Do comum ao sublime

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 29/09/2015

Categoria: Crítica, Review

Em Homem Comum, Carlos Nader aborda com delicadeza a consciência da morte e a fé na vida pelo olhar do caminhoneiro Nilson de Paula

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Legenda: Nilson de Paula, protagonista do filme de Carlos Nader

Aviso: este texto contém spoiler

No início de Homem Comum (110 min., 2014), filme de Carlos Nader em cartaz no Espaço Itaú de Cinema, um homem discute com sua filha durante um piquenique, e o próprio cineasta intervém para evitar desentendimentos. A partir daí, a complexidade e a riqueza da existência desfilam pelos olhos do espectador, juntando as pontas da vida e da morte por meio da trajetória do caminhoneiro Nilson de Paula.

Entre 1996 e 2012, Nilsão, como Nader o chama carinhosamente, teve trechos de sua vida gravados pelo cineasta. Seus caminhos se cruzam pela primeira vez quando Nader inicia gravações para um projeto que nunca viria a concluir. Nele, conversa informalmente com diversos motoristas de caminhão e, de súbito, pergunta: “Você não acha que a vida é meio estranha? Às vezes você não tem a impressão de que está vivendo um sonho, de que a vida não é real?”

Para quem trabalha duro, metafísica é luxo inexistente. Nenhum dos motoristas dá mostras de sequer entender a questão. Nilsão tampouco, mas de alguma forma, estabelece um laço com o diretor, que começa a gravar sua vida em casa, com a filha pequena e a mulher, de quem se despede tranquilamente quando tem um transporte a fazer, como dos porcos amontoados claustrofobicamente entre as grades do caminhão. Nilson leva os animais empurrados, chutados para a caçamba, e, numa elipse, saboreia sem culpa linguiças num rodízio durante a viagem. Não se dá conta – ou prefere não se dar – do ciclo alimentar que ele mesmo compõe.

Após três anos, uma fatalidade se abate: sua mulher, Jane, morre, e o caminhoneiro chama Nader para filmar o enterro. Comove-se, chora. Tem uma compreensão muito genuína da perda irreparável. Mas nem essa constatação o desanima: o jeito é seguir em frente e viver, não há o que fazer.

Tempos depois, em 2010/2011, Nilsão volta a ser gravado por Nader: perdeu quase toda a visão, tem um saco de colostomia preso ao abdômen, tenta fazer as pazes com a filha, agora mulher feita e mãe de uma garotinha que ensaia os primeiros passos. Daí a discussão inicial, em que a moça reclama do pai, afirmando que ele precisa de uma câmera para dizer a ela que a ama. Curiosamente, Nilson tem esse fascínio pela câmera, mas não por ver o que ela conservou: o cineasta pergunta se o caminhoneiro não gostaria de rever o material gravado, mas este diz que não se importa, que aquilo tudo é passado. Ao mesmo tempo em que deseja o registro, a perenidade da câmera, Nilson desdenha do que ficou. Então por que pede que sua vida seja gravada?

De forma inconsciente, ele percebe o ciclo em que se insere, da inevitabilidade da morte e dos percalços que encontra no caminho. Mas escolheu acreditar no que vive, ver na vida aquilo que o ajuda a seguir. Por uma compreensão tácita da impossibilidade de controlar o destino, o caminhoneiro prefere amar a vida sobre todas as desgraças que se abatem sobre ele. Como a prostituição da filha ainda muito nova, que faz com que rompam relações – donde vem a primeira cena do filme, quando tentam reatar laços. Por essa compreensão que nem entende ter, o que Nilson pede é mais do que a gravação de momentos para recordação. É a conservação de sua vida para além da morte.

Carlos Nader procede uma construção de tal sutileza que torna-se um dos grandes momentos que só o cinema pode proporcionar com sua comunhão intimista dada a pouca luz. Convida o caminhoneiro a assistir a obra prima do cineasta dinamarquês Carl Theodor Dreyer, A Palavra (1955), que tem suas cenas entremeadas por toda a narrativa. Naquele filme, o homem de um povoado acredita ser Jesus e, quando sua cunhada morre no parto, faz sua ressurreição, na qual apenas sua pequena sobrinha acreditava. Ao ver o desfecho do filme, Nilsão comenta que afinal o personagem não era louco, ao contrário dos demais, esses sim loucos. Por acreditar, o autoproclamado profeta era o único são.

Dessa forma, Nader liga todas as pontas dessa história singular. Nilson é o homem de fé, é o homem que crê na vida sobre todas as coisas. Mesmo quando perde a mulher (e depois encontra uma namorada, à qual faz uma das declarações de amor mais lindas não só do cinema, mas da vida real também), mesmo quando expulsa sua filha de casa ao descobri-la prostituta, mesmo quando anda com dificuldade, enxerga quase nada, tem os rins prejudicados e espera na fila do transplante. Morre antes de conseguir um novo rim, mas não tem medo, antes de morrer, de encenar o próprio enterro.

Carlos Nader, que confessa no filme ter iniciado as gravações com Nilsão numa época descrente, declara que aprendeu com esse homem comum a ter fé na vida, mesmo diante das adversidades inerentes. E assim transforma o recorte de uma vida simples numa declaração de amor à vida. Nilson não queria ter sua vida gravada para consumo próprio, para tentar não perder o que inevitavelmente se vai com o fluxo do tempo – muito evidente no percurso do filme. Era, de alguma forma, a tentativa de permanecer, de burlar a morte, de deixar sua marca no mundo. Nader, como bom discípulo, faz como o homem de fé de Dreyer: com seu filme, torna Nilson de Paula eterno, como numa ressurreição.

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