É preciso combater o colonialismo de dados

Ulises Mejias discute a emergência de um novo formato de colonialismo, o dos dados

Giselle Beiguelman

N° Edição: 48

Publicado em: 30/11/2020

Categoria: A Revista, Destaque, Entrevista

Ulisses Mejias (Foto: Divulgação)

Ulises Mejias é professor associado da State University of New York (SUNY), em Owego. Nascido no México, vive desde os anos 1990 nos Estados Unidos. Autor, com Nick Couldry (London School of Economics and Political Science) de The Costs of Connection: How Data Is Colonizing Human Life and Appropriating It for Capitalism, é diretor do Institute for Global Engagement, uma instituição acadêmica multidisciplinar voltada para a promoção da diversidade e da diferença e para o interculturalismo. É também cofundador da rede Tierra Común, uma rede de ativistas com foco na América Latina e no Sul Global, que propõe intervenções para descolonizar os dados. De acordo com Mejias, apesar de o colonialismo histórico e o dos dados serem muito distintos no conteúdo e na forma, seu pressuposto é o mesmo: apropriar-se do cotidiano de todos pela ideia de que a extração e a expropriação são processos naturais e que não temos escolha, a não ser contribuir para essa expropriação. 

seLecT: Comecemos nossa conversa pela questão da língua. Em nossa correspondência, você comentou que seu “espanhol está um pouco atrofiado”. Entre nós é famoso o verso “Minha língua é minha pátria”, de Fernando Pessoa, popularizado pela canção de Caetano Veloso. A descolonização dos dados não começaria pela linguagem? 

Ulises Mejias: Realmente, a questão da linguagem pode nos ajudar a entender o problema da colonização de dados. Se me permitem uma breve nota bibliográfica, nasci no México, mas moro nos Estados Unidos há mais tempo do que vivi em meu país natal. Falo inglês melhor do que espanhol e faço meu trabalho na língua gringa. A minha língua não é a minha pátria porque, como imigrante, não sinto que tenho uma pátria. Além disso, o espanhol e o português também são línguas coloniais, portanto, falar essas línguas em vez de falar inglês não é necessariamente um ato de descolonização, certo? Por isso acho que a fantasia de podermos descolonizar nossas línguas é um pouco inútil. Primeiro, porque a maioria de nós é mestiça e as línguas coloniais são de fato nossas línguas nativas (eu gostaria muito de aprender Náhuatl, mas como mestiço não posso fingir que é a minha língua nativa). Em segundo lugar, as línguas coloniais podem ser muito úteis para expressar ideias e sentimentos descoloniais. Como disse Audrey Lorde, as ferramentas do senhor podem ser usadas para desmontar a casa do senhor. O mesmo acontece com os dados: são a nova linguagem colonial. E, sim, você tem de criticar e analisar essa situação, mas também tem de aprender a expressar ideias descoloniais usando essa nova linguagem. É importante promover a internet em outros idiomas, mas, para mim, pessoalmente, acho mais importante que todos falemos mais de um idioma, inclusive idiomas que, para o bem ou para o mal, são efetivamente universais. Como o inglês ou a linguagem dos dados, hoje. A descolonização também pode ocorrer nessas línguas, se a fizermos de forma crítica.

Em The Costs of Connection, você e Nick Couldry argumentaram que a descolonização dos dados passaria por outros sistemas de pensamento. As matrizes indígenas nos permitem pensar sobre outros formatos algorítmicos?

