Ela queria falar sobre círculos

Palestra da curadora e educadora Sepake Angiama no Seminário seLecT de Arte Educação

Sepake Angiama

Publicado em: ANO 09, Nº 48, Set/Out/Nov 2020

Categoria: Destaque, Prêmio seLecT

Palestra de Sepake Angiama para o Prêmio seLecT de Arte Educação

Olá a todos, meu nome é Sepake Angiama e sou diretora artística do Instituto de Artes Visuais Internacionais e um dos iniciadores de um encontro auto-organizado de desaprendizagem chamado “Embaixo da Mangueira”. Em primeiro lugar, antes de falar hoje, gostaria de agradecer aos organizadores e convocadores desta série de palestras por sua paciência e empenho e, é claro, pelo convite. Encontramo-nos em tempos difíceis, em que lidamos com vários compromissos. A necessidade de práticas artísticas que vão além do reino do que entendemos como mundo da arte só cresceu em importância. Então, obrigada por sua persistência. É sempre um prazer falar dentro do contexto brasileiro, já que fui inspirada diversas vezes não apenas pelos meus encontros no Brasil, mas também pelos diferentes modelos de arte, arquitetura e práticas educacionais – do passado e do presente. É também um contexto de convergência de narrativas indígenas, africanas e europeias que continuam tendo ressonâncias emaranhadas até hoje.

Os últimos seis meses têm sido um período difícil para muitos de nós. Muitos sofremos perdas, de uma forma ou de outra. Talvez a perda de um ente querido, mas também a perda da sociabilidade, da convivência e da intimidade, das conversas de rua, do não planejado e do inesperado, e isso é algo de que dependo muito em meu trabalho. Falo de intimidade aqui no contexto das práticas educativas – como uma oportunidade de aproximar-se dos outros, poder falar e escutar, um verdadeiro espaço de trocas -, embora esses espaços também exijam muito tempo, paciência e vulnerabilidade. Grande parte da minha prática depende da intimidade. Mas uma coisa de que gosto é ler para outras pessoas. Ler textos dessas feministas negras a quem recorro e nas quais frequentemente encontro forças para continuar meu trabalho.

Hoje vou falar usando uma série de registros diferentes – fluindo entre poesia e textos que escrevi e escritos por outras pessoas -, usando minha experiência em diferentes situações como fonte básica. Às vezes deixamos de confiar em nossa própria experiência e em nossa própria voz, mas isso é uma prática, e conforme continuamos experimentando descobrimos que a articulação da linguagem com esse movimento entre fazer algo, ler em voz alta, ler coletivamente, escrever e continuar conversando é um fluxo contínuo de movimento que forma o discurso com o qual estamos envolvidos. Mas também estarei refletindo sobre as práticas de outros artistas e pedagogos e daqueles que influenciaram meu pensamento e meu fazer.

Ela queria falar sobre círculos,

sobre formas que vão e voltam,

sobre formas circulares,

que ondulam,

que retornam,

que se revoltam e ressoam,

que se curvam,

sobre traseiros,

e barrigas

a curvatura suave,

e a forma

aquela linha agradável que volta sobre si mesma, como amoldando o barro e a sensação de uma bola na mão, sobre círculos abertos, com fissuras e rachaduras e espaços para mais um, a forma que nossos corpos fazem quando estão fetais, enrolando-se em uma bola quando tem medo, ou se sente mal ou quer se fazer pequena, ela queria pensar na forma que fazemos no útero, a proximidade entre dois corpos, o arredondado das tigelas, de colunas, e a sedução de uma parede curva, de um canto curvo, de coisas curvas, aquela linha que dá a volta e volta, que rola, que repele, que rebate, que se relaciona. Um círculo, um círculo redondo e moldável, uma linha que dá a volta e volta, que se revolta, que repele, que gira, que ressoa, que ondula, que responde, que retorna, que estala, que dá a volta e volta, que responde ao som, que ecoa, que rebate, aquela linha que prefere continuar seu caminho. Uma espécie de revolução.

