Encontrar um assombro não antevisto

Curadoria de Moacir dos Anjos localiza na violência colonial traços estruturais do país

Paulo Reis

N° Edição: 55

Publicado em: 26/09/2022

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Pintura de Thiago Martins de Melo, na exposição no Museu Paranaense

O projeto crítico-curatorial de Moacir dos Anjos constrói-se na reflexão sobre fronteiras permeáveis e cambiantes e em singulares mapeamentos. Tal pesquisa sinaliza a multiplicidade e, ao mesmo tempo, a complexidade das narrativas históricas da produção das artes visuais contemporâneas no país. Suas curadorias Projeto Nordestes (1999), 30o Panorama da Arte Brasileira – Contraditório (2007), Cães sem Plumas (2014), A Queda do Céu (2015) e Língua Solta (2021, com parceria de Fabiana Morais), entre outras, apresentam e discutem territórios político-sensíveis e, assim, perfazem novas cartografias do olhar.

Reverbera em seu projeto uma historiografia crítica dos anos 1970 preocupada com a proposição de narrativas não hegemônicas, tidas por certa crítica conservadora como “regionais”, construídas pelas historiadoras e críticas de arte Adalice Araújo e Aline Figueiredo e críticos da época. Vale lembrar a relevância do crítico e pesquisador Roberto Pontual, com a publicação do Dicionário das Artes Plásticas no Brasil e, em especial, o volume Arte Brasil Hoje da Revista Vozes (1970), editado por ele e no qual se buscava contemplar historiografias diversas da modernidade e contemporaneidades em dez estados brasileiros.

As exposições organizadas por Moacir dos Anjos aproximam-se da pesquisa proposta pelo crítico e curador Ivo Mesquita em seu fundamental texto de formulação do fazer curatorial, publicado no catálogo Cartographies (1993). Também podem-se elencar a exposição Amazônia, Ciclos de Modernidade (2012), realizada pelo curador Paulo Herkenhoff, sua atuação nas mostras do certame artístico de artes visuais Arte Pará e a publicação As Artes Visuais na Amazônia – Reflexões Sobre uma Visualidade Regional (1985), quando foi diretor do Instituto Nacional de Artes Plásticas. E, por fim, entre tantos exemplos, é importante mencionar o 34o Panorama da Arte Brasileira do MAM-SP, com curadoria de Aracy Amaral, no qual se apresentou um diálogo da produção visual pré-cabralina do país com os trabalhos dos artistas Berna Reale, Cao Guimarães, Cildo Meireles, Erika Verzutti, Miguel Rio Branco e Pitágoras Lopes. Buscou-se, assim, uma narrativa de longa duração com os seis artistas contemporâneos e situá-los junto aos vestígios da produção simbólica anterior à chegada dos colonizadores portugueses. Os curadores e a curadora citados investem no escrutínio da diversidade da produção artística brasileira a partir de múltiplas estratégias. E assim podem ser designados como “pensadores do Brasil”, pois realizam um estudo artístico, social e cultural profundo por meio das exposições, de outros contextos artísticos e de pesquisas historiográficas da formação da arte brasileira. Em sintonia com a produção artística, as muitas temporalidades e os diálogos das curadorias com a política, história e sociedade ensejam a afirmação, simultaneamente, da multiplicidade de sua produção e dos muitos e necessários olhares específicos para a sua compreensão.

NECROBRASILIANA
A exposição Necrobrasiliana, com curadoria de Moacir dos Anjos, apresentada no Museu Paranaense (Mupa), em Curitiba, toma emprestado o título da mostra individual do artista Thiago Martins de Melo no Museu Nacional da República (2019) e desdobra-se em outros significados. O Mupa é um museu histórico fundado em 1876 que, na atual gestão, tem apresentado uma programação intensa e significativa de artes visuais, em diálogo e revisão do contexto histórico. Outro dado relevante em relação à política de visitação de museus, o Mupa tem acesso gratuito e o ótimo catálogo Necrobrasiliana, com texto de Moacir e análise de todos os artistas participantes, é distribuído gratuitamente.

O moto crítico da curadoria, ou sua base conceitual, está construído na aproximação da produção artística visual dos chamados pintores viajantes, em atuação no Brasil nos séculos 16, 17, 18 e 19, e intitulada historicamente de Coleção Brasiliana. Somando a essa herança iconográfica, a discussão de Achille Mbembe é fundamental para a curadoria de Moacir. No seu ensaio sobre necropolítica (2017), o filósofo camaronês conceitua o terror como “uma característica que define tanto os Estados escravistas quanto os regimes coloniais tardo-modernos”. Assim a curadoria localiza na chave da violência institucionalizada do período colonial, seja na ferida da escravidão junto à população negra sequestrada do continente africano, seja na dizimação dos povos indígenas, traços político-sociais estruturais que permanecem no país. O imaginário visual dos artistas viajantes, pelo viés de um olhar contemporâneo crítico e etnográfico, se estabelece em poéticas comprometidas e na discursividade de leituras específicas apresentadas nas proposições dos artistas contemporâneos da exposição. Assim, passado e presente se reencontram em Necrobrasiliana. As questões poético-críticas dos artistas Dalton Paula, Gê Viana, Tiago Sant’ana, Rosana Paulino, Denilson Baniwa, Jaime Lauriano e Thiago Martins de Melo instauram-se em operações distintas fundadas nas referências de imagens dos pintores viajantes Debret, August Sthal, Theodore de Bry, na publicação Expedições à Amazônia Brasileira e numa iconografia com autoria desconhecida da escrava Anastácia. O artista Sidney Amaral constrói uma figuração de autoimolação e ao mesmo tempo desafiadora. Em Rosângela Rennó, o vídeo Vera Cruz reconstrói o relato do ‘descobrimento’ por Pero Vaz de Caminha. Por fim, dois vídeos muito singulares, o livro de artista Diversas Manifestações Sensoriais é mostrado em vitrine e num vídeo delicado da artista folheando suas páginas e, por fim, o resgate do filme Alma do Olho (1974), pungente atuação e direção de Zózimo Bulbul.

A tessitura dos trabalhos apresentados nos aponta para um imaginário visual construído pelos artistas viajantes. E é a partir desse passado tão imbricado no presente e em nossa realidade exasperante que o encontro do imaginário da colonização com essas densas proposições artísticas nos coloca um problema. Que país é este em que vivemos? Que país 135 estamos construindo? Tentamos uma leitura a contrapelo e procuramos restabelecer outra espessura de nosso processo civilizatório ao mesmo tempo que soçobramos na realidade presente. A curadoria de Moacir dos Anjos nos coloca uma questão ética: que se leia, veja, se discuta, se construa e se reflita sobre os muitos sentidos ético-estéticos nos trabalhos apresentados na exposição. É a partir do título deste texto, uma citação da crítica Aracy Amaral no catálogo do 34o Panorama da Arte Brasileira, que poderemos realizar um escrutínio denso e corajoso que se ilumine na mirada do assombro.

Serviço
Necrobrasiliana
Museu Paranaense (Mupa), em Curitiba

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