E o rio tornou-se Amazonas

As narrativas em torno de guerreiras indígenas podem ter avivado a crença em uma província de mulheres sem homens

Gustavo Godoy

N° Edição: 50

Publicado em: 12/05/2022

Categoria: A Revista, Colunas Móveis

Capa da revista Icamiabas, de outubro de 2018, criada por Bruna Tamires (Malokêarô)

Em 24 de junho de 1542, em território que hoje é brasileiro, um pequeno grupo de espanhóis perdidos navegava em busca de um local para realizar a festa junina de São João. Eram comandados por Francisco de Orellana, que participara da conquista dos Incas. Vinham de Quito, hoje capital do Equador, de onde saíram no ano anterior. Seguindo boatos, buscavam uma região rica em canela e o tão sonhado país dourado, de onde extrairiam fáceis riquezas. Desceram o curso do rio sem saber para onde estavam indo. A duras penas, descobriram que era o maior rio do mundo. 

Famintos e esfarrapados, os espanhóis roubavam comida de diversas aldeias. Atacavam indígenas que se defendiam e não encontraram os locais que desejavam, nem mesmo um porto para a festa. Nessa altura do trajeto, a expedição encontrou um grupo feminino armado composto de uma dezena de mulheres altas, musculosas e com longas tranças no cabelo, que comandava com furor um exército nativo. O cronista da viagem, o Frei Carvajal, escreveu que a expedição deu em “uma boa terra e domínio das Amazonas”. A imaginação dos conquistadores encontrou um local para ambientar notícias fomentadas na antiguidade. 

Segundo os gregos antigos, uma nação exclusivamente de fêmeas, as amazonas, habitava a leste do Mediterrâneo. De acordo com eles, as ágeis arqueiras nômades montadas a cavalo, guerreiras fascinantes, seriam filhas do deus da guerra, Ares, e cultuadoras da deusa caçadora Ártemis, além de criadoras da cavalaria e das calças. Segundo a historiadora norte-americana Adrienne Mayor, uma especialista no tema, a lenda das amazonas foi inspirada nas guerreiras do povo cita. Os gregos fascinaram-se pelas bárbaras das estepes, onde os papéis de gênero eram tão diversos, e apropriaram-se de sua imagem. 

Recentemente, a pesquisa arqueológica desenterrou a base real dessas lendas e arqueólogos também escavaram ossos de guerreiras citas em túmulos aterrados desde a Ucrânia até a Ásia Central, e esqueletos de mulheres de 10 a 45 anos apresentavam indícios de atividade guerreira. 

Forjada no contato entre os gregos e os citas, a imagem das amazonas perdurou e migrou. Desde os primeiros tempos da invasão colonial, a ideia de uma nação de mulheres guerreiras, livres de homens, estava presente. Já em janeiro de 1493, apenas três meses após sua chegada, Cristóvão Colombo coleta informações sobre uma ilha chamada Matininó, habitada só por mulheres. Para engravidar, elas importavam homens da ilha Caribe. 

O tema espalhou-se no Novo Mundo, aparecendo em rela- tos de outros locais, mas as ditas amazonas não eram apenas um velho mito instalado pelos europeus no tal Novo Mundo. Os indígenas validavam as ideias invasoras, contribuindo para o batismo do Rio Amazonas. 

Em 1637, outra expedição ao Amazonas foi realizada, vinda do Maranhão e comandada por um português. Seu cronista foi Cristóbal de Acuña, jesuíta espanhol. A expedição obteve, por todo o rio, amplas notícias sobre as guerreiras de sociedades sem homens. Como a informação se repetia em diversos povos, Acuña observa que “não é crível que uma mentira pudesse ter se enraizado em tantas línguas e tantas nações”. Até hoje povos indígenas contam sobre figuras si- milares às amazonas. É o caso das Icamiabas na Amazônia, das mulheres-espíritos entre os Maxakalis, em Minas Gerais, e das hipermulheres entre os povos do Alto Xingu, em Mato Grosso. 

Embora alguns tenham duvidado, a luta da frota de Orellana contra as ditas amazonas pode ter sido real. Em 1576, na Primeira História do Brasil, Pero de Magalhães Gândavo informa sobre guerreiros transgêneros entre os Tupis da costa. Nascidos em corpo de mulher, abandonavam as tarefas femininas e seguiam ofícios ao lado dos homens. Com corte de cabelo masculino, arcos e flechas em punho, guerreavam e caçavam “sempre na companhia masculina”. Casavam-se, inclusive, com mulheres. 

Se na Grécia antiga as guerreiras citas atiçaram a fabulação, por aqui as narrativas em torno de guerreiras podem ter avivado a crença em uma província de mulheres sem homens. A fábula absorveu o verídico. O Rio Amazonas já tinha sido chamado, em 1500, de Santa Maria do Mar Doce. Alguns tentaram chamar de Marañón ou colocar o nome do conquista- dor sem rumo: Rio de Orellana. Nenhum deles pegou. 

E o rio tornou-se Amazonas. 

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