Os círculos são muito importantes para o Embaixo da Mangueira, um encontro de artistas iniciados, escolas, bibliotecas e espaços de desaprendizagem, de descolonização, um desdobramento do pensamento, um pensamento por meio de corpos, enquanto ressoam com outros corpos.

“formem um círculo”

foi assim que começou a primeira reunião. Sanchayan nos pediu para formar um círculo em frente ao Fridercianum, embaixo de uma árvore plantada por Joseph Beuys. Em vez de mangueiras, nossa caminhada pelo parque foi cercada de carvalhos que foram plantados por Beuys e transformaram a cidade. Rabindranath Tagore talvez estivesse pensando em outra maneira de transformar nossos corpos no espaço. Plantar sementes de manga no terreno seco de Santineketan para formar salas de aula – corpos de pensamento encontrando sombra embaixo da mangueira.

As raízes emaranhadas do encontro, Embaixo da Mangueira, buscaram inspiração em muitos pensadores pedagógicos radicais e práticas educativas em arte espacial – Rabindranath Tagore (1861–1941), Lina Bo Bardi (1914–1992), Paulo Freire (1921–1997), Ivan Illich (1926–2002) – além de reunir dez escolas, iniciativas e bibliotecas cujas práticas derivam dessa linhagem radical. A etimologia da palavra “radical” – aprendi com Emmanuel Pratt, que organiza a Fundação Sweetwater no sul de Chicago, uma educação baseada na terra que busca pensar a vizinhança como um bem comum – vem de “pertencente à raiz”. Assim, quando falamos das práticas de educação radicais, pensamos em práticas e textos que visam contestar, desenraizar e desestabilizar formas conservadoras de aprendizagem institucionalizada.

Vemos o aprendizado como algo ativo, em constante mudança e evolução, exaustivo e, ainda assim, muito vivo. As práticas reunidas de geografias muito diferentes compartilham a luta contra as formas de troca baseadas no conhecimento “bancário” e buscam uma educação biofílica em vez de necrofílica – desaprender formas transacionais de conhecimento como se o aluno fosse um recipiente vazio captando a sabedoria do “mestre” e, em vez disso, tentar identificar as ferramentas necessárias para buscar a autoeducação, descolonizar, incorporar, experimentar, fazer e agir. Partindo da etimologia de “educação”, “extrair e conduzir”, como pode o congregacional, o estar junto, o estar com produzir novas formas de aprendizagem que reabasteçam, e não simplesmente extraiam? Como um dos contribuintes do Embaixo da Mangueira, Jorge Gonzáles, que hospedará a próxima reunião em Porto Rico, descreve como construímos outras formas de nós.

Com efeito, a mangueira, com seus deliciosos frutos e seu cheiro sedutor, é um local de aprendizagem que nos permite ativar todos os nossos sentidos para aprender uns com os outros. A primeira dessas imagens é Santiniketan – a morada da paz – que o escritor e poeta Prêmio Nobel Rabindranath Tagore, cujo pai, Maharshi Debendranath Tagore, comprou 20 bighas (aproximadamente 20 mil m2) de terra de um fazendeiro em Raipur, perto de Bolpur, a 150 kms da cidade de Kolkata (Calcutá), em Bengala Ocidental, na Índia, e construiu uma casa no jardim que chamou de Santiniketan, o lugar perfeito para meditação e contemplação inserido na natureza. Depois que seu pai estabeleceu Santiniketan como um centro espiritual em 1863, Rabindranath explorou a ideia de uma escola experimental em 1901, que começou com um número igual de professores e alunos, e chamou-a de Brahma chary asram, que mais tarde se tornou a Universidade Visva Bharati em 1921. O lema da universidade fala da visão dos Tagore de uma aldeia global – Yatra visvam bhava tye kani dam (onde o mundo inteiro pode encontrar um ninho) que segue a ideia da educação como um campo holístico, no qual professor e aluno trabalham juntos em um círculo de aprendizagem comunal – sob a sombra de outros pomares de mangueiras – amra kunja.

