Educação sexual transmídia

As educadoras, artistas e escritoras Sue Nhamandu e Tristan Taormino usam diferentes plataformas para ensinar sobre sexo e prazer feminino

Luana Fortes
Sue Nhamandu realiza a performance Próximo (2017-2018) no 2o Seminário de Arte e Educação do Prêmio seLecT e convida o público a descobrir sua próstata feminina (Foto: Guilherme Kardel)

“Eu lia Cosmopolitan na adolescência e sempre lia: Sente o pau! Põe o pau na cara! Esfregue o pau no seio! Olhe para o pau! Endeuse o pau! E eu pensava, e o meu gozo vem quando?”, conta à seLecT Sue Nhamandu, filósofa, artista e professora. Anos depois, diante desse mesmo contexto falocêntrico, Nhamandu passou a se dedicar à educação de pessoas sobre o prazer feminino. “O homem sempre vai gozar”, acredita. “Preocupe-se com o seu gozo!”, aconselha às mulheres. Vencedora na categoria artista do 2º Prêmio seLecT de Arte e Educação, a filósofa perambula por diferentes mídias. Já deu aula de filosofia em escolas estaduais e no YouTube, escreveu livro de poesias e atuou em coletivos anarquistas, como a Casa da Lagartixa Preta Malagueña Salerosa, de Santo André, São Paulo. 

Em 2016, começou a desenvolver um novo conceito filosófico, chamado Pornoklastia, dentro do qual suas mais recentes ações artísticas e educativas se enquadram. Da família da Pós-pornografia, do Pornoterrorismo e do Feminismo Pornô-punk, a Pornoklastia une os termos pornografia e iconoclastia, propondo uma ruptura com a imagética do pornô mainstream, que normalmente foca no prazer masculino e tem os homens como público-alvo. “Criei o conceito da Pornoklastia para desmascarar a heterossexualidade como regime político, o gênero como performance, a ciência como uma mudança paradigmática politicamente conveniente e o patriarcado como obsoleto”, afirmou a artista em sua apresentação no Seminário de Arte e Educação, última etapa de julgamento do Prêmio seLecT. 

  • Performance em que Sue Nhamandu bate siririca e usa seu gozo para apagar palavras que se referem ao patriarcado (Foto: Reprodução)
  • Performance em que Sue Nhamandu bate siririca e usa seu gozo para apagar palavras que se referem ao patriarcado (Foto: Reprodução)

Na performance Próximo (2017-2018), a artista senta-se, coloca um lubrificante e um pacote de luvas descartáveis ao seu lado, tira a parte de baixo da roupa, abre as pernas e chama a participação do público com a palavra que intitula o trabalho: próximo! O participante posiciona-se diante da artista e segue suas instruções até introduzir dois ou três dedos em sua vagina e fazer os seguintes movimentos: “Para dentro, para cima e chama”. “Chama”, no caso, quer dizer arquear os dedos em direção ao próprio punho. Assim ela mostra onde fica a próstata feminina, que ao ser estimulada pode levar ao squirting – a ejaculação feminina. A próstata da mulher é o que normalmente se conhece como Ponto G, mas Nhamandu rejeita essa nomenclatura. Chamá-la de ponto dá a entender que se trata de algo pequeno, e não é o caso. A artista considera o trabalho Próximo uma aula-show, enquanto a aula-aula acontece mesmo no lab de siririca. 

Poesia de Sue Nhamandu, do livro pOeMaS PoRnOKlasTas (2017), da Editora Córrego

Realizado pela primeira vez, em 2016, no Estúdio Lâmina, o laboratório é mais frequentado por mulheres, apesar de não ser restrita a participação de outros gêneros. Começa com uma exposição teórica que tem como referências desde filósofos como Michel Foucault até Anne Fausto-Sterling, professora de biologia e questões de gênero na universidade norte-americana Brown, em Rhode Island. Um dos assuntos expostos é como se trata a intersexualidade em recém-nascidos. Na legislação brasileira, o intersexo é um portador de anomalia de diferenciação sexual, ou seja, alguém que não se encaixa perfeitamente no que se entende como masculino ou feminino. De acordo com uma resolução do Conselho Federal de Medicina, publicada em 2003: “Pacientes com anomalia de diferenciação sexual devem ter assegurada uma conduta de investigação precoce com vistas a uma definição adequada do gênero e tratamento em tempo hábil”. Nhamandu conta aos participantes do lab que, quando um bebê nasce ambíguo, são feitas cirurgias e tratamentos hormonais, a fim de definir o sexo da criança. Um dos critérios usados para tomar essa decisão é o tamanho do pênis, por exemplo. “Para garantir a binarização do sistema hétero-capitalista patriarcal monogâmico, essa pessoa precisa ser operada. Ou ela é homem ou é mulher”, ironiza a artista. A Anistia Internacional estima que 1,7% da população mundial nasce com variações sexuais, porcentual semelhante ao de pessoas ruivas. 

