilidade masculina, remetendo a um épico da cinematografia do mar, It’s All True.

O projeto de Orson Welles de filmar a travessia dos jangadeiros cearenses até o Rio de Janeiro para reclamar seus direitos previdenciários ao presidente Getúlio Vargas ficou inacabado, mas deixou as fotografias de still de Chico Albuquerque, que depois se aprofundaria no tema do jangadeiro na série Mucuripe.

É no protagonista Pedro (vivido por Daniel de Oliveira), nativo da ilha que volta como homem-bala, que o mito masculino da lenda local se agiganta. Mas a virilidade, mastro evidente do filme, é evocada ainda pela personagem de Pereio, que reúne em si as origens mágicas do cinema – Meliès – com Marlon Brando e subsequentes gerações de selvagens da motocicleta. Sintomática a relação que o ilusionista estabelece entre a impetuosidade das gangues de motoqueiros e dos artistas de circo: ambos invadem a cidade, virando seus ânimos, alterando seus ciclos.

A lenda do pecado original é contada por Mumbebo, pescador vivido pelo cineasta Ruy Guerra. Cego de um olho, é o mago local. O mito completa-se com o panteão das personagens femininas, formado pela mãe de Pedro; a dançarina sensual de nome Teorema – o filme de Pier Paolo Pasolini de 1968 –; e a suave e silenciosa Raquel, irmã e amada de Pedro e, possivelmente, a sereia de sangue azul que o título do filme reverencia.

Sem sobressaltos, ao som de Pupillo, baterista do Nação Zumbi, que assina a ótima trilha sonora, o filme se faz em ritmo lento, pausado – efeitos da ilha? Passa a sensação de preferir a via da fantasia à realidade. Mas lembra que, se os deuses vivem no Olimpo, suspensos a alguns palmos do chão, as mitologias nos falam de dramas demasiadamente humanos.

Sangue Azul, de Lírio Ferreira, nos cinemas a partir de 4/6

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