Dia de festa

Cozinha Ocupação 9 de Julho fomenta sociabilidades, fermenta economia e faz crescer rede de apoio ao movimento pró-moradia

Paula Alzugaray

N° Edição: 46

Publicado em: 27/03/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Reportagem

Cozinha da Ocupação 9 de Julho (Foto: Edouard Fraipont)

Dia de festa é como é chamada a data em que acontece a ocupação de um edifício abandonado. Depois de muito tempo de preparação, identificando espaços ociosos da cidade, fazendo análises jurídicas e urbanísticas, levantando apoios e preparando o terreno, chega o Dia D da mobilização. 28 de outubro de 2016 foi o Dia de Festa da (re)ocupação do Edifício 9 de Julho, no Centro de São Paulo, pelo Movimento Sem Teto do Centro (MSTC). Começavam ali os trabalhos de implantação de instalações infraestruturais em 11 andares para a moradia de cerca de 130 famílias.

Alguns meses antes, não muito longe dali, 197 artistas promoviam na Funarte a mostra-leilão-protesto Aparelhamento Contra o Golpe de Estado no Brasil! Pela Democracia. Em seu manifesto o grupo defendia “um conjunto de ações a favor de uma ampla reforma política, a favor da democratização da mídia, pela luta contra a desigualdade social, em defesa das chamadas minorias sociais, das conquistas da mulher, dos povos indígenas, das periferias, pelas amplas conquistas trabalhistas e sociais”. A aproximação entre essas duas comunidades – de artistas e de moradores – germinou o que se conhece hoje como a Cozinha Ocupação 9 de Julho. Ao promover encontros mensais para cozinhar e comer junto, o projeto catalisa redes, coletivos de cultura e atividades artísticas que potencializam a luta pela moradia.

“A gente sempre pensou que a cozinha era um bom lugar pra começar nossa aproximação com a Ocupação”, diz o artista Edouard Fraipont à seLecT. “Entrar pela cozinha era uma boa forma de interação para chegar junto e trabalhar junto. E, de fato, a Cozinha é o projeto que hoje mais interage com o morador.” Cerca de 60 moradores estão envolvidos e comprometidos em fazer acontecerem os Almoços de Domingo, que ao longo de dois anos foram pilotados por 15 chefs convidados. “Costumo dizer que é como aprender, na prática, a diferença. Na cozinha, a gente ganha conhecimento sobre o trabalho, sobre o convívio, conhece outras culturas”, diz Fabrício Alves Amorim, militante do MSTC, que dá suporte aos chefs. “Todos os chefs que vêm pra cá, não vêm implantar o seu modo de fazer, eles vêm pra agregar o seu modo ao modo da Cozinha.” Desafiados a cozinhar para centenas – ou milhares – de pessoas, os cardápios são preparados pelos chefs com equipes de ajudantes da Cozinha Ocupação. Comida árabe, culinária de duas etnias congolesas, arroz de carreteiro boliviano, cozido pernambucano, cozinha ancestral, comida baiana, comida de terreiro e culinária eslava de inspiração judaico-polonesa estão entre os aromas culturais que vêm perfumando os domingos. A própria líder do MSTC, Carmen Silva, já cozinhou duas vezes.

Cozinha da Ocupação 9 de Julho (Foto: Edouard Fraipont)

Cozinhar, cantar, brincar, lutar
Os primeiros almoços começaram como ações coordenadas entre o Aparelhamento, o MTSC e a Bienal de Arquitetura, que teve um braço na Ocupação 9 de Julho. Era fim de 2017, eles ainda não tinham periodicidade definida e eram programados para “só” 150 pessoas.

Agora, todo mês tem dia de festa. A programação musical, que inclui artistas como Tulipa Ruiz e Arnaldo Antunes, contribui pra engrossar o caldo. O último almoço de 2019, “fechando esse ano de luta”, como anunciado no FB do projeto, reuniu as chefs do Paca Polaca, os tambores do Ilú Obá De Min e um público de 3 mil pessoas. “Todo mundo que vem trabalha de graça. Bandas, blocos, cozinheiros”, continua Fraipont. “Os únicos que ganham são os moradores ou membros do MSTC. Essa ligação política de apoio ao movimento e contra o desmonte que a gente está vendo da cultura e dos direitos está sempre presente. Isso liga todo mundo.”

