Droguinhas

Mesmo operando no perigoso território do vício, Jac Leirner mantém equilíbrio entre rigor construtivo e conceitual que caracteriza sua produção

Kiki Mazzucchelli

N° Edição: 29

Publicado em: 29/04/2016

Categoria: A Revista, Review

A obra Gay (2016), de Jac Leirner, que integra individual na White Cube (Foto: Cortesia White Cube)

Três anos após sua primeira individual na galeria, Jac Leirner retorna à White Cube de Mason’s Yard com a exposição Junkie, que reúne um conjunto de obras inéditas elaboradas a partir de materiais que começaram a ser colecionados pela artista 30 anos atrás. Aqui, Leirner continua a explorar alguns dos elementos mais característicos de sua produção: a utilização de objetos acumulados obsessivamente ao longo dos anos e a precisão formal com que executa suas peças, caracterizadas por um impressionante equilíbrio entre rigor construtivo e conceitual. O título da mostra londrina já revela de antemão que a conhecida compulsão de Leirner voltou-se, num determinado momento, para o território autodestrutivo do vício.

A mostra, porém, começa na grande sala do andar térreo, que é perpassada por cabos de aço estirados e afixados em diferentes pontos e alturas das paredes, formando linhas num desenho geométrico-espacial que faz com que os visitantes tenham de se desviar deles para atravessar o espaço. Neste que é um dos trabalhos mais delicados da artista, cada um dos cabos é perpassado por elementos distintos, que são organizados de acordo com critérios de escala ou de cor. Numa das linhas, os milhares de minúsculos papeizinhos torcidos e colocados individualmente ou em pequenos grupos entre círculos de plástico transparente lembram uma versão das Droguinhas de Mira Schendel executadas a partir dos restos da droga: a pontinha de papel arrancada antes de se acender um baseado. Em outra, uma sequência cromática de outros milhares de filtros improvisados com a embalagem do papel de seda. A instalação The End (2016) é a prova material de dias, talvez anos, de consumo sistemático; um excesso purgado e transformado em ordem, equilíbrio e – por que não? – beleza absoluta.

Mas é no vasto subsolo da galeria que Leirner expõe, pela primeira vez, as imagens das pequenas esculturas realizadas em 2010, quando passou três dias consumindo cocaína ininterruptamente e entalhando obsessivamenteas pedras de droga. São fotografias pequenas, impressas linearmente sobre faixas de compensado arranjadas horizontalmente em linhas que se sobrepõem nas paredes, que mostram uma variedade de composições nas quais esculturas foram cuidadosamente posicionadas junto a objetos relacionados ou não ao hábito da artista. As minúsculas esculturas de cocaína são às vezes quase abstratas, mas há também corações e rostos esculpidos em escala mínima. É preciso dizer que Leirner sempre foi muito aberta em relação aos seus problemas com o vício, portanto, o fato de abordar o tema tão diretamente nesta série não significa que busque causar nenhum choque. No entanto, por seu próprio teor potencialmente polêmico, o tema poderia se sobressair a outros aspectos igualmente fundamentais do trabalho. Felizmente, a artista conseguiu produzir uma série plena de variações: em alguns momentos sufocante, em outros evocativa das Cosmococas de Oiticica, às vezes apenas capturando nossa atenção com as centenas de arranjos formais que nos absorvem nesse transe alucinado.

Serviço
White Cube
25 – 26 Mason’s Yard, Londres
Até 14 de maio
De terça-feira a sábado, das 10h às 18h

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