A ideia de Rabindranath era conceber um currículo que criasse harmonia com toda a existência, cujas raízes se aprofundassem na conexão com a localidade, mas sua ressonância e atração se estenderiam muito além da vegetação exuberante e do solo vermelho da localidade. Uma educação que brotou de salas de aula ao ar livre e da conexão com a natureza, afastando-se totalmente das salas de aula fechadas e dos modelos europeus de aprendizagem frontal conduzida por exames, que ele sentia sufocar seu próprio aprendizado. Uma celebração da sazonalidade, em vez de rituais religiosos, um despertar dos sentidos que abraçou a expressão através das artes.

Ela é nossa, a mais querida de nossos corações, Santiniketan.

Nossos sonhos se embalam em seus braços.

Seu rosto é uma nova maravilha de amor cada vez que a vemos,

pois ela é nossa, a querida de nossos corações.

Nas sombras de suas árvores nos encontramos

na liberdade de seu amplo céu.

Suas manhãs vêm e suas noites

trazem beijos do céu,

fazendo-nos sentir de novo que ela é nossa, a querida dos nossos corações.

A quietude de suas sombras é agitada pelo sussurro da floresta;

seus bosques de amlaki tremem com o arrebatamento das folhas.

Ela habita em nós e ao nosso redor, por mais que possamos vagar.

Ela tece nossos corações em uma canção, tornando-nos um só

afinando nossas cordas de amor com seus próprios dedos;

e sempre nos lembramos de que ela é nossa, a querida de nossos corações.

Rabindranath Tagore é frequentemente descrito como um polímata – ele se torna conhecido na Europa como poeta e o primeiro da Índia, ou mesmo de descendência não europeia, a obter reconhecimento por sua poesia e escrita, ganhando um Prêmio Nobel por Gitanjali, ou, como é traduzido, Oferenda Lírica. O que é mais impressionante em Tagore é o que ele fez com o prêmio em dinheiro. Ele o investiu na escola. Ele acreditava que os alunos não deveriam pagar por sua educação e que deveriam experimentar uma liberdade ao aprender que não fosse prejudicada por essa preocupação. Isso significa que muitas das viagens e palestras que Tagore deu internacionalmente foram para o apoio contínuo à manutenção e funcionamento da escola.

Antes de nos reunirmos em Santineketan, as mulheres da aldeia próxima prepararam o terreno para nosso registro. Elas desenharam um grande círculo no chão e aplainaram a terra em um movimento circular, o mesmo método que as mulheres usam para rebocar as moradias na região, usando uma mistura de esterco de vaca e areia. Nos dias seguintes ela secou, enquanto as mulheres preparavam o lugar para cozinhar e comer juntos. Essa foi a segunda edição do Embaixo da Mangueira, a primeira ocorrendo entre Atenas e Kassel. Mas Santineketan foi a inspiração. O convite de Sanchayan Ghosh, chefe do departamento de pintura da escola de arte, veio no final da primeira edição. Ele participou da primeira edição e considerou que mais um encontro poderia comemorar o 100º ano da escola de arte, fundada em 1919, mesmo ano em que a Bauhaus foi formada. O ensino na Bauhaus no ano de fundação constatou a importância e a relação entre o corpo, o movimento e a força criativa. Mas hoje não vou me concentrar nos aspectos formais do aprendizado, e sim pensar sobre práticas que nos trazem de volta a nós mesmos, sendo fundamentais para nossa própria aprendizagem e desaprendizagem. Hoje eu gostaria de me concentrar nessas práticas de desaprendizagem como uma forma de práxis. Nas práticas das escolas que reunimos havia uma necessidade de reescrever coletivamente o conhecimento – não apenas em termos de como entendíamos o conhecimento, mas também em como desaprendermos. Percebi que as escolas, bibliotecas e iniciativas que reunimos reconheciam suas práticas como extensões de seu próprio pensamento e processos de aprendizagem.

