Derreter o picolé

Na música pop, associações entre sexo, mulher e comida foram assimiladas a serviço de pautas feministas sobre desejo

Leandro Muniz, Luana Fortes

N° Edição: 46

Publicado em: 04/05/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Reportagem

Ilustração digital a partir do clipe California Gurls, de Katy Perry (Foto: seLecT)

Metáforas sobre sexo a partir do universo da comida estão entre os recursos recorrentes usados pela música comercial há muito tempo. Seja em 1950 ou 2020, pintos podem ser pirulitos, esperma pode ser chantilly e qualquer outro alimento pode ser sensualizado num videoclipe com uma lambida em câmera lenta, sem falar nos casos em que as mulheres se vestem literalmente como frutas, prontas para comer. As formas pelas quais essas relações aparecem, no entanto, se transformaram ao longo dos anos: de objetificação ou infantilização da mulher para servir como símbolo da liberdade sexual conquistada pelo feminismo. Hoje, a mulher coloca-se no lugar de indivíduo repleto de desejo e desejável, reivindica a equivalência da sexualidade feminina e masculina e contesta narrativas sobre a suposta natureza incontrolável do homem.

O quarteto norte-americano The Chordettes teve como um de seus maiores sucessos a canção Lollipop (1958). Vestidas de acordo com o tradicional padrão da esposa ideal americana dos anos 1950, as cantoras relacionavam o homem amado a um pirulito, com uma suposta inocência que contrastava com a alusão ao falo, quando cantavam: “Ele ama me beijar até que eu não consiga enxergar direito. Nossa, meu pirulito é demais!”

Seis décadas separam os movimentos sincronizados das Chordettes da atuação de Lizzo. A cantora também estadunidense é um dos maiores exemplos de como a pauta feminista se transformou. Em 2019, ela lançou a canção Juice, na qual afirma: “Não, não sou mesmo um lanche. Olha, baby, eu sou a refeição completa”. Negra, gorda e estabelecendo passagens entre o rap e a música clássica ao introduzir solos de flauta em suas apresentações, a cantora de 31 anos se autoassimila a características de alimentos como forma de empoderamento.

Empoderamento ou objetificação
Outro recurso recorrente na música comercial é a associação entre sexo e elementos do universo infantil, como doces e cenários oníricos. Quando proposta por uma mulher, essa atmosfera pode representar uma experiência fetichista, na qual as tensões entre submissão e dominação para a obtenção do prazer são enfatizadas. A situação é bastante ambígua no clipe California Gurls (2010), em que Katy Perry e Snoop Dog se valem da infantilização como recurso para despertar tensão sexual. Enquanto o rapper observa de longe os movimentos infantis e sensuais de Katy Perry e de outras mulheres, a cantora vai desconstruindo a ilusão de que estaria ali para o prazer do observador. Ela canta que “Garotas da Califórnia são inesquecíveis e que por causa da pele beijada pelo sol, tão quente, vão derreter seu picolé”, em meio a um cenário encantado, onde se empenha em salvar suas colegas de gelatinas que as aprisionam, para que se revoltem contra o homem que controla a cena. Após movimentos que parecem da ordem da provocação, aparece uma alegoria do homem tolo, seduzido pela mulher infantilizada. O clipe reitera a ambiguidade entre empoderamento e objetificação, em uma mistura de internalização da normatividade e liberação de costumes.

Yes, nós temos bananas 
A marchinha de Carnaval de 1938, composta por Braguinha e Alberto Riveiro, a partir da versão norte-americana Yes, We Have No Bananas (1923), de Frank Silver e Irving Cohn, consagrou os versos “Yes, nós temos bananas. Bananas pra dar e vender(…) Pro mundo inteiro, homem ou mulher. Bananas para quem quiser”. A metáfora explícita entre a fruta e o falo traz para a discussão outro problema: a cultura de consumo está ligada à colonização e à associação da comida com a sexualidade, mas também pode aparecer atrelada a clichês de tropicalidade

Essa relação alia-se ao estereótipo da mulher brasileira no filme Entre a Loira e a Morena (1943), em que Carmen Miranda apresenta a canção The Lady In The Tutti-Frutti Hat. A personagem canta em inglês com um sotaque latino marcado, misturando palavras em português e espanhol. Em meio às perspectivas dramáticas, aos travellings das câmeras, aos clichês de tropicalidade e feminilidade, uma série de mulheres segura bananas gigantes para a realização de movimentos orquestrados que formam padrões visuais.

A fruta ainda aparece em Banana (2019), de Anitta e Becky G, que, por um lado, mostra semelhante nível de empoderamento feminino ao caso de Lizzo, mas, por outro, reitera a imagem de brasilidade imposta por um mercado cultural internacional ou perpetuada pelos próprios brasileiros. A música também é cantada em inglês e, assim como na de Carmen Miranda, eventualmente complementada com português ou espanhol.

Em todo caso, as mulheres que apresentam essas músicas atualmente revelam seus desejos e posicionamentos, sem o falso pudor ou as metáforas sublimadas do passado. A música comercial contemporânea revela a emancipação da mulher no terreno do prazer, por meio do empoderamento sexual e simbólico a despeito do universo masculino, como bem retrata a letra de Anitta e Becky G: “Eu sou a chefe, você vai fazer o que eu mandar. Siga a líder, venha até mim”.

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