Divisor de águas no mapa do fogo

Diante das profundas transformações que testemunhamos, a revista seLecT dedica sua 48ª edição ao tema algoritmo

Paula Alzugaray

Publicado em: 01/09/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Editorial

Em Datageist (2019), de Adam Harvey, a visualização do rastreamento é feito por câmera térmica do deslocamento de uma pessoa no campus da Duke University, EUA (Foto: Divulgação)

Desde março, quando foi decretada a pandemia da Covid-19, até 1º de setembro, fechamento da edição #48 da seLecT, tivemos todos, cada qual imerso em sua própria tela ou casulo, um semestre que nos desafiou à reflexão. Superado o estágio do assombro, pudemos, uns mais e outros menos, entender que o mundo já não é mais o mesmo.
Tanto uns quanto outros se deparam com o choque do real. No mapa do fogo ardem os incêndios do desmatamento consentido, cresce a pobreza e a disparidade social, aumenta a violência policial e expande-se significativamente o espectro da violência social algorítmica. Ela se projeta aprofundando o racismo e consolidando a negligência do Estado com os mais vulneráveis e com a cultura.
Esta edição reflete a mudança que atravessamos e se propõe a tentar riscar um divisor de águas nesse mapa do fogo. Entre as profundas transformações que testemunhamos, firma-se uma nova modalidade de colonialismo (o dos dados), conforme explica o professor Ulises Mejias em entrevista à seLecT. Nesse contexto de “datacolonialismo”, o corpo é dominado pelo escaneamento de sua fisiologia e deslocamento no espaço e “transformado em senha”, diz Giselle Beiguelman, editora convidada desta edição em Live disponível em nosso canal no YouTube.
A revista também mudou e esta edição, que dedicamos a decifrar a centralidade do algoritmo na cultura contemporânea, compreende mais do que estaria tradicionalmente contido em 100 páginas impressas. Dela fazem parte os textos de Opinião que publicamos no site da seLecT desde o início da pandemia: entre eles, Margem de Negociação, de Pollyana Quintela; Parem a Competição Já, de Daniel Jablonskli e Flora Leite; Museologia pós-pandemia, de András Szántó; Inércia Produtivista, de Patricia Mourão; A Crise e a Desigualdade Racial nas Artes: Um Diálogo sobre Cotas, de Luciara Ribeiro e Domingos Oliveira; Demissões em Massa e Mudanças de Base, de Leandro Muniz, e também uma entrevista de Nina Rahe com a curadora do Whitney, Christiane Paul, cuja íntegra e o original em inglês podem ser acessados no site da seLecT.
Buscando formas de resistência a essa realidade emergente, que entre nós inclui também o retrocesso de conquistas democráticas, recorremos às pedagogias insurgentes dos artistas e curadores, voltadas a educar para as novas formas de controle distribuídas nos apps e nas redes sociais. Assim, Maryam Monalisa Gharavi e seu corpo invisível ao rastreamento de dados; Vitória Cribb e a reinvenção dos espaços da arte digital; e o discurso e a prática crítica de Tarcízio Silva, Trevor Paglen, Kate Crawford e Adam Harvey traçam rotas para refazer esse mapa do fogo, apontando meios sobre “como descolonizar algoritmos”.

 

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