Elogio da lembrança impossível

Na galeria Simone Cadinelli, Jeane Terra apresenta obras construídas a partir da escavação de memórias

Ana Clara Simões Lopes

Publicado em: Vol. 10, N 50, Abril/ Maio/ Junho 2021

Categoria: A Revista, Destaque

Lambris do Pontal, 2020, Jeane Terra (Foto: Divulgação/ Galeria Simone Cadinelli)

“Sei que perdi tantas coisas que não poderia contá-las, e que essas perdas, agora, são o que é meu.” A frase de Borges pode dizer sobre muita coisa, especialmente sobre o trabalho de Jeane Terra. A artista teve sua trajetória marcada por impactantes perdas, únicas em suas formas e contextos. O luto da mãe foi interrompido pela abrupta perda do restante de sua família e a consequente demolição da casa onde crescera em Belo Horizonte. Jeane Terra conta que, quando viu os escombros de sua “morada de memórias” no canteiro de demolição, movida pela inabilidade de se despedir daquela construção e suas recordações, reuniu pedaços da ruína ali presente. “Carreguei esses escombros por um tempo, levei-os comigo em três mudanças, até entender o que precisava fazer com eles.” Mais tarde se tornariam parte de uma de suas obras.

O Inventário (2017) tece profundas relações entre o tempo e os destroços. Nesta obra, um projetor, outrora de seu pai, reproduz a imagem da casa sobre uma ampulheta incrustada num escombro de sua demolição, a areia desta substituída pelo pó oriundo da ruína. Este estopim aponta muitas das questões que, progressivamente, instalar-se-iam no cerne da prática artística de Terra: a casa, a perda, os vínculos entre o tempo e a arquitetura, entre a memória e suas subjetividades. “Essa obra embrionária foi, para mim, uma forma de fazer com que aquela morada não deixasse de existir, de ressignificá-la”, reflete a artista. Na sua obra, debruçar-se sobre estas questões é uma forma de metabolizar o fardo dos acontecimentos, rearranjar lembranças, torná-las eternas, torná-las próprias, suas.

Sentinela Negra do Pontal, 2020,
Jeane Terra (Foto: Divulgação/ Galeria Simone Cadinelli)

Atafona é, nesta mostra, elemento aglutinador e ponto de partida para estas forças que poeticamente permeiam a pesquisa da artista. O distrito de São João da Barra, na Região Norte Fluminense, corresponde ao ponto de encontro do Rio Paraíba do Sul com o Oceano Atlântico. O assoreamento das águas e a devastação da mata ciliar ao longo desse rio – que atravessa os três estados mais populosos do Brasil (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro) – enfraqueceram-no, tornando-o inofensivo diante da erosão das correntes e marés impostas pelo Oceano Atlântico em sua foz. O mar vem e, com sua força terminante e ininterrupta, progressivamente engole a cidade – faz ruir suas ruas, casas e construções. A Praia do Pontal, sítio que reúne algumas das investigações de Terra, consiste atualmente em uma porção residual do que já foi sua extensa orla e é um dos exemplos manifestos dessa degradação.

Em curso desde a década de 1960, este é um esboroar assistido, já assimilado pelo cotidiano da cidade. A artista presenciou o que chama de “luto dos moradores” de Atafona, que, com naturalidade, contabilizam os anos que ainda restam antes que suas casas sejam engolidas pelo mar. Esses resilientes habitantes parecem personificar a passagem de (W.G) Sebald, eles compreendem, melhor do que ninguém, os edifícios que “projetam a sombra de sua própria destruição”, que são experimentados “desde o princípio com um olho para sua existência ulterior como ruínas”.

Condições com as quais a artista também se relaciona, Escombros, peles, resíduos reúne obras que urdem estes pedaços de construções e as memórias que os circundam. Reorganizando as ruínas que o mar faz da cidade, Jeane Terra incita impregnações poéticas entre as memórias de Atafona e suas próprias.

Crustáceo Vermelho do Pontal, 2020,
Jeane Terra (Foto: Divulgação/ Galeria Simone Cadinelli)

Fazer (com) memória
Nesta individual inaugural na galeria Simone Cadinelli Arte Contemporânea, a artista nos oferece um processo fortemente informado pelo afeto oriundo do ato de recordação. Aqui, memórias apontam percursos, dobras, procedimentos e até mesmo a opção por alguns materiais.