Como você pode pensar por meio do corpo, se passou anos sendo condicionado a pensar que ouvir é ficar quieto, estar atento é não se distrair e enfocar o olhar na pessoa que está falando? Durante meu tempo como professora, descobri que usar as mãos para me concentrar em outra coisa gera outra maneira de estar juntos. A natureza da conversa e do diálogo muda. O tato permite uma conexão com outras pessoas que não é pressionada e flui, permitindo silêncios e conversas. Outra coisa nos meus estudos que fui desencorajada de fazer era falar. E eu gostava muito de conversar. Falar era minha maneira de entender qual era a tarefa em questão. Se eu sabia fazer algo, o prazer de mostrar aos outros como fazer era algo impossível de resistir. Na minha escola não fui encorajada a falar – fui encorajada a ficar em silêncio. Porque, no entendimento dos professores, se eu ficasse calada estaria sendo receptiva. Embora o silêncio tenha sua utilidade, é importante saber que falar também tem sua utilidade. Não só para demonstrar conhecimento, mas também como forma de transmissão e tradução, expressão e diálogo. Potencialmente, é na fala que o entendimento se consolida. Mas não somos encorajados a entrar em diálogo com aqueles que nos ensinam. O papel dos professores é ensinar e o aluno deve, portanto, absorver o que está sendo ensinado.

Uma voz

Uma pequena voz

Uma pequena voz fala

Uma pequena voz fala dentro dela e ela não move os lábios. Ficando muito quieta, ela escuta. Escuta para ouvir se a voz vai falar novamente. Ela só ouve sua respiração agora, enquanto seu peito sobe e desce. Ela se dá conta dos ruídos que a rodeiam. O trinado repetitivo de um pássaro na manhã de domingo e o som seco das rodas de um carro subindo o morro. O som de um sino de igreja e o choro de uma criança pequena, criando o cenário de uma tranquila manhã de domingo. Mas essa voz, essa voz que falava dentro dela, falava tão suave e claramente, sem confusão e com clareza perfeita. Está na hora de acordar.

Ela costumava acordar com sua voz interior tentando entender o mundo. Resolver problemas da véspera. Resolver discussões. Criar soluções e fazer planos. Sua voz interior ficava mais quieta à noite e sempre acordava cedo. A cacofonia de muitas vozes dos eventos cotidianos passava por ela. Mas pela manhã havia poucos sons para desafiar sua voz interior. Levante-se, há muito o que fazer hoje.

Ela inspira novamente e focaliza o céu azul, esperando mais instruções. Fechando os olhos, ela percebe o quanto sua voz interior soa como sua própria voz. Refletindo sobre como poderia ouvi-la, ela fica presa em seus pensamentos. Ela treinou para ouvir essa voz? Pensando bem, talvez a voz sempre tenha estado lá. A insanidade de possuir outra voz falando de dentro provavelmente foi desenvolvida quando estava na escola, ou ao tentar ouvir a voz de Deus na igreja. Ao escrever e ler, os alunos de sua escola eram convidados a trabalhar em silêncio. Apenas se podia ouvir o arranhar dos lápis de carvão no papel e o virar de páginas. Ela tinha problemas para ler em silêncio e para identificar vozes diferentes em textos narrativos. Muitas vezes não sabia quem estava falando. Isso não a impediu de tentar decifrar as vozes. Pois as palavras na página permaneceriam como símbolos codificados sem a articulação da voz. Quem estava falando? Era o escritor, ou eles criaram outro narrador? O narrador em sua mente deve ser neutro e sem preconceitos.