Depois de informações dessa natureza, Nhamandu dá uma pausa para amenizar o clima e então faz a atividade prática Carimbuceta, que consiste em carimbar a vagina em um papel usando beterraba ralada. Por fim, passa a uma dinâmica semelhante à da performance Próximo, só que nesse caso também mostra na participante onde fica sua própria próstata. Os diálogos e sons emitidos durante o exercício estão dando forma a um outro trabalho, chamado Ambientes Sonoros Orgásticos e Siriríticos. Tem frases como: “Mas pode pôr? Mas os três dedos? Mais pra cima? Mais fundo? Agora chama? Ahhhhhhhhhhh, achei”. 

  • Cena do filme The Expert Guide To Female Orgasm (2010), dirigido por Tristan Taormino (Foto: Cortesia Vivid Entertainment)
  • Cena do filme Rough Sex 2 (2010), dirigido por Tristan Taormino (Foto: Cortesia Vivid Entertainment)

Guia expert de Tristan Taormino
A educadora sexual americana Tristan Taormino também ensina pessoas sobre sexo com foco no prazer feminino. “Mulheres ainda não conhecem o suficiente sobre seus corpos e ainda não estão tendo prazer o suficiente. Especialmente mulheres heterossexuais”, diz Taormino à seLecT. Assim como Sue Nhamandu, aproveita diversas mídias para educar, como livros, sites, programas de rádio e até filmes pornô. Em setembro de 2018, realizou uma palestra e um workshop na 4ª Conferência Internacional SSEX BBOX, no Red Bull Station, em São Paulo. Costuma fazer ações como esta desde os anos 1990 e, curiosamente, duas perguntas continuam se repetindo: “Como faço para me masturbar?” e “Por que não consigo ter um orgasmo com meu parceiro?”. 

Capa do quarto exemplar da revista Pucker Up, desenvolvida por Tristan Taormino em 1996, com a colaboração de artistas, poetas e jornalistas, entre outros (Foto: Cortesia da Artista)

Taormino acredita que ninguém aprende da mesma maneira. “Eu poderia te dar um livro e você poderia entender tudo que escrevi, mas existem pessoas que precisam ver, e isso é particularmente verdadeiro para o sexo”, afirma. A americana compara a negligência da educação sexual à forma que adolescentes aprendem a dirigir. “A gente não manda a pessoa para a estrada e fala ‘aqui está o carro, vai nessa!’ Mas com sexo é exatamente isso que fazemos.” Influenciada por uma onda punk de produção de zines, em 1995 decidiu que faria uma pequena revista sobre sexo. Como ela queria envolver outras vozes e perspectivas, convidou conhecidos a colaborar. Chamada Pucker Up, a zine teve quatro edições e trazia em suas páginas poemas, reportagens, desenhos e trabalhos de arte, entre outras coisas. 

Depois disso, chegou a escrever ficção erótica, que hoje admite ter sido completamente baseada em sua vida pessoal, além de guias expert sobre sexo. O primeiro deles foi The Ultimate Guide To Anal Sex For Women (O Verdadeiro Guia de Sexo Anal para Mulheres), publicado em 1997 pela editora Cleis Press. Depois partiu para a direção de filmes pornô na empresa Vivid Entertainment. “Eu pensei que precisávamos mostrar isso e precisávamos ser específicos. E ser específico significa mostrar corpos pelados e pessoas transando”, relembra Taormino.

Uma das séries de filmes realizadas pela educadora chama-se O Guia da Tristan Taormino para (…), que era complementado por temas como prazer anal para homens, ejaculação feminina, sexo a três e sexo kinky, que numa má tradução para o português significa sexo sacana ou pervertido. Os filmes intercalam falas da própria Taormino com dicas sobre o assunto, cenas de sexo que demonstram aquilo sobre o qual ela fala e depoimentos dos atores pornô filmados. No guia sobre sexo kinky, por exemplo, você aprende que praticar o sadomasoquismo requer a escolha de uma palavra de segurança para indicar ao parceiro quando não está confortável e que essa palavra não deve ser “Pare!” ou “Não!”, porque elas podem fazer parte de uma atuação.

Cena do filme Rough Sex 2 (2010), dirigido por Tristan Taormino (Foto: Cortesia Vivid Entertainment)

Atualmente, no entanto, Taormino deixou de trabalhar com pornografia, pois a internet fez com que a indústria pornô não conseguisse mais pagar salários dignos aos seus profissionais. Lecionar em workshops está entre suas atividades preferidas. Dependendo do contexto, faz demonstrações ao vivo de sexo ou dá oficinas para casais que praticam com seus respectivos parceiros. Apesar de muitos ainda encararem sexo como um assunto tabu, a educadora enxerga diferenças entre hoje e quando começou a trabalhar na área. “Nos anos 1990, quando eu falava para as pessoas que era escritora e que tinha acabado de lançar um livro sobre sexo anal, elas simplesmente saíam do recinto. Hoje, 20 anos depois, eu diria que 10 em cada 10 pessoas dizem: ‘Tá bom, eu só tenho uma perguntinha!’”, conta à seLecT. “Tabus mudaram e discussões sobre sexualidade certamente também mudaram. As pessoas se sentem mais à vontade para falar sobre isso. Mas, ao mesmo tempo, existem conservadores me chamando de vadia nas redes sociais? Sim, com certeza existem.”  

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