Os Almoços fermentaram um ciclo de cursos sobre a culinária dos biomas brasileiros, estimulando os moradores a começarem seus negócios e produções próprios. Hoje, as barracas de comes e bebes nos eventos de domingo contribuem para a sua economia doméstica. É o caso de Joana e seu marido, que abriram a barraca de espetinhos; de Selma, com a barraca de acarajé; da Sheila, que criou coragem para colocar seus dotes culinários em prática e faz os bolos mais desejados da Ocupação. “A gente não paga nada para fazer os cursos, a gente só recebe. Ganha conhecimento, que é o mais importante. Qualquer morador pode participar”, diz a maranhense Sheila Silva Santos, há três anos moradora do 9 de Julho. “Tenho três filhos e trabalhar fora é muito difícil. Hoje, a barraca é uma grande ajuda pra renda da família, pois só o salário do meu marido não dava.”

A esse ciclo de prosperidade e autoestima soma-se a vontade de profissionalização. No fim do ano passado, foram formados dois grupos de moradores e colaboradores do MSTC – o coletivo Empodera e a Cozinha Ocupação –, para produzir e pensar cardápios, receitas e catering para eventos fora da Ocupação. Em dezembro, o Empodera assinou, por exemplo, o coquetel da abertura da exposição sobre o MSTC, na Escola da Cidade.

Lute como uma floresta
Como na floresta, da Cozinha nasce uma biodiversidade de projetos: shows, lançamentos de livros, leituras a céu aberto, sessões de cinema, performances, espetáculos de teatro, debates, cursos e oficinas. Uma porcentagem de toda venda feita durante o almoço vai para o caixa da Cooperativa Cozinha Ocupação. Em 2019, o projeto pagou o alarme de incêndio, a troca de extintores, ajudou no conserto da instalação elétrica do edifício, na manutenção da cozinha, fez benfeitorias na instalação do gás, comprou equipamentos para a cozinha, além de construir uma laje no oitavo andar.

“Sem dúvida, esse movimento em torno dos almoços abriu os olhos de muita gente da classe média sobre o que é o movimento de moradia, sobre o que é produzir uma Ocupação como a 9 de Julho”, diz Fraipont. “Esse é um processo que já vinha acontecendo com o filme Era o Hotel Cambridge, da Lili Caffé. A Carmen teve essa ideia de abrir as portas da Ocupação pras pessoas virem ver como é. Ela tinha essa política e a gente entrou assim.”

Além de operar a Cozinha, a comunidade dos artistas também entrou com a Galeria Reocupa, que reativou o antigo saguão do edifício no andar térreo. Lá aconteceu a exposição O Que Não é Floresta É Prisão Política, com encerramento em 7 e 8/3, com um leilão das obras para benefício da Ocupação e do MSTC. Com curadoria coletiva, dividida entre todos os participantes, as obras de mais de 60 artistas se distribuíram organicamente nos espaços. “A montagem nasceu da convivência entre os trabalhos, obedecendo à lógica da floresta, em que um ajuda o outro”, diz a artista Mariana Lacerda à seLecT.

As interações dos Almoços do Domingo também tiveram um papel na construção das obras. De Portas Abertas (2019), de Lucas Bambozzi, projetou sobre uma parede de tijolos um vídeo em que moradores abrem suas portas para o espectador-visitante. A bandeira Canalhas (2019), de Livia Aquino, foi resultado de uma oficina de bordado, em que a artista propôs a realização coletiva de uma tradução da obra Viva Maria, de Waldemar Cordeiro, censurada em 1966. Também durante um Almoço de Domingo, Ana Teixeira montou uma barraca de seu projeto Cala a Boca Já Morreu (2019), na rampa de entrada da Ocupação, convidando moradoras e visitantes a participar de uma “terapia política”. Usando como elemento disparador a pergunta “O que nós mulheres não queremos mais calar?”, ela promoveu uma conversa, da qual capturou frases para o trabalho, composto de um grande mural com desenhos de mulheres levantando cartazes com as frases que não querem calar. Doze dessas mulheres são moradoras e
cozinheiras.

Cala a Boca Já Morreu (2019), de Ana Teixeira, parte de uma conversa com moradoras da Ocupação 9 de Julho em torno da pergunta: O que nós mulheres não queremos mais calar? (Foto: Cortesia da artista)

A Ocupação 9 de Julho é uma cidade dentro de um edifício. Ensina que Ocupação não é só moradia: é educação, saúde, trabalho, cultura, política, meio ambiente, direito à cidade e empoderamento social. Tudo isso é alimento. Em 2020, começa uma parceria com o Sesc, de educação para o uso do lixo, com aulas de compostagem, plantio e separação de lixo. Como uma floresta, a Cozinha Ocupação 9 de Julho faz girar um ciclo de vida completo: plantar, cozinhar, reciclar.

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