Era por isso também que ela se esforçava para seguir uma história que alguém estava lendo. Enquanto o leitor refletia sutilmente as nuances do texto, a articulação das palavras na página, pronunciando com o diafragma, o ar passando pela laringe e a traqueia, para ser manipulado pela língua, o ar passando pela língua e pelos dentes criando uma onda de som que oscila no ar até que reverbera em torno da pele do ouvido externo descendo em espiral no ouvido interno, envolvendo o som em três ossos conectados rodeados por um líquido de equilíbrio, a informação viajando até o cérebro para decodificar os símbolos sonoros como algo significativo. Atacando como tiros rápidos, a manipulação do som em uma linguagem com significado. Mas, em vez de seguir o fluxo das palavras, ela derivava e conversava com sua voz interior. Uma palavra ou frase funcionava como gatilho.

Muitas vezes me perguntam – como se desaprende? Ou o que significa desaprender? Bem, para mim, foi uma jornada que começou tentando reconhecer minha voz. Quando falo sobre minha voz, falo sobre a consolidação entre meu pensamento interior e minha expressão externa. Frequentemente, é algo que temos dificuldade para fazer, e grande parte de nossa educação é sobre orientar essa expressão externa. Mas acho que muito do que penso quando penso em desaprender é reconhecer que com frequência não estamos no centro de nossa própria história. Nossa voz muitas vezes pode ser descentrada. Isso está na raiz de muitos movimentos comunitários cujas lutas contínuas estão galvanizando mudanças. O que poderia significar descentrar a brancura de nossa educação? Reconhecer e valorizar outros conhecimentos. O que poderia significar romper esse espaço para não mais contar a história daquele que chamamos de vencedor, mas para ouvir as vozes que há tanto tempo foram marginalizadas, silenciadas, alteradas ou mesmo apagadas. Quando penso nessa questão, também penso muito sobre a vida não humana. Uma série de práticas nas quais me inspiro consideram a aprendizagem baseada na terra central para a formação e o projeto de união.

“Vir [à sombra desta mangueira] com a insistência com que venho aqui, experimentar a solidão enfatiza em mim a necessidade da comunhão. É enquanto adverbialmente só que percebo a substantividade de estar com.” 

Por meio do Embaixo da Mangueira, nosso objetivo comum ou coletivo era compartilhar e ampliar nossa compreensão e conhecimento de iniciativas artísticas criticamente situadas fora do cânone ocidental. É possível transformar velhas estruturas em novas? Estávamos interessados em formas coletivas de produção de conhecimento, centrando outras formas de conhecimento ou, em alguns casos, formas indígenas de conhecimento, bem como em encontrar formas de criar um ambiente não hierárquico. Na preparação, olhamos para um texto escrito por Freire a partir de seu Pedagogia do Coração. Ao sentar-se sozinho à sombra da mangueira, ele reconhece o valor do que significa estar com. Além de compartilhar a prática, o que descobrimos é que através das oficinas e dos momentos de encontro também estávamos praticando o estar com. E essa união não é um dado adquirido. Quando você está no círculo pela primeira vez com um grupo de pessoas que você não conhece, vocês não estão juntos – vocês ainda não são um grupo -, vocês não encontraram um terreno comum, mesmo que todos estejam interessados em estar em um lugar ao mesmo tempo – vocês são um grupo de indivíduos. O que aprendi é que a união é uma prática que requer tempo, requer atenção e foco e requer escuta ativa. Não apenas para os outros, mas também para você mesmo, e é por meio dessa troca recíproca que se estabelece uma conexão.

Eu gostaria de usar a segunda metade desta palestra para discutir algumas das práticas que reunimos. Não será uma lista conclusiva, mas talvez ajude a dar uma ideia da natureza dessas práticas e das formas como elas ocorrem. Para a primeira reunião, os colaboradores se encontraram pela primeira vez durante alguns dias em Atenas. Ocupamos a antiga biblioteca universitária da Escola de Belas Artes de Atenas. Como forma de nos apresentarmos, também compartilhamos conexões que tínhamos com outras pessoas do grupo. Também pedi a cada colaborador que trouxesse uma semente – talvez tenha sido mais um gesto simbólico do que uma tentativa antiética de mudar a ecologia, mas cada um de nós trouxe algo que queríamos plantar em termos de ideias. O que queríamos cultivar em nós mesmos e nos outros? Na época, a documenta 14 estava acontecendo, e na escola de arte a exposição era voltada para o aspecto pedagógico e incluía alguns trabalhos dos colaboradores.

