Di, artista, boêmio e intelectual

Retrospectiva de Di Cavalcanti na Pinacoteca sublinha importância do artista para aumentar o alcance do modernismo brasileiro

Luana Fortes
Colonos (1940) "Algo que a mostra destaca é a recorrência de cenas de prazer e cenas de descanso na obra do Di", diz o curador José Augusto Ribeiro. (Foto: Jaime Acioli, Elisabeth di Cavalcanti)

Em comemoração aos 120 anos do nascimento de Di Cavalcanti, a Pinacoteca de São Paulo recebe retrospectiva com mais de 200 trabalhos do artista. A exposição elabora poderosas hipóteses tanto a respeito da produção de Di, quanto do contexto em que ele produziu.

A ideia de subúrbio expressa no título – No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 Anos – apresenta via de mão dupla em termos de discurso. Por um lado, atenta para a proximidade do artista com regiões menos assistidas em uma sociedade em desenvolvimento, como bordéis, cabarés e bares. Por outro, mostra como a cena artística do Brasil era restrita e com referência exclusivamente europeia. “O título tenta chamar atenção para o circuito internacional e para essa condição brasileira de não haver nenhum circuito de arte, de tentar fazer arte moderna mesmo sem um ambiente para isso”, conta José Augusto Ribeiro, que assina a curadoria da mostra, à seLecT.

Carta Ilustrada para Mário de Andrade (1930), exibida ao lado de caricaturas e desenhos de personalidades como Lima Barreto, Manuel Bandeira e Oswald de Andrade. (Foto: Instituto de Estudos Brasileiros – USP)

 

Assim, a exposição não se detém em simplesmente revelar facetas da obra de Di e aproveita para destacar sua importância como figura pública, dedicada a aumentar o alcance do modernismo. Para o curador, “geralmente se reforça a imagem do Di como um boêmio, o que era verdade, mas ele também era um grande intelectual”. Em uma sala dedicada apenas a desenhos e registros sobre papel, pode-se entrar em contato com charges, ilustrações para revistas, capas de discos, cartas e caricaturas. Diante de uma luminosidade rebaixada – escolhida, em parte, para atender termos de empréstimo para a conservação das obras – o espaço oferece uma pausa para reflexão sobre o esforço do artista no sentido de criar condições de apresentar seu próprio trabalho.

Existiu bastante resistência à produção moderna no começo do século XX. “Quando montaram o salão de 1931 na Escola Nacional de Belas Artes, que pela primeira vez apresentou artistas modernos na escola, o então diretor Lúcio Costa foi demitido por conta disso”, revela Ribeiro. Nesse sentido, Di Cavalcanti, o modernismo e o Brasil eram todos suburbanos. Di ao se debruçar sobre representações de pessoas e situações menos favorecidas. Os modernos por não se enquadrarem a modelos tradicionais sobre o que arte deveria ser. E o Brasil visto que o circuito de arte em nível global era prioritariamente europeu.

“O termo subúrbio é sempre relativo, porque para que exista um subúrbio precisa existir um centro”, afirma Ribeiro. E como todo embate pode ser reaproveitado, a exposição serve para retrucar antigas perguntas. Hoje, quem está no centro e quem está no subúrbio?

A pintura O Grande Carnaval (1953) mostra como existia uma observação das vanguardas europeias, como o Cubismo (Foto: João Musa, Acervo do Banco Itaú)

 

Serviço
No Subúrbio da Modernidade – Di Cavalcanti 120 Anos
Pinacoteca de São Paulo
Praça da Luz, 02
Até 22/1/2017
pinacoteca.org.br

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