Distância

Mostra online na Pinacoteca situa o debate sobre uso do digital como linguagem sob uma perspectiva histórica

Leandro Muniz

Publicado em: 18/06/2020

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Frame de 9493 (2011), de Marcellvs L. (Foto: Divulgação)

Com curadoria de Ana Maria Maia, a exposição virtual Distância reúne vídeos de Cao Guimarães, Marcellvs L, Sara Ramo, Letícia Parente e Dalton Paula, pertencentes à coleção mu- seu. Os vídeos são intercalados por trechos de um ensaio que tece relações entre os trabalhos, como a presença de sujeitos isolados por questões de gênero, raça, classe econômica ou motivos existenciais em todos eles. Nada mais pertinente para este momento de distanciamento social. As dúvidas despertadas pela mostra, no entanto, dizem respeito ao funcionamento institucional de uma mostra online e que desafios os museus, as galerias e os espaços independentes estão enfrentando hoje para repensar sua programação virtual.

A exposição traça uma breve história do vídeo no Brasil, apontando mudanças tecnológicas, de interesses temáticos, assim como no perfil dos artistas em atividade no País. “Os avanços tecnológicos são anteriores aos seus usos na arte e é comum, historicamente, que momentos de crise façam repensar as práticas dadas”, diz a curadora à seLecT. O acervo de vídeos da Pinacoteca começou a ser formado nos anos 2000 e agora, com esta primeira experiência expositiva no ambiente online, a equipe curatorial do museu busca entender suas possibilidades de atuação no mundo digital.

Distância tem um período de exibição determinado, em parte como resposta à quarentena, em parte por questões burocráticas e legais. Mas, na medida em que o online não envolve uma série de custos da exposição física, valeria ponderar a pertinência de se manter uma sequência de vídeos no ar por tempo limitado. Expor por tempo determinado pode ser uma forma de reproduzir o modus operandi de exposições presenciais – além de uma resposta a acontecimentos sociais no calor da hora –, mas também vir a promover a fetichização de uma mídia que, a princípio, poderia ganhar a chance de fazer valer a especificidade de sua característica própria de reprodutibilidade e democratização.

Uma mostra online de vídeos também faz pensar nos aspectos fenomenológicos de uma exposição, como os deslocamentos do corpo, as relações de escala e materialidade. No online, a exploração do tempo e dos ritmos entre texto e imagem gera outras experiências com seus limites específicos. “Não me interessava replicar o espaço expositivo, mas me colocar como ensaísta, costurando os trabalhos, quase como numa visita guiada”, diz Ana Maria Maia.

Desde o início da pandemia, com a proliferação de atividades online no sistema da arte, tornou-se lugar comum dizer que a exploração do digital como linguagem chegou tarde nas instituições. Para além de uma euforia tecnofílica ou uma melancólica constatação dos limites institucionais no digital, Distância tem o mérito de abrir um espaço de reflexão complexo. É possível adentrar na singularidade das obras, em suas relações e compreender a relevância da mostra na pesquisa sobre a coleção do museu, colocando o debate atual em uma perspectiva histórica.

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