É sempre mais difícil ancorar na poesia

Ana Cristina Cesar, autora homenageada na Flip 2016, ganha fotobiografia inédita pelo Instituto Moreira Salles

Felipe Stoffa

Publicado em: 22/06/2016

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Ana Cristina Cesar, Rio de Janeiro, 1982 (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Ana C. (apelido dado pelos amigos) vêm ganhando destaque no quadro dos poetas brasileiros. Comumente conhecida pela sua poesia marginal, a carioca Ana Cristina Cesar (1952 – 1983) produziu ao longo de sua vida mais do que versos. Atuou como tradutora, crítica literária e foi titular de dois mestrados, além de colaborações para as seções literárias dos jornais Opinião, Jornal do Brasil e Folha de S. Paulo.

Conviveu com alguns dos percursores da poesia marginal, como o poeta Cacaso (1944 – 1987), e também se inseriu no movimento, tirando dele o máximo de inspiração para o seu trabalho. Mas sua poesia não é facilmente enquadrável. O tom íntimo e confessional dos poemas, ao mesmo tempo permeados por ficção, envolve o leitor como que um caminhante por seu diário que, entretanto, subitamente nos atira para longe. Suas influências? Os poetas modernistas dos anos de 1920.

Ana Cristina Cesar, s.l., fev. 1983 (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Ana Cristina Cesar, s.l., fev. 1983 (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Desde criança, antes mesmo de saber escrever, já produzia poemas, ditando os versos para sua mãe, Maria Luiza César, que assim os colocava no papel. Foi aos 7 anos de idade que seus primeiros versos foram publicados no jornal Tribuna da Imprensa. Durante o período da faculdade, passou a conviver com a geração da contracultura carioca e, até sua morte, cultivou amizades com figuras como Arnaldo Antunes filho e a pesquisadora Heloísa Buarque de Hollanda.

Foi junto a Heloísa Buarque que Ana Cristina Cesar teve sua primeira publicação organizada e publicada de forma totalmente independente, o livro Cenas de Abril, incorporado posteriormente à publicação A Teus Pés, compilação de suas três primeiras obras poéticas. Morreu em 1983, com 31 anos completos, ao cometer suicídio.

Um dos números do jornal O Mundo, criado por Ana Cristina (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Um dos números do jornal O Mundo, criado por Ana Cristina (Foto: Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Arquivo fotográfico

Ana Cristina Cesar é a homenageada da atual edição da feira literária de Paraty, a Flip 2016. E as comemorações não param por ai. O Instituto Moreira Salles, que abriga atualmente o acervo completo da escritora, divulgou o lançamento do Fotolivro biográfico organizado por Eucanaã Ferraz, poeta e consultor de literatura do Instituto. O lançamento é previsto para 30/6 (quinta-feira), na própria Flip.

Ana Cristina parecia gostar de ser fotografada, como pode-se observar em seus retratos, em que posa nos mais diversos ângulos, mas sem perder a sutileza dos comandos do fotógrafo. Entretanto, apesar da extensão do livro, Eucanaã Ferraz admite que a tarefa de produzir uma fotobiografia é sempre incompleta. “Toda fotobiografia dá-se assim, aos saltos: faltam imagens de eventos que seriam importantes, enquanto momentos sem relevância aparente fo­ram registrados. No arranjo, conta-se com o que já foi feito, com um acervo constituído por muitos acasos: haver ou não uma máquina fotográfica ao alcance dos olhos e dedos; o desejo de fotografar; o fastio de fazê-lo; a pre­sença ou não de luz; o flash ou a ausência dele. Uma série de contingências, enfim, que determinam antecipadamente o que adiante servirá, ou não, para as narrativas futuras”, escreve para a introdução da publicação.

Ana Cristina Cesar, Caxias do Sul (RS), verão de 1983 (Foto: Katia Muricy/Arquivo pessoal Katia Muricy/IMS)

Ana Cristina Cesar, Caxias do Sul (RS), verão de 1983 (Foto: Katia Muricy/Arquivo pessoal Katia Muricy/IMS)

Além das fotografias que integram o acervo do IMS, foram convidados pesquisadores e escritores que produziram pequenos perfis sobre a poeta, a partir de suas fotografias, desde amigos íntimos até outros que nunca a conheceram em vida: Armando Freitas Filho, Heloisa Buarque de Hollanda, Clara de Andrade Alvim, Flavio Cruz Lenz Cesar, Laura Liuzzi, Alice Sant’Anna, Leonardo Gandolfi, entre outros.

Um dos destaques da publicação é o texto produzido por Heloísa Buarque, uma das maiores conhecedoras da vida e obra de Ana Cristina, que acompanha a fotografia da poeta em Búzios, no ano de 1970. Foi durante essa viagem que as duas produziram sua primeira publicação.

Junto com o lançamento, a rádio online do Instituto Moreira Salles oferece uma programação dedicada à escritora. Na edição do programa Literatura em Voz Alta, pode-se escutar alguns dos poetas e convidados da Flip lendo alguns dos poemas mais conhecidos de Ana Cristina.

Ana Cristina Cesar, Valparaíso - Chile, fev. 1983 (Foto: Waldo Cesar/Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

Ana Cristina Cesar, Valparaíso – Chile, fev. 1983 (Foto: Waldo Cesar/Acervo Ana Cristina Cesar/IMS)

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