Desvairar é preciso

Mostra evoca o Egito como um imaginário inconsciente da história cultural brasileira

Paula Alzugaray

N° Edição: 55

Publicado em: 03/10/2022

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Obras de Fernando Lindote e Flávio Império no núcleo “Índios Errantes” [Foto: Divulgação]

Tudo, menos calmaria. O título da tela de Tarsila do Amaral, que abre a mostra Desvairar 22, no Sesc Pinheiros, é uma falsa pista do que se apresenta nesta que é uma das últimas mostras do ano a repensar os sentidos do centenário da Semana de 22. Calmaria II (1929) foi pintada imediatamente após a exuberante e luminosa fase Pau-Brasil (1924-1928), anunciando a fase Antropofágica (1928-1930), das visões noturnas e dos seres imaginários de Tarsila. Em seu silêncio metafísico, essa tela contém, entre as geometrias sóbrias da composição, o elemento-chave que conduz a curadoria: uma pirâmide. Diferente de tantos projetos que, desde 2021, vêm buscando oferecer releituras do modernismo brasileiro, a exposição não parte de uma perspectiva histórica, mas especulativa. “Procuramos ir ao encontro da imaginação dos modernistas, das imagens que eram evocadas naquele momento. A presença completamente inusitada que emerge dessa pesquisa – uma presença paranoica – é o Egito”, diz Marta Mestre, que divide a curadoria da mostra com Veronica Stigger e Eduardo Sterzi.

Calmaria II foi pintada três anos após Tarsila voltar da viagem que fez com Oswald de Andrade ao Egito. As obras que se avizinham a ela neste prólogo de exposição reforçam as pistas para a narrativa inusual da curadoria: as introspectivas e misteriosas telas Paisagem Zero (1943), de Vicente do Rego Monteiro, e Paisagem Interna, de Flávio de Carvalho; e dois livros, Canaã (1902), em que Graça Aranha aborda a construção de uma pirâmide em São Paulo, e O Homem e a Morte (1922), de Menotti del Picchia, que tem na capa o desenho de uma esfinge, feito por Anita Malfatti. Arremata o conjunto a trilha sonora: Allah-La-Ô, a marchinha interpretada por Carlos Galhardo em 1941, em que o calor do Carnaval do Rio é comparado ao sol do deserto do Saara.

Ainda é tempo de o visitante se perguntar sobre o que é delírio, fato ou ficção na abordagem dessa história. “Tudo isso está nos documentos”, a curadora garante à seLecT, “mas também nas correspondências que a curadoria foi fazendo, relacionando a modernidade a um tempo dilatado, que volta ao século 19 e a Dom Pedro II, que era um grande egiptólogo, tradutor de línguas orientais e de As Mil e Uma Noites.”

Desvairar 22 levanta a suspeita incontornável de que a historiografia da arte talvez tenha atribuído demasiada atenção às viagens que os modernistas fizeram às cidades históricas de Minas Gerais. Em um “pequeno” desvio de rota, esta exposição vasculha os álbuns de retratos da lua de mel de Tarsila e Oswald no Cairo, e os retratos da comitiva de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina em viagem de turismo ao Canal de Suez, em 1871, encontrando ali outro imaginário fundante para a Semana de 22. Outro documento que ampara a tese dos imaginários cruzados é um recorte de jornal, de dezembro de 1922, que anuncia, na mesma página, a descoberta da tumba de Tutancâmon e uma exposição de Tarsila do Amaral.

Essa fantástica narrativa vai sendo arquitetada e construída, tijolo a tijolo, em torno de um sarcófago original de mais de 5 mil anos, emprestado do Museu de Arqueologia e Etnografia da USP e estrategicamente instalado no meio do espaço expositivo. Os artefatos históricos que Dom Pedro trouxe de sua expedição e formavam o maior acervo egípcio da América Latina foram queimados no incêndio do Museu Nacional do Rio de Janeiro, em 2018.

As salas se projetam como vértices de um Egito irradiador nas arquiteturas de Flávio de Carvalho, no urbanismo faraônico de Brasília, na “pornotopia” da arquitetura de motéis, no Egito negro de Abdias do Nascimento e das alegorias carnavalescas, em desvarios que chegam ao mosquito Aedes aegypti. “Aqui não é tanto sobre alargar o cânone, ou seja, trazer artistas que ficaram esquecidos, mas é mais sobre implodir esse cânone, fazer com que ele deixe de funcionar”, continua Marta Mestre, em defesa do impulso “paranoico” da exposição, isto é, trazer à tona um conhecimento paralelo da história. “Trazer o surrealismo como outra chave para entender o século 20 brasileiro.”

Mas nem tudo é metafísica e implosão. Os argumentos de Desvairar 22 sustentam-se com graça e harmonia sobre a frase extraída do “Prefácio interessantíssimo” de Mário de Andrade, em Paulicéia Desvairada (1922): “Está fundado o desvairismo”. Ao produzir um rasgo nas já consensuais releituras dos modernismos brasileiros, esta é uma exposição também interessantíssima.

Serviço
Desvairar 22
Sesc Pinheiros, Rua Paes Leme, 195
Até 15/1/23

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