Do country ao queer

Com pole dance vertiginoso e lapdance com o demônio, o novo clipe do jovem músico Lil Nas X de Old Town Road constrói uma alegoria queer poderosa e afrofuturista

Juliana Monachesi

Publicado em: Vol. 10, N 51, Julho/ Agosto/ Setembro 2021

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque, Review

Frame do videoclipe (Foto: Reprodução)

“Na vida, escondemos a parte de nós mesmos que não queremos que o mundo veja. Nós a trancamos num lugar seguro, lhe dizemos não, nós a banimos, mas aqui, não fazemos isso. Bem-vindx a Montero”, anuncia Lil Nas X na abertura do videoclipe de seu novo single, Call Me by Your Name (2021), referência ao filme Me Chame pelo Meu Nome. De uma imagem celeste de nuvens com forma de estalagmites que emolduram, ao fundo, a silhueta de um ser de luz, identificável pelo halo dourado, um travelling leva o espectador para baixo das nuvens e, em velocidade alucinada, por uma paisagem que exibe ruínas greco-romanas, até ganhar a forma de uma serpente, que entra em cena quando o rapper termina de dar as boas-vindas a Montero. Tocando violão, sentado ao pé de uma árvore sintética − caule de mármore e folhas-frutos de plástico −, Lil Nas canta em tom melancólico I caught it bad just today / You hit me with a call to your place / Ain’t been out in a while anyway / Was hopin’ I could catch you throwin’ smiles in my face [“Fiquei mal hoje / Você me surpreendeu com um convite para a sua casa / Faz tempo que não saio / Esperava que você pudesse colocar sorrisos no meu rosto”], enquanto a serpente desce lasciva e fluorescente pelo tronco pálido.

A baladinha e as palavras doces duram exatos 30 segundos. Assim como a paz do rapaz ao violão, que começa a ser perseguido pela cobra transmutada em homem-serpente-mutante sob acordes nervosos de guitarra e percussão que mesclam electropop, hip-hop e techno flamenco, enquanto, na letra, Lil Nas X demole o romantismo, diz que o cara pode ser interessante para uma noitada, mas detona o uso de drogas e bebedeiras do crush como negacionismo [Lookin’ at the table, all I see is weed and white / Baby, you livin’ the life, but nigga, you ain’t livin’ right / Cocaine and drinkin’ with your friends / You live in the dark, boy, I cannot pretend / I’m not fazed], e sem dizer o que ele deve ou não fazer, sem lição de moral, declara: “Ligue quando quiser, ligue quando precisar, ligue de manhã, estarei a caminho”. Depois de Adão ser seduzido pela serpente, a câmera retorna à árvore do conhecimento para focalizar uma inscrição em grego, atribuída a Platão, que vaticina que “após a divisão, as duas partes do homem” vagarão “desejando sua outra metade”. Segue-se uma mudança de cenário: Lil Nas X está acorrentado numa espécie de Coliseu, onde os participantes do julgamento (todos interpretados pelo próprio cantor) usam peruca à Marie Antoinette, enquanto a multidão enfurecida nas arquibancadas apedreja o mártir.

Frame do videoclipe (Foto: Reprodução)

Em uma entrevista concedida na véspera do lançamento do single, X afirmou ter descoberto uma autoconfiança inaudita ao conseguir se expressar tão livremente na nova música e, em revista publicada em maio, narrou o conflito vivido entre a própria sexualidade e sua educação cristã. Filho de um cantor gospel, Lil Nas X classificou a música e o videoclipe de “rebeldes”, por inaugurar uma nova narrativa sobre si, deixando para trás a popularidade viral construída com o rap country Old Town Road (2019), que ficou 19 semanas em primeiro lugar na Billboard. No dia em que o clipe foi lançado, escreveu na sua conta do Twitter que desejava “abrir portas para muitas outras pessoas queer simplesmente existirem”. Acadêmicos ouvidos pela revista Time afirmam que o clipe de Montero é profundamente pesquisado e constrói uma narrativa histórica poderosa que centra a identidade queer em espaços históricos e religiosos de onde costuma ser apagada. “Assistindo a este vídeo, fiquei um pouco chocado com a quantidade de repertório que você precisa ter para desvendar alguns desses elementos”, afirma Roland Betancourt, professor da Universidade da Califórnia em Irvine e autor de Byzantine Intersectionality: Sexuality, Gender, and Race in Middle Ages. “O vídeo mostra que a institucionalização da homofobia é uma coisa aprendida − e que existem outros mitos de origem disponíveis para nós que não estão enraizados nessas ideias.”

Na sua subida aos céus, depois de morto, momentos antes de chegar muito perto de um anjo, o nosso herói escolhe o caminho inverso. Lil Nas X escolhe descer ao inferno, performando a pole dance mais longa e vertiginosa da história da cultura pop. Aterrissa pleno em seu poder, com longas tranças ruivas, botas de cano alto e salto agulha, vestindo apenas uma samba-canção Calvin Klein. O inferno tem ar de Wakanda, paraíso perdido nos confins do mundo, o segredo mais bem guardado da mitologia afrofuturista convocada constantemente na estética do videoclipe. O performer vai diretamente ter com Satã, seduzindo o ser infernal ao performar uma lap dance para deixar qualquer um sem fôlego. Satã fica sem reação (e nós, espectadores, idem), o que permite que Lil Nas X torça o pescoço do demo e tome para si seu chifre, proclamando-se rei. Do outro lado das telas, para além da alegoria construída com requinte, o artista recebeu muitas críticas pelo conteúdo explícito da letra e do vídeo de Call Me by Your Name. Do alto de seus 23 anos, vem respondendo a cada uma delas com categoria, como em post recente nas redes sociais, onde responde: We are four months in and people are still acting surprised that I am being gay and sexual in performances of a song about gay and sexual shit. [“Já faz quatro meses e as pessoas continuam se mostrando surpresas por eu estar sendo gay e sexual em performances de uma música sobre coisas gays e sexuais”]. É sobre isso.

Montero (Call Me by Your Name),
de Lil Nas X,
278.778.065 visualizações em 3 meses @

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