Convidamos dois membros do Ciudad Abierta – Cidade Aberta, da Escola de Valparaíso, ou Escola de Arquitetura e Design da Pontifícia Universidade Católica de Valparaíso, re-fundada nos anos 1950 por um poeta e um arquiteto com uma forte visão dos departamentos e de sua relação com a palavra poética. Muitos outros artistas e filósofos aderiram a essa ideia, e em 1965 desenvolveram uma viagem chamada a primeira Travessia, que começou na Terra do Fogo e terminou em Santa Cruz de la Sierra. A principal questão formulada durante essa viagem foi o significado de ser americano, e deu origem ao poema “Amereida”. Depois dessa experiência, foi necessário criar um lugar onde a palavra poética e os atos fiquem juntos e, principalmente, a união entre “vida, trabalho e estudo”, para que a Cidade Aberta represente um lugar ou uma terra na América, diante do Pacífico, que une as palavras e os atos. Ela permanece aberta pela hospitalidade apresentada por todos os membros da escola, corporação e habitantes. Ciudad Abierta também é um campus experimental onde se podem estudar algumas questões sobre design, arquitetura e as formas a eles relacionadas ou a outras disciplinas artísticas, e também um campus de pesquisa e projeção para os alunos e a comunidade da Escola de Arquitetura e Design, que assistem às aulas juntos todas as quartas-feiras. Ainda não tive a oportunidade de visitar a escola, mas uma das discussões difíceis foi explorar como esta escola vê a paisagem em relação aos povos indígenas que trabalharam e viveram nesses territórios e cuja própria existência, modos de ser e saber são apagados à força através do legado do colonialismo estrangeiro.

Convidamos a Wood Land School para um projeto em andamento, sem local ou forma fixos. Instigada pela primeira vez por Duane Linklater, a Wood Land School procurava fazer compromissos críticos dentro dos reinos da representação, cinema, arte contemporânea, terra e política em Turtle Island e além. Surgiu da investigação de Linklater sobre artistas indígenas baseados no norte de Ontário na década de 1970, cujo trabalho envolvia formas de arte indígenas antigas e contemporâneas. Cada iteração da Wood Land School traz à tona um compromisso de enfrentar a falta de inclusão estrutural dos povos indígenas, tanto histórica quanto atual, em uma multiplicidade de espaços institucionais. É um espaço conceitual e físico para os povos indígenas, onde eles decidem seus rumos, estruturas e funções.

Uma das coisas que adorei na Wood Land School foi a ousadia de repensar completamente como, enquanto artistas indígenas, vocês podem trabalhar com instituições. Uma coisa que aprendi com eles foi como é importante reconhecer que, para tantos, a educação também pode desencadear a violência ou o trauma da escolarização. Uma escolaridade que pode ser estruturalmente racista e tenta continuamente apagar sua existência. No projeto de 2017 da Wood Land School em Montreal, a Galeria de Arte Contemporânea SBC foi renomeada e funciona como Wood Land School. Wood Land School negocia mudanças estruturais e limitações enquanto programa o Kahatènhston tsi na’tetiátere ne Iotohrkó: wa tánon Iotohrha / Desenhando uma linha de janeiro a dezembro, uma exposição lenta que se desdobrou ao longo do ano em uma série de três gestos que centraram a indigeneidade por meio de objetos de arte, performances e eventos discursivos. A Wood Land School estendeu esse gesto à documenta 14, levando obras de arte de Turtle Island para ser instaladas no Stellwork Kulturbahnhof em Kassel. Esta modesta exposição de obras foi proposta como uma condição para a Wood Land School articular suas preocupações, questões, ideias e sentido de estar em um amplo contexto internacional. 

