Em busca do livro sem margens

Giselle Beiguelman

Publicado em: 24/12/2011

Categoria: Ensaio, Reportagem

O livro eletrônico abrirá um novo capítulo na história da escrita

A internet transformou o computador em uma máquina de ler, escrever e publicar. É inédito na história da humanidade um dispositivo que articule tantas etapas do processo editorial. No âmago dessa cadeia reina soberano “sua excelência, o livro” e toda uma gama de velhas e novas discussões sobre a possível extinção de seu formato impresso e substituição pelo modelo eletrônico.

Esse debate, contudo, é paradoxal, pois, enquanto se alardeia o esgotamento do livro impresso, o que se testemunha é uma sucessão de experiências frustradas de emplacar a versão eletrônica.

O lançamento do Kindle, pela Amazon, em 2007, marcou um primeiro movimento de real sucesso do livro eletrônico em relação ao impresso. As vendas nesse formato crescem em velocidade impressionante, mas o mercado literário ainda é dominado pelo impresso.

Isso indica uma maior necessidade de avaliação de dados sobre produção e consumo. Indica que há ainda muito a investigar sobre os processos de leitura e suas transformações na passagem de um formato para o outro. Afinal, não se fala de um mundo da leitura sem pressupor uma leitura de mundo, como já assinalou uma das principais estudiosas da história da leitura e do livro no brasil, a crítica literária e professora Marisa Lajolo.

As perguntas que parecem não querer calar são: a despeito dos inegáveis sucessos de venda dos novos e-readers e dos tablets, o que tanto fascina no livro impresso? e o que queremos do livro eletrônico?

Ebook

A perspectiva, sistematizada no experimento de Bruneleschi, é referência de uma leitura de mundo que demanda o enquadramento como pressuposto da compreensão

Mortes e ressurreições do e-book

O livro impresso é, provavelmente, o mais estável produto cultural que conhecemos. Do ponto de vista do design, mudou quase nada ao longo de seus mais de 550 anos de história, incorporando, basicamente, os princípios estruturais dos códices medievais: formato retangular, capa, contracapa, miolo (composto de folhas dobradas em quatro) e lombada.

Tamanha longevidade, em uma cultura do descarte como a nossa, surpreende. Por um lado, prevalece entre nós a obsolescência programada. Por outro, o lançamento de produtos antes de estarem realmente prontos é tão comum que já nos acostumamos com o súbito desaparecimento de um deles. De uma forma ou de outra, o que sobra são artefatos passageiros. Basta pensar em quantas vezes, nos últimos dez anos, você trocou de aparelho de TV, som, computador e celular. O mesmo raciocínio não vale, do ponto de vista funcional, para a quantidade de vezes que foi necessário trocar suas estantes.

Como design, o livro impresso, pelo menos diante dos outros produtos com os quais convivemos, é perfeito. Tanto que nunca precisou mudar. Do ponto de vista técnico e da usabilidade, é ainda o único dispositivo totalmente wireless e que funciona com o mínimo de requisitos adicionais.

À estabilidade do livro impresso contrapõem-se as inúmeras mortes e ressurreições do livro eletrônico. Anunciado desde meados dos anos 1990 como produto revolucionário, enfrentou ao longo dos anos uma história de sequenciais fracassos.

Entre as mortes e ressurreições do e-book pulularam mais discursos escatológicos sobre o fim do livro impresso do que estudos sobre os diversos insucessos do similar eletrônico

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Foto: Grenkblog.com/green-electronics-year

Uma anedota corrente no ano 2000, em palestras sobre e-books e o futuro da leitura, costumava encenar uma situação no futuro em que alguém diria sobre nós e nosso presente: eles viviam em uma época em que as bibliotecas continham livros que não “conversavam” entre si. Esse comentário, disse o especialista no tema Clifford Lynch, traduzia a expectativa de que o livro, no formato eletrônico, se transformaria em uma estrutura de conhecimento ativa. Projetava-se aí, portanto, algo além de uma evolução no suporte: a expectativa era por um novo capítulo na história da leitura.

Entre meados dos anos 1990 e começo dos 2000, presenciamos o lançamento de livros em disquete, CD-ROM, e-readers e programas para criação de narrativas eletrônicas. Todos foram lançados com estardalhaço. Poucos sobreviveram (na lembrança e nas implicações históricas). Disquetes – que tiveram, inclusive, um formato específico para livros, o DBF – acabaram sem deixar poeira, saudade ou rastro. E-readers, como o Rocket e o SoftBook, faliram, mas programas leitores, como o Adobe Reader (definitivamente o campeão), tornaram-se parte do nosso cotidiano. Softwares para criação de literatura hipertextual, como o Storyspace, não conseguiram muitos frutos importantes, mas estão diretamente ligados à história da e-literatura, a partir de “clássicos” como Afternoon, a Story, de Michael Joyce (1987) e Grammatron, de Mark Amerika (1995).

Ficou, como referência ainda a ser mais bem aproveitada nos iPads e tablets, a excelência dos livros multimídia da Voyager, de Bob Stein, que depois fundou o Institute for the Future of the Book e hoje dirige um projeto de rede social inteiramente devotado à leitura. Seu conceito de livro expandido é cada vez mais pertinente. No Brasil, também houve uma experiência interessante, a revista NEO Interativa, de Ricardo Anderáos, Silvio Gianinni e Luis Henrique Moraes, que circulou de 1994 a 1997.

Foi de fato a partir das possibilidades abertas pela web, que levaram ao limite essas primeiras experiências radicais como as da Voyager e Storyspace, que ficou clara a timidez da primeira onda dos e-readers. Eles pareciam pretender posar de revolução na leitura, quando nem sequer indicavam uma grande evolução em relação ao livro impresso.

A história das máquinas de leitura sonhadas pela humanidade desde o aparecimento do livro impresso na Renascença mostra que o que perseguimos é um livro sem margens e sem fronteiras, capaz de permitir a costura (ou a linkagem) de passagens dispersas, que relativizem o limite imposto pelo volume dos textos. É nessa direção que caminha toda a pesquisa contemporânea de tecnologia de telas e conexão, cada vez mais orientadas para a fruição compartilhada entre monitores de diferentes portes e não nos monitores em si.

Tudo indica que os próximos capítulos da história da leitura e do livro devem desenrolar-se para além dos limites das molduras definidas pelas bordas das telas ou das margens dos livros. Eles devem romper com o imaginário clássico do mundo enquadrado para aderir à experiência da leitura mediada pelas redes.

*Publicado originalmente na edição impressa #3

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