Em última análise, a colonização de dados é uma tentativa de universalizar uma ideia, a de que a extração e a expropriação são processos naturais e que não temos escolha a não ser contribuir para essa expropriação, por meio de uma abstração de nossas vidas, realizada cotidianamente pelos dados. Em nosso livro definimos o colonialismo de dados como uma ordem emergente para a apropriação da vida humana, de forma que dados possam ser continuamente extraídos dela com fins lucrativos. Não estamos dizendo que o colonialismo histórico e o colonialismo de dados são exatamente a mesma coisa. A forma e o conteúdo são muito diferentes. Mas a função é a mesma, e essa função é a expropriação. A questão é como se pode resistir a esta nova forma de expropriação, e dizemos no livro que podemos aprender muito com os povos que resistem ao colonialismo e ao capitalismo há 500 anos. Mas aqui é preciso esclarecer algumas coisas. Em primeiro lugar, não estamos dizendo que resistir ao colonialismo de dados nos coloca no mesmo nível que os povos indígenas que sofreram um nível de violência inimaginável durante a história do colonialismo. Como diria Philip J. Deloria, não estamos “fingindo ser índios”, porque isso seria grosseiramente desrespeitoso. Sim, o colonialismo de dados nos torna sujeitos coloniais subalternos, mas mais do que nativos, creio que agora somos informantes nativos que, como Gayatri Chakravorty Spivak diria, são aqueles que desempenharam o papel de fornecer informações para que o sujeito etnográfico europeu pudesse “ler” ou compreender as culturas que estavam colonizando. Como La Malinche, traduzimos nossas vidas para a linguagem dos dados para que as empresas possam nos entender e usar esses dados para nos colonizar. Em outras palavras, não somos vítimas, mas participantes ativos neste processo. O segundo ponto é que a descolonização é um projeto transmoderno, segundo Enrique Dussel. Não sou um especialista em modelos indígenas de pensamento coletivo e meus colegas teriam de me educar a esse respeito. Mas acho que esses modelos, mesmo que nos inspirem, não serão suficientes para resistir ao colonialismo de dados. Teremos de misturá-los com outros modelos, como o feminismo, o marxismo, a teoria crítica da raça etc., para gerar uma playlist completamente transmoderna. Os problemas transmodernos requerem soluções transmodernas. Essas soluções podem incluir modelos de pensamento indígenas, sim, mas também devem incluir muitas outras coisas. 

Nessa mesma obra, vocês demonstram o surgimento de um novo Império da Nuvem protagonizado pelos Estados Unidos e a China. Estamos vivendo na era dos Estados plataforma? Uso aqui uma expressão de Benjamin Bratton em The Stack: On Software and the Sovereignty. Que posição ocupam países como o Brasil nesta nova dinâmica do capital? 

O papel de países como o Brasil vai ser muito importante. No momento, as opções são entre o Caríbdis do Vale do Silício e a Cila do Partido Comunista Chinês. Mas não temos de escolher entre esses dois monstros. Os países do Sul Global têm de formar um novo Movimento de Países Não Alinhados, para gerar alternativas ao colonialismo de dados. Essas alternativas terão de vir da sociedade civil, pois é claro que a maioria dos nossos atuais governos está no caminho oposto, rumo ao tecnototalitarismo e ao populismo. Em uma publicação na Al-Jazeera, argumentei que os governos do Sul Global poderiam nacionalizar dados, obrigando empresas como Facebook e Google a pagarem uma taxa pelo uso de dados gerados por usuários do Sul. Mas nenhum governo atual consideraria tal coisa no momento. Temos um longo caminho a percorrer. Mas é preciso levar em consideração que, se esses problemas fazem parte de uma história de mais de 500 anos, não seremos capazes de resolvê-los em alguns dias.

Qual é o papel das artes neste sistema de nova colonialidade por meio dos dados?
As respostas culturais e artísticas ao colonialismo transformaram profundamente nossas sociedades e continuarão a fazê-lo. Quando não se podia resistir ao colonialismo com o corpo, podia-se resistir com a mente, e estamos à beira de um novo movimento cultural de resistência ao colonialismo de dados. Essas formas de resistência sempre estiveram lá, mas têm sido o domínio de grupos excêntricos ou minorias, como os hackers. A pandemia global está ajudando essas alternativas a se tornarem mais corriqueiras. Mas não será fácil e sempre haverá uma reação contra a resistência. Além do mais, a arte também pode servir a propósitos coloniais ou comerciais.

No mundo pós-pandêmico, quais cenários de colonialismo ou descolonização são anunciados?
O que mais me preocupa é que as medidas de “emergência” que supostamente foram tomadas para combater a pandemia se tornem mais permanentes. Disseram-nos que os dados eram necessários para combater o Sars-cov-2 e, claro, a epidemiologia precisa ser baseada em resultados empíricos. Mas, com essa desculpa, foram introduzidas várias tecnologias de vigilância e análise de dados que minam a liberdade do indivíduo e os princípios de uma sociedade aberta. Voltar no tempo vai ser difícil. Vimos isso depois dos atentados de 11 de Setembro nos Estados Unidos: a pretexto de segurança nacional foi institucionalizado todo um “teatro” de segurança que não nos deixava mais seguros e, pelo contrário, foi utilizado para perseguir alguns membros da sociedade, muçulmanos em particular. Vinte anos depois, continuamos sofrendo com essa herança, e temo que o mesmo aconteça agora. Em vez dos muçulmanos, o novo inimigo será o imigrante, pois também há muitas histórias de como os dados têm sido usados ​​como ferramentas de higienismo colonial para definir quem está dentro e quem é a ameaça infecciosa de fora. Por isso é preciso combater o colonialismo de dados.

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