Econotopias para sobreviver de arte

Nina Gazire

Publicado em: 14/11/2013

Categoria: cultura digital, Reportagem

(Fotos: Marco Anelli)

Do brasileiro Fora do Eixo a grandes nomes do mercado internacional de arte, como Marina Abramović, criativos do mundo todo aderem aos novos formatos de produção, circulação e consumo cultural que se abrem a partir da internet

Fde

Legenda: Evento na Casa Fora do Eixo em São Paulo (foto: Cortesia do coletivo)

O Fora do Eixo, uma rede de redes de fomento à cultura autossustentável, esteve em pauta na mídia nacional e internacional desde as manifestações que tomaram as ruas de várias cidades brasileiras em junho e julho. Em atividade há cerca de sete anos, tornou-se o centro de um verdadeiro Fla-Flu da cultura, depois da participação de seu líder, Pablo Capilé, no programa Roda Viva, da TV Cultura, em agosto. Depois de um post incendiário da cineasta Beatriz Seigner, no Facebook, com denúncias sobre desvio de recursos públicos e de exploração de artistas, seguiram-se vários outros, com denúncias de todos os tipos e defesas, não menos contundentes de intelectuais e ativistas importantes.

O tom de pró esvaziou o debate acerca de questões importantes e urgentes. As possibilidades e problemas de operacionalizar a economia da cultura fora do “cercado” corporativo, como fazer produção artística no Brasil sem depender do governo e, acima de tudo, como sobreviver sendo artista em uma economia em desenvolvimento. Experiências semelhantes ao FdE podem ser constatadas no mundo todo e apontam para modelos alternativos de sobrevivência em diversos setores da cultura. Nos Estados Unidos, as articulações reagem aos cortes nos investimentos públicos na cultura. O National Endownment for the Arts (NEA), que funciona como uma espécie de agência de cultura governamental, sofreu, em 2011, cortes de mais de 11% no seu orçamento de US$ 167 milhões. Neste ano, o congresso propôs diminuir mais US$ 71 milhões de sua verba para 2014. “Nós ainda precisamos do governo para distribuir dinheiro para a arte, serviços e educação. Enquanto protestamos pelo direito a essa ajuda que vem declinando, precisamos encontrar outras maneiras de sustentarmos uns aos outros. Em 2008, uma pesquisa do NEA mostrou que cerca de 2 milhões de pessoas se declaram artistas, média bem maior do que profissionais que se declararam médicos ou policiais”, explica Caroline Woolard, uma das fundadoras da plataforma online OurGoods e da Trade School, em entrevista à seLecT. OurGoods é uma rede social para trocas de serviços voltados para a arte e existe desde 2009. Para participar, basta cadastrar-se a partir de duas opções “needs” (necessidades) e “have” (habilidades). Por meio da análise do perfil dos outros cadastrados, pode-se negociar a troca de serviços, diretamente, sem a necessidade de venda ou recebimento de salário. É possível trocar, por exemplo, serviços de lapidação de pedras preciosas por obras de arte. Atualmente, a rede conta com 4 mil perfis cadastrados, sendo 2 mil ativos.

Projetos não convencionais

Já na Trade School, também capitaneada por Woolard, professores, ou qualquer interessado em ensinar alguma coisa, combinam com os alunos os acordos de troca, sendo proibidas as transações financeiras. A Trade School começou baseada em Nova York e hoje funciona como uma escola nômade que já atuou em mais de 40 cidades do mundo, incluindo o Rio de Janeiro. “A barganha é um postulado ético/estético para nós. Quando você troca um serviço por outro, você se sente bem, pois vai trabalhar diretamente sua melhor habilidade para receber algo de que realmente está precisando para concluir um projeto”, diz Woolard.

The Soup Network, outro projeto norte-americano, também usa a internet como mecanismo de ação, mas nesse caso o objetivo é aproximar coletivos de artistas, curadores e especialistas, a fim de promover refeições comunitárias, que financiam projetos artísticos. A tática tornou-se comum nos EUA e é replicada, por exemplo, pelo InCUBAT E, um grupo de artistas de Chicago, e o F.E.A.S.T. (Funding Emerging Art with Sustainable Tacts), de Nova York, que por meio de editais abertos selecionam projetos artísticos que serão financiados por meio de jantares coletivos. “Pessoas de diferentes lugares aparecem para nossas refeições e se sentem bem em participar, porque sabem que não estão apenas comprando uma refeição, estão fazendo algo maior. Além disso, os jantares colocam pessoas de diferentes ramos da cultura em contato. Muitos participam para fazer networking”, diz à seLecT Abigail Satinsky, uma das diretoras do InCUBAT E.

Encontrar o lugar do artista e pequeno empreendedor cultural na nova economia é um desafio crescente e alguns criam modelos particulares e mais independentes de atuação. The Equus Projects, por exemplo, uma companhia de dança sediada em Nova York, nos últimos dez anos tentou conciliar modelos tradicionais de financiamento aos modelos alternativos. “Nós nos inscrevemos em editais de instituições e muitas vezes recebemos financiamento, mas nunca é suficiente. Temos de buscar outras estratégias, sempre”, diz a coreógrafa e idealizadora JoAnna Mendl Shaw. Ela criou uma companhia não muito convencional, pois mescla terapia e dança com a participação de cavalos.

A ideia parece inusitada e seria inviável: se manter uma companhia de dança não é coisa barata, o que dizer de uma trupe com cavalos? Para realizar os trabalhos do The Equus Projects, JoAnna conta com uma rede de colaboradores espalhados pelos EUA, denominada Hub Sites, composta de criadores e treinadores. Em troca, ela oferece seu método de treinamento, não só de bailarinos, mas também de amazonas, cavaleiros e pessoas com problemas físicos.

Marina Abramovic

O crowdfunding – sistema de financiamento coletivo na internet, em que os fundos são captados por meio de doações de pessoas que se interessam pelos projetos – é também alternativa para artistas que buscam financiamento longe dos editais. Até mesmo artistas de grande porte, como Marina Abramović, buscam em uma das plataformas mais importantes do gênero, a kickstarter, recursos para a viabilização de projetos. O Marina Abramović Institute, que funcionará como uma escola para o método de aprendizado sensorial criado pela artista, tem como meta recolher US$150 milhões por meio de doações anônimas. Apesar de ter o dinheiro como motor, o crowdfunding oferece contrapartidas ao doador, como vantagens de acesso ao produto ou resultado, quando as metas são alcançadas e os projetos concluídos.

No Brasil, caso recente de sucesso é a HQ Shogum dos Mortos, do artista mineiro Daniel Werneck. Cadastrado no site brasileiro Catarse, semelhante à kickstarter, o projeto não só alcançou a meta inicial de cerca de R$ 9 mil em apenas dois dias, como também bateu recordes de arrecadação do próprio site, captando cerca de R$ 30 mil, ou mais de 330% do que a meta estabelecia. “Eu queria fazer um quadrinho que fosse totalmente independente. Isso quer dizer que não poderia ter nem editora nem lei de incentivo. Por isso decidi arriscar o crowdfunding”, disse Werneck à seLecT. O resultado será lançado em novembro deste ano, no Festival Internacional de Quadrinhos de Belo Horizonte.

Originalmente publicado na edição impressa #14.

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