Divirta-se

Paula Alzugaray

Publicado em: 05/10/2012

Categoria: Editorial, seLecT#08

Na seLecT #8, Mundo Cão: a banda podre da política, da notícia e do entretenimento

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Na entressafra das edições do Big Brother Brasil, o programa mais moralista e sexista da televisão brasileira, fomos abastecidos nos últimos meses por outras categorias de reality show: em território nacional, o julgamento do esquema do mensalão, além dos barracos e baixarias de praxe nas campanhas eleitorais municipais; e nas páginas internacionais dos jornais e revistas, assistimos de camarote ao oportunismo do candidato republicano à eleição presidencial nos EUA, que se aproveita da revolta islâmica contra a cultura americana para aferir um golpe sobre o rival.

Esses novelões da vida real rivalizam em gênero e grau com o esfuziante cardápio de atrações das tevês abertas e pagas. Datena, Ratinho, Roberto Cabrini, Marcelo Rezende e as lutas do UFC engrossam o caldo dos casos escabrosos que fazem o Bom Dia Brasil das emissoras. E assim caminha a humanidade, rumo a um mega-ataque de nervos ou a uma melancolia sem-fim.

Em tempos estridentes e sombrios como estes, seLecT opta pela estética do choque. Se, como afirma Susan Sontag, para muitas pessoas a brutalidade física é antes um entretenimento que um choque, nós assumimos, como propôs Guy Debord, usar da estratégia do espetáculo no contra-ataque ao espetáculo. É a lei do mundo-cão. Essa é uma pauta com tentáculos para todas as áreas da vida cultural. Para além da política, da corrupção, do jornalismo marrom, do cinema catástrofe, do terror e dos pet shops, evoquemos também as formas mais sutis e sofisticadas da vida canina no design, nas artes visuais, na arquitetura, na música e afins. Revoltosos, nossos editores, repórteres e colaboradores levantam a bandeira do homem comum: abaixo o design canalha!

Na capa criada por Ricardo van Steen, a partir da apropriação da linguagem dos tabloides e produzida sobre uma pintura especialmente criada pela artista Dora Longo Bahia, elegemos como ícone do mundo-cão o cineasta Quentin Tarantino. Enquanto aguardamos o lançamento de seu novo filme, Django Livre – a saga de um escravo no Sul dos Estados Unidos, às vésperas da guerra civil –, temos a chance de atualizar o tema no site Slavery Footprint (leia no texto de Giselle Beiguelman, em Navegação). E conhecer o mapa da escravidão hoje e saber o que você tem a ver com isso.

Basta seguir 11 passos para saber quantos escravos trabalham para você, em que região do planeta eles vivem e quais os maiores vilões de seu estilo de vida. Seu smartphone, seus sapatos de couro, seu cafezinho. A escravidão está por trás de tudo que nos cerca. Nesse passo a passo em linguagem lúdica e divertida, descobrimos fatos insuspeitos. Qual a relação de Bill Clinton e Justin Bieber com a escravidão?

Muitos meninos paquistaneses são afastados da família, com a idade de 13 anos, e levados ao trabalho escravo. Os contratos duram até eles completarem 30 anos. Se esses meninos fossem libertados hoje, eles teriam começado seu trabalho quando Bill Clinton entrou no Congresso americano pela primeira vez e quando Justin Bieber nasceu. Você não vai mudar o mundo deixando de lado os objetos do seu cotidiano. Mas ter consciência é o primeiro passo.

*Publicado originalmente na edição impressa #8.

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