Em nome do pai

A #seLecT36 comemora seis anos da revista e debruça-se sobre os elos simbólicos entre Brasil, Portugal e África

Paula Alzugaray
Atlântico, de Arjan Martins (Foto: Iara Venanzi)

Em troca de e-mails com Christine van Assche, confirmei a ela que, sim, meu pai havia completado sua participação neste mundo. E que agora cabia a mim continuar a realizar tudo aquilo que ele me ensinou. Ela me respondeu: My dear Paula, you already accomplish a lot with your wonderful seLecT and your way of defending Brazilian artists. A mensagem de Van Assche foi o melhor presente que eu poderia ter recebido neste aniversário de 6 anos da seLecT.

No último mês de elaboração desta edição em que comemoramos as batalhas vencidas, o outro grande presente que recebi foi conhecer a Afirmativa, a primeira e única revista de inclusão e empoderamento afroétnico do Brasil, feita por negros e de propriedade de negros. O presente veio das mãos de seu editor e idealizador, o professor José Vicente, que se aproximou de minha família para nos oferecer a sua solidariedade e demonstrar sua gratidão pela amizade que teve com meu pai por 17 anos – desde que buscava sensibilizar apoiadores e colaboradores para fundar a primeira universidade negra do País.

O hoje reitor e fundador da Universidade Zumbi dos Palmares me contou que, quando procurou Domingo Alzugaray no ano 2000, foi gentilmente recebido em um almoço na sala de reuniões do prédio da Lapa de Baixo, e ouvido atentamente por uma plateia de profissionais da Editora Três – entre os quais, lamentavelmente, havia apenas um negro, o jornalista Rosenildo Ferreira. Ouviu, então, de meu pai: “Para você fazer uma universidade, precisa trazer uma série de pessoas em torno da ideia. Vocês precisam de um veículo para fortalecer, publicizar e trazer adesões para essa ideia, que enfrentará todo tipo de resistência. Vocês têm de estar fortalecidos. Palavras dele”, me disse Vicente.

Ali nasceu a revista Afirmativa, hoje com 15 anos de existência, cujos dez primeiros números foram doados pela Editora Três. “Fazia-se lá, imprimia-se lá e a gente distribuía”, conta Vicente. Além disso, o futuro reitor levou da Lapa de Baixo a promessa de que as revistas da Três abordariam com mais frequência e intensidade as discussões sobre a causa negra, “para compensar o fato de não termos mais jornalistas negros nesta mesa”, disse Domingo.

“A IstoÉ foi a primeira revista a se posicionar a favor das cotas raciais, quando começou a discussão”, continua Vicente. “No final, com o apoio dele, com a generosidade dele, com a sensibilidade dele, nós conseguimos modestamente, se não mudar, acrescentar um dado a essa trajetória histórica do negro no Brasil: a universidade. Ainda hoje, não sei se como uma expressão de ceticismo ou de otimismo, essa ainda é a maior construção que os negros conseguiram no Brasil. Foram 350 anos de escravidão, são 129 anos de abolição da escravatura e tudo o que se conseguiu constituir de uma maneira sólida, clara e definitiva sobre esse tema no brasil é a Zumbi dos Palmares. Não temos mais nada.”

A Universidade Zumbi dos Palmares existe desde 2003. É a única faculdade brasileira com maioria negra: 90% de seus alunos se declaram negros – pelo regulamento da instituição, a cota reservada ao grupo é de 50%, pelo menos. Entre o corpo docente, a ascendência africana também é predominante. Dos 78 professores, 55% são negros. Após 15 anos do início da implantação da política de cotas raciais e sociais – que acaba de ganhar a adesão da USP –, entre o 1,1 milhão de brasileiros que estudam em universidades federais, 430 mil tiveram apoio das cotas. É um bom começo.

Conhecer a batalha de José Vicente e da pró-reitora Francisca Rodrigues contra as adversidades do Brasil, no momento em que começávamos o fechamento desta edição de seLecT que discute a atualidade das relações entre Brasil, África e Portugal, foi, no mínimo, auspicioso. De um lado, lamentei não ter tido tempo de convidá-los a colaborar na revista, trazendo seu pensamento de ponta. Por outro, me alegro em ter a oportunidade de parabenizá-los neste editorial por seu pioneirismo e suas vitórias.

Nesta edição sobre o mundo da arte que fala português, quero, sobretudo, brindar a vida de Domingo Alzugaray, que trocou o castelhano pelo português e teve a grandeza de não apenas lutar por suas ambições, mas de ser solidário. Ter tido a extrema generosidade de dividir sua luz e seu poder de realização tanto com aqueles que amava quanto com aqueles cujo valor aprendeu a reconhecer e admirar. E, com isso, deixar sua contribuição para, quem sabe um dia, conseguirmos curar as dores da história do Brasil.

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