Diálogos com o Brasil

Curadoria de Luiz Camillo Osorio observa a reverberação da obra do norte-americano Alexander Calder na arte brasileira

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 17/10/2016

Categoria: A Revista, Masters

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Alexander Calder - Santos (1956) (Foto: Calder Foundation, New York / Art Resource, New York © 2016 Calder Foundation, New York / AUTVIS, Brasil)

O que ainda há para se falar sobre Alexander Calder (1898-1976), o “inventor” dos móbiles de geometria abstrata que, sorrateiros, obrigam a gravidade a brincar com a leveza? Sua relação de intimidade com o Brasil. Há dez anos, uma exposição na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, e no Paço Imperial, no Rio, chamou a atenção para os efeitos que a cultura brasileira imprimiu sobre sua obra. Das três viagens que fez ao País, o artista levou a influência do samba para trabalhos rítmicos, em forma de instrumentos musicais. Do crítico Mario Pedrosa (1901-1981) ganhou um reconhecimento que nos anos 1940 ainda não gozava nem mesmo em seu país natal, os EUA. Agora, a exposição Calder e a Arte Brasileira, no Itaú Cultural, se debruça sobre o legado crucial deixado por Alexander Calder para o neoconcretismo brasileiro e as ações artísticas indissociadas da vida.

Alexander Calder - Sem Título (c.a. 1948) (Foto: João L. Musa ©2016 Calder Foundation, New York/ Autvis, Brasil)

Alexander Calder – Sem Título (c.a. 1948) (Foto: João L. Musa ©2016 Calder Foundation, New York/ Autvis, Brasil)

Com curadoria de Luiz Camillo Osorio, a exposição aproxima 32 obras do norte-americano a outras 28 de seus pares brasileiros, sejam os contemporâneos Abraham Palatnik, Lygia Clark e Hélio Oiticica (que conheceram Calder nos anos 1940-1950), sejam artistas de gerações posteriores, como Franklin Cassaro, Carlos Bevilacqua e Ernesto Neto. Antes de oferecer um percurso cronológico e, assim, assumir um discurso engessado, a mostra abre-se para diálogos plásticos e conceituais.

Contrariando os cânones do modernismo geométrico que caracterizava uma de suas grandes inspirações – Mondrian –, Calder subverteu a lógica industrial usando o imprevisto e o imperfeito característicos do ato poético. Pode-se perceber na desconstrução da rigidez geométrica, na incitação à participação do público (que, infelizmente, na mostra acontece só em duas obras) e na organicidade de forma e movimento que o artista foi um pioneiro da primeira metade do século 20.

Exemplo de seu despojamento lúdico que tanto sintonizou com o espírito neoconcreto é o filme de 26 minutos em que o próprio artista apresenta seu circo, criado a partir de 1929 e guardado em cinco malas. Pela mão do ex-engenheiro químico, pedaços de arame e pano toscamente esculpidos surgem como engolidor de espada, leão, domador, trapezistas, cães amestrados e afins. Síntese do universo do artista, que a exposição recoloca em primeiro plano: acima das máquinas e das regras do capital, a instabilidade inerente ao ser humano deixa de ser defeito para se tornar beleza.

Serviço
Calder e a Arte Brasileira
Itaú Cultural
Avenida Paulista, 149, Consolação, São Paulo
Até 23/10
De terça a sexta-feira, das 9h às 20h; sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
Tel.: (11) 2168 1776

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