Demini na escuta: sobre o experimento Xapiri

Projeto de Leandro Lima e Gisela Motta, Laymert Garcia dos Santos e Stella Senra, e Bruce Albert, dá visualidade a processos xamânicos

Paula Alzugaray

Publicado em: 16/07/2021

Categoria: Destaque, seLecTV, Vídeo de Artista

Em A Queda do Céu (2015), Davi Yanomami Kopenawa conta que ainda era pequeno quando as imagens dos xapiri começaram a descer em sua direção. “Faziam com que eu me tornasse fantasma e me enviavam o sonho. Um caminho de luz se estendia então diante de meus olhos e seres desconhecidos vinham ao meu encontro.” Quando o xamanismo ainda era apenas uma vocação, Kopenawa ficava atento à caça na floresta. Assim agradava aos espíritos. Durante a noite, as imagens dos ancestrais animais se apresentavam a ele, com seus enfeites e pinturas brilhando de modo cada vez mais nítido diante dos olhos. “Esse tipo de coisa acontecia muito às crianças, no tempo em que os brancos ainda estavam longe da floresta. Mas, desde que se aproximaram de nós, os meninos e os rapazes não são mais como éramos antigamente. Hoje, é comum ter medo do poder da yãkoana. Temem morrer e, às vezes, chegam a mentir para si mesmos, pensando que um dia poderão virar brancos.”

Nessas palavras do livro escrito com o antropólogo Bruce Albert, resultado de seus 30 anos de convivência, está a semente da experiência audiovisual Xapiri (2012). O filme nasceu do desejo de Davi Kopenawa em reunir todos os xamãs Yanomami na sua aldeia Watoriki (Demini), no Amazonas, a fim de naturalizar e fortalecer o xamanismo entre as novas gerações de meninos indígenas. Um grupo transdisciplinar se formou então para trabalhar junto e viabilizar os dois encontros que, em março de 2011 e em abril de 2012, reuniram pela primeira vez na história 60 xamãs de diferentes aldeias e idiomas. O filme não foi um registro, mas o próprio disparador da experiência.

Os xapiri são guardiões invisíveis das florestas, espíritos nos quais os ancestrais animais dos povos Yanomami se transformaram. Eles são evocados nos rituais xamânicos para refrescar a terra, curar o corpo e afastar as epidemias. Sua aparição é cintilante e, seus cantos, ensurdecedores. Nos sonhos de Kopenawa, eles amarravam as cordas de sua rede bem alto no céu. “Era como se longas antenas de rádio fossem esticadas ao meu lado e funcionassem como caminhos para os xapiri e seus cantos chegarem até mim, assim como o caminho das palavras do telefone dos brancos”, escreve o xamã.

O entendimento do pensamento indígena como tecnologia – algo próximo ao que aparecia em sonho ao jovem Kopenawa – conceituou o filme. O argumento partiu do sociólogo Laymert Garcia dos Santos, que já realizava uma pesquisa sobre a relação entre o universo mágico Yanomami e as tecnologias da imagem. Laymert e Stella Senra sintetizaram a proposta: a ideia de que, durante o ritual de canto e dança, o xamã recebe os xapiri realizando uma espécie de download de um arquivo audiovisual. Seu corpo funcionaria como hardware e como software, processando um programa em uma espécie de partitura. A participação da dupla Leandro Lima e Gisela Motta, e seu histórico de pesquisa com tecnologias digitais de produção da imagem, compõe o coração do projeto.

Xapiri (2012) é um projeto colaborativo, dirigido por Leandro Lima e Gisela Motta, Laymert Garcia dos Santos e Stella Senra, e Bruce Albert, e configura o início de uma série de colaborações do grande xamã em projetos audiovisuais com diversos autores.

Multiperspectivismo
Xapiri é um experimento de linguagem. Se afasta dos modelos documentais e etnográficos de registro, não procura explicar ou representar o xamanismo, mas dar visibilidade a seus processos de incorporação e transformação. Não documenta a natureza, não persegue o real, tampouco é artificial. Mas cria uma extranatureza.

Embora produza a sensação do acontecimento em tempo real, os 55 minutos do filme são resultado de filmagens realizadas ao longo de quatro viagens e muitas semanas de rituais. Os minutos iniciais, gravados com câmera de infravermelho anunciam o projeto de dar forma ao que não é visível. As imagens que fundem floresta e corpos alcançam uma frequência de luz abaixo do vermelho e revelam uma temperatura de cor invisível a olho nu.

O filme não tem texto, só canto. As únicas palavras proferidas em português saem da boca de uma mulher indígena que se comunica com alguém distante da aldeia, via tecnologia, por rádio amador: “Prossiga, Demini na escuta”. O espectador escuta. A captação sonora de Marcos Oliveira é primorosa. Sons da natureza, de chuva, de vento se integram ao burburinho da aldeia e ao canto gutural dos xapiri. A fotografia de Leandro Lima é preciosa e segue a trilha sensível aberta por Claudia Andujar, em décadas de intimidade com a comunidade Demini.

Mas é no trabalho de edição que as entidades subjetivas humano-animais se desprendem daquilo que entendemos por fotografia documental. A velocidade se altera. Corpos desmaterializam, misturam-se entre si e com o espaço ao redor. A câmera participante se veste do transe e de um olhar multiperspectivo, indo buscar, com sobreposições de camadas e com colagens de pontos de vista (campo e contracampo), os seres-imagens em que os xamãs se convertem quando “fazem descer” os xapiri.

Clareia, escurece. A luz que emana do filme não é do dia, nem da noite. É de outra temporalidade e da claridade cintilante dos xapiris. É para fazer perder o medo do poder da yãkoana. É para entender que é dali que sairá a sabedoria para adiar o fim do mundo.

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