Dias de patrulha

Como galerista, entendo que meu papel é proteger a livre expressão enquanto condição natural da arte

Márcia Fortes
Still do filme Terremoto Santo (2017), de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca (Foto: Cortesia dos Artistas, Galeria Fortes D'Aloia & Gabriel)

Quanto à censura, ela só tem mesmo uma serventia: aguçar a força da expressão. É como quando somos criança e nossa mãe afirma não ser hora de fazer certa coisa, fazendo daquela coisa nosso maior objeto de desejo. Quando antes a nudez era algo natural, mal era notada se frontal ou de perfil em um retrato, hoje sua condição foi elevada a grito de efeito, elemento de choque, ganhando destaque e causando frisson. Tornou-se maior do que é, a nudez na arte. O natural metamorfoseado em aberração. A censura, portanto, talha um desvio artificial na arte; a censura é uma perversão.

Como galerista do chamado mercado primário, atuo como agente representante de artistas e entendo que meu papel seja o de proteger a livre expressão enquanto condição natural da arte. Estaria, assim, atuando aquém de minha função se deixasse a censura prevalecer. Estaria também atuando aquém de minha função se deixasse o interesse comercial sobrepor-se à livre expressão. O bom exercício da profissão exige plena consciência dialética. Artistas muitas vezes não se interessam pelos interesses comuns ao senso comum. A tradição, o costume, a categorização, o vernáculo e a ordem nacional são conceitos antíteses do melhor na arte, que se desenha pelo oposto, manifestando o inédito, o autêntico, o único.  A arte revela o que até então permanecia velado pelo hábito. Procuro não me esquecer dessa premissa, que engendrou minha promessa de proteger o lugar da arte que foge ao cômodo e ao comum; arte que incomoda, por romper com o status quo.

Como então evitar que o ambiente atual de censura contamine o meu fazer e o fazer de minhas/meus artistas? Mais ameaçadora, porque mais ardil, é a autocensura que se alastra como erva daninha no circuito das artes. Uma exposição que não foi fechada, mas que já abriu tolhida, sem aquela obra mais provocadora, sem a imagem “aberrante”; sendo assim uma exposição que cutuca, mas não incomoda. Como evitar essa arapuca sinistra da autocensura, gerada pelo medo, pela forte pressão externa da “família”, da religião, do mercado, e mesmo, paradoxalmente, do politicamente correto? Lutamos pela democracia, mas o cerceamento às liberdades nos chega de todos os lados. Vivemos dias de patrulhamento fortemente armado, literal e metaforicamente.

Represento uma artista acusada de “incentivar a zoofilia e o estupro” em sua pintura, contribuindo para o fechamento de uma exposição coletiva. Ameaçada de morte pelos algozes do Facebook e do Instagram, perdeu o tesão de expor no País. Não obstante, exibimos pouco depois na galeria sua nova obra, cujas variadas imagens de amamentação incluíam uma cabra amamentando um bebê. Represento um artista acusado de expressar racismo em seu vídeo erotizado. Foi linchado verbalmente por uma raivosa ativista trans e até pensou em desistir de fazer arte. Chegou a retirar o vídeo de circulação, mas, ato seguinte, aceitou o convite de uma curadora para mostrá-lo em outra exposição. Represento uma artista acusada de ofender os evangélicos e glorificar os evangélicos, simultaneamente, numa mesma obra. Seguiu adiante e está produzindo novo vídeo, doa a quem doer. Represento um artista que suprimiu certo adjetivo dito sexista de seu texto ao revisar a segunda edição da obra. Mulheres “não devem” mais ser gostosas, mas ainda podem ser lindas.

Estamos todas e todos alertas. Deveríamos usar todxs ou todes? Deveríamos proibir a entrada de menores de idade ou colocar um aviso à entrada da galeria, “esta mostra pode ferir crenças religiosas…”? Ou deveríamos deixar que a exposição surpreenda a quem tiver que surpreender, excite a quem se excitar, ofenda a quem ofender e que encante a quem encantar? Direitos estão na pauta de discussão a cada obra, a cada exposição. Defender todos os direitos é exercício complexo. Sinto-me errante na tarefa, ainda que determinada na defesa da liberdade de expressão, garantida pela Constituição de 1988. Costumava entender a arte como um direito ao desatino, como ação desmedida. Hoje tudo se mede. “É preciso estar atento e forte.” Vou construindo argumentos a cada novo episódio. Enquanto isso, uma vozinha em mim ainda ecoa dizendo que o lugar do delírio não cabe à razão.

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