Domingo no parque

Antes acuado, MAM-SP cria programação sob medida e ganha respeito das tribos que frequentam o Ibirapuera nos fins de semanas

Luciana Pareja Norbiato
B-boys do ISH Dance Collective se apresentam no Domingo MAM em novembro de 2015 (Fotos: Karina Bacci/ MAM)

Entre tantos debates sobre a necessária (e desejada) popularização dos museus e eventos artísticos, são raros aqueles que expandem seus limites físicos e institucionais a fim de alcançar outros públicos, que não os da arte. Instalado em 1968 num dos extremos da marquise do Ibirapuera, em sede que deveria ser provisória, o Museu de Arte Moderna de São Paulo viu-se obrigado a repensar sua relação com o crescente fluxo de jovens usuários do parque, desde que sua área verde passou a funcionar non stop nos fins de semana. Desde 2013, o Ibirapuera fica aberto das 5 da manhã de sábado até a meia-noite de domingo. E a efervescência de tribos – nem sempre simpatizantes entre si – de punks, skinheads, LGBTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros), funkeiros, emos e hip-hoppers, de idades entre 14 e 24 anos, não trouxe só paz e amor.

Ocorrências sérias, entre espancamentos e estupros, principalmente durante os rolezinhos que chegam a reunir mais de 100 mil jovens, se espalharam pelos cerca de 500 mil metros quadrados de parque. Embora a venda de bebidas alcoólicas seja proibida no Ibirapuera, o consumo de álcool rola solto. “O MAM estava acuado. A equipe chegava para trabalhar no domingo e a porta estava bloqueada por jovens desmaiados, em coma alcoólico. Tivemos de tomar uma decisão: ou fecharíamos ou partiríamos para a conversa”, disse Felipe Chaimovich, curador do museu, durante caminhada com a reportagem de seLecT na marquise do Ibirapuera. É fato: a instituição tornou-se um ponto de encontro das turmas em torno da Aranha (1997) de Louise Bourgeois e o painel dos Gêmeos desde 2010 na fachada. “Os jovens têm outra relação com arte. Eles entendem o entorno do museu como um lugar confortável, coberto, com esculturas, mas não têm uma relação de reverência”, diz Gregório Ferreira, da equipe do Educativo MAM.

Banda Alana, formada por jovens, em show de março de 2014

Banda Alana, formada por jovens, em show de março de 2014

Foi desse setor, encabeçado por sua coordenadora, Daina Leyton, que surgiu a ideia de fazer contato com o público domingueiro. Além de treinar a equipe para ser receptiva e aumentar a sinalização, o museu criou uma linha especial de atividades. “O primeiro passo foi a equipe do MAM vir aos domingos observar as dinâmicas dos jovens. Depois perguntamos ao pessoal o que eles queriam ver”, conta Leyton. Desse diagnóstico surgiu o Domingo MAM, programação gratuita realizada todos os fins de semana nos arredores do museu, com apoio da administração do parque e da Guarda Civil Metropolitana. “O MAM assumiu que esse é um público legítimo do museu. É uma geração que tem uma vivência urbana fora de um ambiente doméstico e familiar acolhedor, não tem oferta de lazer nem atividade cultural democrática, e tem de inventar esse lugar com sua turma. Essa relação explicita um diagnóstico do papel do museu hoje na sociedade”, define Chaimovich.

Os eventos são realizados em três frentes: oficinas de produção artística de manhã, apresentações de cultura geral (música, dança etc.) à tarde e, no fim do dia, debates sobre questões relevantes para esse público – gênero, prevenção de DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis), drogas etc. A ideia é chamar para ajudar a coordenar os eventos os jovens que já têm hábitos de atividades no local, como os B-Boys e um grupo de contato-improvisação. Também foram escaladas Drag Queens para a conscientização sobre sexo seguro; o coletivo LGBTT Revolta da Lâmpada; imitadores de Beyoncé Knowles; mestres do improviso no rap. Há lugar para todos. Até um fanzine foi feito em parceria com o coletivo de ação urbana Micrópolis e a designer Ariana Miliorini. “São jovens fazendo atividades para jovens”, diz Leyton.

Queen do Esquadrão das Drags tira selfie com público em evento contra a homofobia em maio de 2015

Queen do Esquadrão das Drags tira selfie com público em evento contra a homofobia em maio de 2015

Líderes de comunidades no Facebook são parceiros e ajudam a atrair participantes como Maurício Vondork (o Mau Mau), 22. Frequentador do parque desde 2011, encontrou-se várias vezes com a coordenadora do Educativo do museu para delinear eventos que partissem dos anseios do público. “O MAM quer compreender o jovem e tenta elaborar modos para que possa se integrar a ele”, diz Mau Mau à seLecT. Ele virou um entusiasta do museu e adquiriu o hábito de ir aos vernissages das exposições.

Ao som das viaturas

Entre os hits de visitação da galera em 2015 esteve a instalação O Tema da Festa, de Berna Reale, obra que elabora o tema da criminalidade. Para o 34º Panorama da Arte Brasileira, a artista criou uma boate embalada por música composta por sirenes de viaturas policiais e vozes de vítimas da violência urbana.

Exemplar e serigrafia do zine Look Book

Detalhe de exemplar do zine Look Book

Enquanto isso, do lado de fora, a equipe do museu observou a queda das ocorrências policiais. No ano passado, segundo Chaimovich, apenas duas foram registradas pelos funcionários, que, antes da iniciativa, chegaram a socorrer casos graves de espancamento. Sem confirmar as informações nem fornecer dados específicos, a Guarda Civil Metropolitana restringiu-se a informar à seLecT que, durante a madrugada de sábado para domingo, intensifica o policiamento em pontos estratégicos do parque, agindo “na mediação de conflitos, imprimindo a cultura da paz e o respeito à diversidade e aos Direitos Humanos”. No domingo em que a reportagem da revista esteve no MAM (17 de abril), havia duas viaturas da GCM e uma ambulância de plantão próximas à instituição.

Diversos jovens afirmam que preferem ficar nas imediações do museu. Um deles é Matheus, 16, que, como tantos outros colegas, vem da periferia de São Paulo (no caso, o município de Francisco Morato). “Lá tem sempre alguma coisa nova acontecendo, como show de funkeiros e encontro de youtubers. Os eventos deram uma acalmada aqui. E os seguranças protegem a gente.” Para ele, só o Centro de Cultura e Juventude de sua região tem programação parecida.

Felipe Chaimovich salienta que a continuidade do projeto é fundamental. “Trata-se de um equilíbrio frágil, é preciso ter programação sempre”, afirma o curador, que não vê outras instituições no mesmo caminho, a não ser o Museu de Arte do Rio (MAR), que atua na região portuária da capital fluminense. Convidado a apresentar sua iniciativa no 9º Encontro Regional do Comitê de Educação e Ação do International Council of Museums (Icom), em Lima, Peru, em 2014, sob o tema Museus e Bem Comum; e no Seminário Playgrounds, do Masp, em abril deste ano, que debateu a relação dos museus com o público, o Educativo MAM afirma-se como referência para futuras investidas. “É difícil dizer que isso deve ser um modelo, mas é preciso considerar que existe um povo com demanda por cultura, por museu”, diz Chaimovich.

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.