Elizabeth Bishop é autora homenageada da Flip 2020

A poetisa estadunidense lésbica e viajante é a quarta mulher a receber a condecoração do evento

Luana Fortes
Retrato de Elizabeth Bishop em 1964 (Foto: Wikimedia Commons)

Em uma leitura dramática no Itaú Cultural, com Flora Thomson-Deveaux, Maria Manoella e Marilene Felinto, foi anunciado nesta segunda-feira, 25, que Elizabeth Bishop (1911-1979) será a autora homenageada da 18ª edição da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, programada para 29 de julho de 2020 até 2 de agosto. De acordo com o diretor artístico Mauro Munhoz, a poetisa estadunidense está na lista de possíveis autores homenageados há mais de dez anos, mas é efetivamente a primeira vez que o evento escolhe um nome estrangeiro para a deferência.

“Ela viveu mais de quinze anos no Brasil e produziu parte de sua obra aqui, claramente influenciada pela experiência estrangeira e brasileira. Basta ler suas cartas para termos clareza disso”, afirma a editora Fernanda Diamant, que assina a curadoria da Flip pelo segundo ano consecutivo. “Ela foi também uma importante difusora da literatura brasileira nos países de língua inglesa, tendo traduzido nossos maiores poetas”. A autora traduziu textos de Manuel Bandeira, Oswald de Andrade, Vinicius de Moraes, entre outros. 

A escolha de Bishop tem rendido críticas. A Flip não poderia ter privilegiado uma autora brasileira? Ter escolhido Carolina de Jesus ou Cecília Meireles? Até hoje, 25% dos homenageados pelo evento foram mulheres, nenhuma negra. Na lista com 17 nomes, apenas figuram Clarice Lispector (2005), Ana Cristina Cesar (2016) e Hilda Hilst (2018). Ao menos a decisão por Bishop condecora a obra de uma autora lésbica. Entre os destaques de sua biografia está a relação amorosa que teve com a arquiteta Lota de Macedo Soares.

Elizabeth Bishop veio ao Brasil em 1951 e, entre temporadas pelo Rio de Janeiro e por Minas Gerais, aqui viveu até 1971. Suas menções ao país em poemas e cartas revelam impressões paradoxais. Em determinados momentos, a poetisa se deleita com as paisagens brasileiras e, em outros, faz ferozes críticas sociais. Sobre sua produção, vale a leitura da seção Correspondência da edição #35 da revista Piauí, acesse aqui. A escolha por homenagear sua obra leva a um olhar sobre a literatura de viagem e, portanto, promove uma visão externa sobre a construção de identidade brasileira, que tanto tem a dizer sobre relações coloniais e pós-coloniais. 

Homenagear a autora é chamar atenção para uma leitura de fora para dentro de nossa cultura. Uma visão excêntrica, no melhor dos sentidos”, aponta o crítico literário Leonardo Gandolfi em análise para a Folha de S. Paulo. “Em meio ao nosso atual e triste isolamento político, é bom discutirmos olhares estrangeiros, não para que clichês sejam reforçados, mas para que circulem perspectivas menos autocentradas”.

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