Em seu próprio tempo

Sem deslumbres com a tecnologia, Mostra Rumos Itaú Cultural faz retrato de uma arte em sintonia com a contemporaneidade

Camila Régis

N° Edição: 26

Publicado em: 23/10/2015

Categoria: A Revista, Crítica, Review

Berna Reale em foto da série Precisa-se do Presente (2014), na África do Sul (Foto: Manuela Reale)

Um casal de gêmeos kaxinawá, tribo indígena sul-americana, é o protagonista do jogo para computador Huni Kuin: Os Caminhos da Jiboia. Desenvolvido pelo antropólogo Guilherme Meneses, o videogame apresenta a dupla vencendo desafios e adquirindo habilidades de entidades como animais, plantas e espíritos, para que ao fim da jornada eles se tornem Huni Kuin – no idioma kaxinawá, um “ser humano de verdade”. O projeto, que poderia integrar uma bienal de tecnologia, faz parte da Mostra Rumos, em cartaz no Itaú Cultural e em vários pontos da capital paulista.

Há trabalhos feitos em diferentes plataformas, relacionados a esferas de conhecimento não necessariamente vinculadas à arte. Esse aspecto é o principal norte da iniciativa, que representa o maior edital de incentivo à cultura do Itaú Cultural. Em 2013, o Rumos sofreu alterações significativas: em vez de receber projetos separados por linguagens, passou a aceitar propostas de qualquer área de expressão. Após a reestruturação, o programa selecionou 101 projetos com abordagens plurais. Desses, 15 ocupam o prédio da Avenida Paulista, formando uma exposição pautada pelo hibridismo de temáticas e tecnologias – ainda que nem todas as obras tenham relação evidente com o universo digital. É o caso de Precisa-se do Presente (2014), da paraense Berna Reale, composta de vídeos e fotografias realizados nos países do BRICS – Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul.

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Berna Reale em foto da série Precisa-se do Presente (2014), na China (Foto: Manuela Reale)

 

 

Acompanhada da curadora Júlia Lima, a artista visitou os cinco países, filmou e fotografou a si mesma em situações emblemáticas. Em Moscou, usou uma fralda com o rosto de Vladimir Putin e caminhou pelo metrô da capital russa. Porém, a fim de evitar represálias no espaço público, a imagem do ex-presidente só foi aplicada na obra durante a pós-produção. Em algumas fotografias, a própria artista também foi construída e finalizada digitalmente, originando uma performance que se concretiza através dos meios tecnológicos.

Entre obras tão aparentemente díspares como um videogame e uma performance de arte contemporânea, a exposição apresenta uma leitura na qual a tecnologia não surge apenas como um fetiche eletrônico. Ela é apresentada com uma ferramenta integrada à vivência das pessoas, capaz de ampliar possibilidades e proporcionar novas maneiras de criar.

Mostra Rumos 2013-2014 até 25/10, Itaú Cultural – Avenida Paulista, 149, São Paulo

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