Escavação Capilar – Pontal de Atafona (2021) é um destes casos. Aqui, a escavação, procedimento recorrente na obra de Terra, é realizada na parede da galeria. Aquela que uma vez fora a orla do Pontal de Atafona nos é apresentada enquanto talha na arquitetura, minuciosamente revestida pelo brilho das folhas de ouro. A inscrição da cartografia na arquitetura é entendida pela artista como um movimento de perpetuação da memória, “escavo o mapa da cidade para que a cidade não se perca”, ela diz, e continua: “No final da exposição, ainda que apagada, a escavação se tornará uma memória, permanecerá para sempre um vestígio na arquitetura da galeria”.

Em alguns pontos desse contorno, seu sulco ganha corpo e volume: são fragmentos de ruínas resgatados e agora circunscritos à memória da cartografia da cidade. Nesses escombros subjacentes, a fisicalidade das, uma vez, moradas permanece: Crustáceo Vermelho do Pontal (2020) dispõe de uma pintura residual que, mesmo exposta a anos de marés, não perdeu sua qualidade rubra. A superfície de Pérola do Pontal (2020) segue incrustada por ladrilhos alvos e o revestimento escuro de Sentinela Negra do Pontal (2020) não desbotou, apesar de todo o mar. Essas características residuais aludem às possíveis funções e configurações anteriores destes fragmentos, nos incentivam a imaginá-los parte de moradas maiores; tornam palpável a brutalidade concreta do processo de degradação em curso.

Em Lajeado 1 (2020) e Máscara Gold (2020), esta vontade de apreensão da memória parece intensificar-se: a fisicalidade da construção que ruiu não é suficiente, é preciso reproduzi-la. Terra tira moldes de escombros fragmentados que, posteriormente preenchidos, são replicados. Com esta “impressão da casa”, ela eterniza um estágio de ruína superado (já que os escombros seguem, em verdade, perecendo no oceano). A estas esculturas a folha de ouro também é sobreposta, aludindo novamente ao brilho de outrora, ao “quanto de memória há impregnado nos lugares que a gente vive”, como bem diz a própria artista.

Presente em ambos os trabalhos, a folha de ouro é um dos materiais a que chega Terra por meio do acesso às suas próprias memórias. Essa pele dourada remete à mina afetuosa de lembranças das igrejas barrocas de Minas Gerais, que a artista visitava enquanto criança. Quando sobreposto à parede e ao cimento, o material acomoda-se e passa a remeter também à preciosidade das memórias de Atafona, da recordação das muitas casas e existências que não só as suas.

Em Fáscia 2 (2020), a imagem de uma das casas em ruína de Atafona é bordada sobre uma pele de tinta, suporte de destacada fisicalidade inventado pela própria artista. Aqui, mais uma vez, as memórias alheias misturam-se às de Terra, em um processo de mútua impregnação poética. Na obra de generosa materialidade, o ímpeto em marcar o corpo com memórias (durante o luto, sentiu necessária uma tatuagem) transpõe-se à vontade de bordar nessa pele as ruínas de Atafona. O meticuloso bordado remete aqui, ainda, aos anos de convívio com sua avó. Como lindamente coloca Agnaldo Farias, curador da mostra, talvez assim, “sobrepondo os gestos de sua avó aos seus próprios gestos, elas se reencontrem e nem tudo fica perdido”.

É justamente nessa sobreposição de gestos, no interfaceamento de recordações que as investigações plásticas de Jeane Terra se desenrolam. Com sua materialidade generosa, a obra é um elogio às memórias impossíveis, um exercício de apreensão das moradas cujo desaparecimento é iminente. Terra lança-se em direção às tentativas de recordação e reelaboração do que já se foi e do que resta para rearranjar as perdas e o luto, fazer dos afetos seu sentido próprio. Tudo aqui se faz (com) memória, afinal.

Escavação Capilar – Pontal de Atafona 2020,
Jeane Terra (Foto: Divulgação/ Galeria Simone Cadinelli)

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