Diversidade de opinião em sala de aula

E-book propõe dez obras de artistas mulheres para ajudar professores a tratar as urgências do nosso tempo

Paula Alzugaray

Publicado em: 11/03/2021

Categoria: Arte e Educação, Destaque

Obra de Claudia Andujar no projeto Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural (Foto: Iara Venanzi/Itaú Cultural

“O que esta obra significa?”. À pergunta frequente durante as visitas de escolas a exposições, Mônica Silva, educadora do Itaú Cultural, costuma devolver: “O que você acha que significa?” ou “O que significa para você?”. Ao responder à pergunta com outras questões, a educadora abre caminho para o grupo pensar junto: “Será que existe um único sentido possível para uma obra?”. Então, ao considerar diversos sentidos, os visitantes são incitados a entrar em contato com uma condição válida e necessária tanto para visitas a exposições de arte, quanto para a sua realidade cotidiana: a diversidade de opiniões.

Obra de Virginia de Medeiros no projeto Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural (Foto: Edouard Fraipont/Itaú Cultural)

A experiência proposta no espaço expositivo serve para a vida e para a sala de aula. A partir do pressuposto de Paulo Freire de que “não há saber mais ou saber menos: há saberes diferentes”, dez obras de dez artistas mulheres foram reunidas em um e-book gratuito, para ajudar professores a abordar com alunos temas urgentes como questões indígenas e de gênero, racismo, visibilidade social e vida urbana.  

O livro já começou a ser usado por professores da rede dos Centros de Educação Unificados (CEUs). “Estamos em um momento atípico. Essa pandemia nos pegou de forma avassaladora e temos que ser criativos”, diz Cléo Pereira, coordenadora de projetos culturais do CEU Vila do Sol, à seLecT. “Trabalho na área cultural e vejo como eu e meus colegas dos 46 CEUs estamos nos desdobrando para manter conteúdo interessante para serem apreciados de forma on-line. Embora as escolas em sua maioria estejam com somente 35% das aulas, muitas educadoras estão se esforçando para trabalhar de forma inteligente e visionária.” 

Obra de Berna Reale no projeto Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural (Foto: Acervo Itaú Cultural)

Com textos de Mônica Silva, Cléo Pereira e Duanne Ribeiro, o livro propõe uma metodologia para que a diversidade de vozes seja favorecida. Para isso, sugere que o primeiro encontro com cada uma das dez obras escolhidas deva ser livre de mediações e isento de interpretações, mas um livre exercício do olhar. “Obras de arte convocam não apenas o intelecto, mas os sentidos, a memória e às vezes até dimensões que escapam à linguagem”, escreve Mônica Silva no livro. 

O jogo aqui proposto pede que, sem qualquer legenda, ficha técnica, ou conhecimento prévio da história da arte, o observador relacione essas imagens com acontecimentos da própria vida e busque reconhecer quais são as problemáticas por trás da peça artística e o modo como ela se revela. 

Obra de Jac Leirner no projeto Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural (Foto: Sergio Guerini/Itaú Cultural)

Experimente você mesmo! Tente se perguntar sobre os sentidos contidos na imagem de uma mulher, vestindo um longo vertido preto, caminhando pelas ruas de um bairro periférico de uma cidade, empurrando um carrinho de mão com ossos humanos. Observe também os retratos em preto e branco de indígenas, jovens e velhos, com o torso nu, trajando apenas placas numeradas presas ao pescoço. Atente para uma colagem feita com dezenas de cédulas antigas de 100 mil Cruzeiros ou 100 Cruzados, em que a ilustração – do ex-presidente Juscelino Kubitschek – está “pixada” com barbas, bigodes, chifres de diabo etc. 

Os outros sentidos possíveis para a interpretações das obras mencionadas, de Berna Reale, Claudia Andujar e Jac Leirner – e mais as de Leda Catunda, Rochelle Costi, Rosana Paulino, Sara Ramo, Shirley Paes Leme, Vânia Mignone e Virginia de Medeiros –, estão acessíveis nos textos apresentados no e-book gratuito Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural – Artistas Mulheres Contemporâneas.

A escolha das obras foi realizada pela equipe do Acervo do Itaú Cultural, a partir das coleções do Banco Itaú e do Itaú Cultural. O projeto começou com o compartilhamento dos trabalhos no Instagram e no site da organização, considerando o pouco acesso do público a eles, especialmente durante a pandemia. “Para criar uma harmonia narrativa, agrupamos as obras em pequenas editorias, ou temas. A escolha das artistas mulheres se deu por entendermos a importância de sua pluralidade”, diz Naiade Gasparini, produtora do Acervo. 

Em curadorias anteriores, o projeto abordou os temas “interiores”, “cidades” e “esculturas”. O próximo ciclo, que já começou em posts no Instagram, traz artistas negros, e a primeira coluna foi sobre a artista Aline Motta. “Ressaltamos que essa série se funda nas obras e chega nos problemas, se eles aparecem nas obras”, diz Duanne Ribeiro, jornalista da equipe de Comunicação e editor da publicação. 

Obra de Rosana Paulino no projeto Diálogos entre Educação e Arte com o Acervo Itaú Cultural (Foto: Arquivo da artista/Itaú Cultural)

Para reconhecermos o papel social que a arte presta ao se oferecer ao usufruto do olhar de qualquer pessoa atenta, curiosa ou interessada, basta pensar nas vantagens de se aplicar esse mesmo método de observação crítica também a qualquer imagem do repertório cotidiano que nos invade. Seja pela mídia, a publicidade ou, especialmente, pelas redes sociais. 

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