Doméstica, mas não domesticada 

Paula Scavazzini trabalha no limite entre o conforto e o incômodo em série de pinturas em exposição no Projeto Vênus

Paula Alzugaray

Publicado em: 03/03/2022

Categoria: Da Hora, Destaque, Reviews

Vista de Estranhamente Familiar (Foto: Ana Pigosso / Bruno Leão / Divulgação)

Em 2020 e 21, antes que a vacina da Covid-19 começasse a alterar as estatísticas de mortes por coronavírus, a instabilidade das instituições artísticas inaugurou um novo circuito expositivo para os artistas: o Instagram. Começava o segundo ano de confinamento doméstico quando Paula Scavazzini inventou uma nova forma de contar os dias e lidar com o calendário de incertezas da vida pandêmica. Lançou na rede social um projeto de venda de “pinturas-surpresa” sobre camisetas aos seguidores interessados. Em 2021, ela produziu 50 camisetas em 50 semanas, processo que viabilizou e culminou na série de pinturas em óleo sobre tela, expostas atualmente na individual Estranhamente Familiar, no Projeto Vênus, em São Paulo.

A mostra é composta por dois conjuntos de trabalhos. Na primeira sala da galeria, Scavazzini organiza um ambiente composto de fragmentos de vidas domésticas: um vaso de flores na entrada, uma almofada gobelin num canto, uma mesinha de gamão perto da janela, uma sacolinha de compras em outro canto, uma mesa de jantar decorada, um sofá vazio. Os itens se referem à comodidade de lares abastados e burgueses – tecidos adamascados, mobiliário rococó, estamparia chinesa. Mas tudo parece conspirar para uma festa abortada. 

Fala-se sobre o incômodo do conforto. Sobre o chão da sala, derrama-se uma pintura de listras verdes, própria das antigas casas coloniais, indicando possível inversão de um parâmetro de normalidade. Uma casa sem teto? No centro de tudo, a intrigante Família (2021), que, segundo o texto crítico de Camila Bechelany, é o gatilho de toda a série de trabalhos.

  • Vista de Estranhamente Familiar (Foto: Ana Pigosso / Bruno Leão / Divulgação)
  • (Foto: Ana Pigosso / Bruno Leão / Divulgação)
  • (Foto: Ana Pigosso / Bruno Leão / Divulgação)
  • Família (2O21), de Paula Scavazzini (Foto: Ana Pigosso / Bruno Leão / Divulgação)

Isto não é um espelho
Se a pandemia modificou radicalmente os procedimentos e os resultados de muitos artistas, o confinamento parece confirmar o modus operandi e as áreas de interesse de Scavazzini, que integram as artes decorativas, a arquitetura e a pintura. 

Nos fundos da galeria, entra-se em um território entre a cenografia e a instalação. Nas paredes, iluminada por um globo de pista de dança, uma galeria de retratos parece colocar em cena os personagens aguardados para a festa que não aconteceu na primeira sala. A instalação não é sonora, mas pressente-se música. 

Para fazer frente ao desconforto que a ex-estudante de arquitetura sentia em relação às aulas de perspectiva, as pinceladas que compõem os retratos são um “lugar de conforto”, diz Scavazzini à seLecT. Nas telinhas de 40 x 30 cm, livre-interpretações de retratos do acervo de Polaroids do maquiador Andre Mattos: faces diante de lentes-espelho, idealizadas e glamourizadas para o feed do Instagram. No banheiro da galeria, o Espelho Peruano (2021) faz pensar na face que poderia estar ali, mas não está. Isto não é um espelho? 

Estranhamente Familiar
Até 19/3
Projeto Vênus, SP 

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