Ensaios sobre interseções

Na edição #45 da seLecT, coeditada por Daniela Labra, estudamos os vínculos, laços e interseções entre as identidades latino-americanas

Venn Diagrams (Under The Spotlight), 2011, de Amalia Pica (Foto: Cortesia Stigter van Doesburg)

Ilustração com retrato de Paula Alzugaray, por Ricardo van Steen

Durante a ditadura civil-militar na Argentina (1976-1983), a matemática foi considerada tão subversiva quanto as ciências humanas. O governo temia que o conceito matemático de interseção levasse a uma perigosa união da sociedade e a uma conspiração antiditadura. A consequência imediata desse delírio paranoico e repressor foi a proibição do ensino da teoria dos conjuntos nas escolas.

Na edição #45 da seLecT, em que estudamos os vínculos, laços e interseções entre as identidades latino-americanas, recorremos então como imagem de capa a uma obra da artista argentina Amalia Pica, que interpreta os Diagramas de Venn – método de simbolização gráfica da teoria dos conjuntos. Ao construir uma edição sobre o que nos aproxima, não negamos o que nos diferencia, mas o que nos afasta enquanto humanidade: o racismo, a misoginia, a transfobia, os processos excludentes. 

Assim como as teorias pós-feministas invalidaram o feminismo no singular – estabelecido em bases cis-brancas-europeias –, nos propusemos aqui a pensar as Américas Latinas no plural. E que venham escritas em português, em espanhol ou no idioma do povo Kuna: Abya Yala (Terra Madura, Terra em Florescimento ou América).

Como coloca o artista Fernando Lindote, na seção Fogo Cruzado, optar por apenas uma das etnias que se cruzam em nossas existências latinas seria prematuro e superficial. Afinal, sabemos que a homogeneidade da América Latina é uma invenção do Ocidente, como coloca Cristiana Tejo ao apresentar sua pesquisa sobre pedagogias radicais de artistas mulheres latino-americanas. Portanto, expandido o entendimento do que Abya Yala significa, a América Latina passaria a incluir também os Estados Unidos, país onde anglo-americanos e latino-americanos convivem e criam fricções nos debates em torno de raça e cultura, como coloca Rodrigo Moura no texto El Museo Goes Latinx.

A seLecT #45 é uma construção coletiva, coeditada pela crítica e curadora chileno-brasileira Daniela Labra. No contexto desta edição, encontramos forte reverberação dos nossos trabalhos no termo latinx. Apropriamos o termo certos de que seus significados se expandem para além do contexto em que foi criado, para se referir a um território em que a pluralidade não exclui as singularidades.

Paula Alzugaray, diretora de redação


 

Ilustração com retrato de Daniela Labra, por Ricardo van Steen

Ao ser convidada para esta coeditoria, sugeri tratar de temáticas relativas à produção artística e cultural da região latino-americana, por ser um tema que ainda carece explorar, conhecer e refletir criticamente, sobretudo no Brasil, onde a noção de pertencimento identitário não é a de latino-americanidade. Por sua vez, tratar da produção cultural do bloco implicaria forçosamente olhar processos históricos que conformam o Novo Mundo – essa invenção colonial que enriqueceu reinos e Estados europeus, cujo projeto civilizador criou anomalias sociais ainda em metamorfose.

Esta edição assume o Brasil como parte do bloco latino-americano, em um levantamento crítico de arte contemporânea de países da região. Foram investigados artistas, movimentos culturais, teóricos, ativistas, iniciativas independentes, de pesquisa, e outros, que refletem aspectos históricos, humanos, estéticos, políticos e culturais plurais, conectados por uma matriz colonial semelhante. No sistema da arte internacional, o rótulo genérico de Arte Latino-Americana é usado para representar uma produção de arte como se esta fosse homogênea, e nesse sentido apontamos para a impossibilidade e a impertinência de tal definição.

Uma vasta conjuntura indefine o significado de identidade Latina ou Latinx, e as práticas artísticas e as reflexões históricas aqui presentes oferecem suporte sensível para processos prementes de desconstrução crítica das narrativas de dominação.

Coincidentemente, nos meses de elaboração da seLecT #45, eventos de convulsão social explodiram após décadas no Chile e na Bolívia, acompanhando reviravoltas de poder e representatividade em curso já há algum tempo no Brasil e, em especial, na Venezuela. Ao encerrar esta edição, a Colômbia dava sinais de caos social em novembro de 2019.

Daniela Labra, editora convidada

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