Nem todas as práticas e escolas que foram convidadas para a primeira edição puderam comparecer à segunda edição, modificada para um modelo de autofinanciamento por meio de indivíduos solicitando bolsas e também de auto-organização. Mas tivemos alguma continuidade. Uma das coisas interessantes para mim foi ver as maneiras como nos comunicamos depois do nosso primeiro encontro. Eu tinha uma seleção de cartões-postais antigos que comprei em um mercado em Kassel – distribuí-os aos colaboradores e pedi que colocassem seus endereços nos cartões. Então, um dos artistas, Nikola Oleynikov, que faz parte de duas escolas diferentes – Freehome University e School of Engaged Art -, pegou todos os cartões-postais e criou uma colagem e desenhos sobre eles. No ano seguinte, ele os enviou a todos como um lembrete do compromisso que tínhamos feito de nos reencontrarmos. Mas é claro que com o tempo as iniciativas mudam e algumas chegam ao fim e encontram nova energia em outras formas. Vindo do Canadá, Vincent Tao, que participou da primeira e da segunda edições, trouxe uma forma de pensar sobre a nossa relação com os corpos e os livros para considerar a biblioteca como um espaço gerador e produtivo de aprendizagem.

Notes on Political Ecologies (N.O.P.E. 2016) [Notas sobre Ecologias Políticas] foi um experimento institucional que reuniu um coletivo de seis artistas, escritores e pesquisadores emergentes e os convidou a se apropriarem do espaço de exposição 221A como um local de estudo comunitário entre junho e agosto de 2016. Com a orientação do bibliotecário do 221A, Vincent Tao, o coletivo se reuniu duas vezes por semana para planejar e realizar uma investigação sobre os arredores íntimos da instituição: a Chinatown e o Downtown Eastside de Vancouver. Esses bairros sobrepostos têm sido historicamente um núcleo vital de lutas por poder dos imigrantes e da classe trabalhadora, pela soberania indígena e pelo direito à moradia. No momento, esse terreno contestado está tomado por uma campanha de investimento de capital – “revitalização econômica”, ou despejo, deslocamento e gentrificação, em suma. Usando o 221A como um complexo espaço de estudo embutido no centro geográfico dessa luta, N.O.P.E. 2016 incumbiu seus participantes de interrogar, com esperanças de transformar, os papéis dos artistas e de suas instituições no rápido redesenvolvimento de Vancouver. Devido ao trabalho de Vincent Tao e ao engajamento do espaço na comunidade local, eles desenvolveram a ideia de transformar o espaço em uma biblioteca permanente que reunisse um acervo – eles a chamaram de Pollyanna.

Pollyanna ofereceu a artistas e curadores uma plataforma flexível para experimentar novas estratégias de produção e engajamento público. A infraestrutura da biblioteca e do acervo permanente foi concebida para contornar a transitoriedade obrigatória das exposições rotativas, modelo que o 221A entende como embutido na lógica temporal da precariedade econômica.

A coleção de Pollyanna respondeu ativamente e se desenvolveu com as atividades de bolsas; documentos e materiais acumulados na pesquisa do bolsista serão colocados à disposição do público para estudo durante o horário de funcionamento da biblioteca. Esse formato encorajou um envolvimento sustentado e trocas produtivas com o público ao longo da pesquisa do bolsista em 221A.

Contrariando o ciclo de produção e exibição paradigmático das indústrias culturais, Pollyanna privilegia um modelo ecológico de reprodução social. A instituição da arte como fermento ou adubo, onde ideias, atores e comunidades se desenvolvem em cooperação. Além de uma mudança para a programação educacional e projetos dialógicos, Pollyanna funcionará, portanto, como um espaço livre para reuniões e estudos comunitários, guiada por uma estratégia considerada de cultivar encontros produtivos entre públicos. Aprendendo com Notes on Political Ecologies (N.O.P.E. 2016), os potenciais geradores de construção de relacionamentos e confiança em uma comunidade, as organizações de bairro terão acesso fundamental à biblioteca para abrigar reuniões e eventos. Em uma cidade onde o espaço comum é deliberadamente fechado e apagado, Pollyanna será uma instituição comum – ou instituição dos comuns – onde a construção da cultura e da sociedade será, como deve ser, um esforço comunitário.

Em Santineketan, Vincent se concentrou na ideia de Sala de Aula Vagante (Drifting Classroom), que ele descreveu como vinda de uma série de mangá de terror de 1972-1974 (Hyoryu Kyoshitsu) sobre uma escola misteriosamente desenraizada e à deriva em uma terra devastada e fantasmagórica. Os alunos descobrem que foram transportados para um futuro onde a Terra foi despovoada por uma cascata devastadora de colapsos ambientais. No capítulo final, os alunos recebem uma carta enviada do passado, “nosso mundo – o mundo que deixamos para trás”, embalada em uma cápsula com um estoque de ferramentas e suprimentos para a sobrevivência. Alimentados por esse encontro com a história, sua história, os alunos resolvem rejuvenescer a escola ao invés de continuar tentando escapar: “Para melhor ou para pior, este é o nosso mundo!… Imagine o que somos capazes de fazer se realmente nos comprometermos!” Juntos na turbulenta sala de aula eles começam a construir uma nova sociedade no invólucro da velha. Então, essas ideias de transformar novas pedagogias dentro dos resquícios de velhas estruturas era algo que também estávamos pensando com os alunos de Santiniketan, porque sua escola havia se tornado um patrimônio e de certa forma havia consagrado a pedagogia de um modo que não lhe permitia transformar-se. Nós vagamos pela biblioteca e nos permitimos andar a esmo e pegar qualquer livro em que estivéssemos interessados e passar algum tempo com ele antes de escolher outro. Em seguida, compartilhamos nossa seleção e tentamos ver se havia alguma conexão entre os textos pelos quais fomos atraídos.

Não estávamos propondo práticas radicais em si, mas encorajando o diálogo entre as disciplinas e reconhecendo que os alunos do departamento de pintura não tinham a oportunidade de conhecer os alunos de escultura, ou gravura, que não fazia parte de um currículo definido. Estávamos esperando o inesperado acontecer. Um dos alunos disse que nos conhecemos, mas não nos conhecemos realmente. E abrir espaço para os alunos fazerem isso tornou-se uma força vital de conversação e criação.

Portanto, ao preparar minha palestra para vocês hoje, percebi que grande parte do trabalho feito no Embaixo da Mangueira se baseia na confiança. Acredite que temos uma linguagem comum e compreensão do que se pretende. Apesar de ter havido muitas conversas antes de um encontro, muitas das oficinas, intervenções e momentos também dependem de quem deseja participar e dialogar. No caso de Santineketan, estávamos no terreno da escola em um parque aberto. Muitos alunos de arte se envolveram com nosso programa, mas como workshops acontecem simultaneamente e por diferentes períodos de tempo, dependendo da natureza do workshop, o número de pessoas nos grupos variou. Um dos grupos de estudantes que esteve com Sharmila Samant tornou-se uma espécie de escola peripatética. Eles visitavam outros grupos e Sharmila passava algum tempo discutindo, segundo sua experiência e com mais profundidade, as ideias e conceitos trazidos pelo workshop.

E é assim que Embaixo da Mangueira funciona como um encontro de práticas que são compartilhadas coletivamente e se baseiam no convite. Fomos convidados por Jorge Gonzales e a Escuela d’Officios de Porto Rico em 2022, e esperamos encontrar uma ressonância local que se baseie nas experiências dos últimos dois encontros.

Agradeço por ouvirem.

 

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