Entre, estamos online

Diante da Covid-19, instituições tentam se manter dentro da dinâmica na qual estar aberto é estar virtualmente presente

Nina Rahe

Publicado em: 06/07/2020

Categoria: Da Hora, Destaque, Reportagem

Estudo e reunião para a exposição Que Vão Que Vem, na Galeria Jaqueline Martins (Foto: Divulgação)

Estamos fechados mas seguimos ativos. A frase, com algumas variações, foi destaque nos sites da maioria das instituições culturais nesses últimos três meses. Obedecendo as medidas para a contenção da Covid-19, os espaços mantiveram suas portas fechadas ao público e tiveram que encontrar novas maneiras de continuar. Dentro dessa conjuntura, estar ativo virou sinônimo de estar online. Em março, tão logo a pandemia atingiu o Brasil, o primeiro efeito colateral foi uma profusão de iniciativas virtuais, de lives a viewing rooms, a maneira encontrada pelas feiras e galerias de arte para mostrar stands e exposições que já haviam sido pensados, caso das mostras Cities in Dust, Lucia Laguna e AAA – Antologia de Arte e Arquitetura, que, a princípio, deveriam ocupar a Carpintaria, no Rio de Janeiro, e a Galeria e o Galpão Fortes D’Aloia e Gabriel, em São Paulo, respectivamente.

Agora, já é possível dizer que os viewing rooms cederam lugar às exposições pensadas desde o início para serem exibidas por meio de telas, do computador ou do celular. O que cada um entende por essas mostras virtuais, no entanto, é bastante diverso. Na Pinacoteca do Estado de São Paulo, uma das primeiras a anunciar um projeto do gênero, a ideia foi realizar uma curadoria a partir do acervo de vídeos da instituição, que começou a ser formado no início dos anos 2000 e possui cerca de 30 obras.

Nesse panorama, para Distância, em cartaz até 3/8 no site da Pinacoteca, a curadora Ana Maria Maia selecionou cinco trabalhos – dos artistas Cao Guimarães, Dalton Paula, Leticia Parente, Marcellvs L. e Sara Ramo – que abordam, de alguma forma, a noção de isolamento. Mas ainda que Distância tenha sido gestada como uma exposição online, os vídeos e filmes selecionados foram imaginados para exibição em espaços físicos, em uma escala e arquitetura próprias. Agora, veiculados na sequência em uma mesma página, eles seguem uma nova ordem – a da barra de rolagem. O trabalho mais sacrificado, nesse sentido, foi Tarefa I (1982), de Leticia Parente, que geralmente é exibido em aparelhos de tevê antigos, como alusão ao mobiliário doméstico. “Me arrisco a dizer que o terreno virtual ainda é escasso porque grande parte da graça do contato com a arte é o modo como ela envolve o corpo inteiro e, por isso, a presença é tão importante”, diz Ana Maria Maia. “Mas a ideia não é entrar no binarismo sobre virtual ou presencial, mas encarar que a pandemia acelerou mudanças estruturais e a grande busca é entender quais são as novas formas de presença”, continua a curadora.

 

  • 9493 (2011), vídeo de Marcellvs L na mostra Distância (Foto: Divulgação).
  • Da janela do meu quarto (2002), obra de Cao Guimarães na mostra Distância (Foto: Divulgação).
  • O batedor de bolsa (2011), de Dalton Paula na mostra Distância (Foto: Divulgação).

Novo protocolo
Para Gustavo Romano, artista e curador argentino à frente do projeto NETescópio, um arquivo de obras digitais do Museo Extremeño e Iberoamericano de Arte Contemporáneo (MEIAC), na Espanha, até agora as instituições permaneceram indiferentes ao imenso campo de produções de arte virtual com a desculpa de que, se podemos ver uma obra desde casa, pela internet, não há necessidade do museu. “É um erro, já que a função do museu deve ser a de investigar e difundir os diferentes movimentos e práticas, para não deixar o público sozinho diante de um tipo de manifestação artística com a qual não está familiarizado”, diz Romano à seLecT. “O grande problema é que a maioria dos curadores também não está familiarizada, e essa falta se tornou evidente com a pandemia e a necessidade urgente de continuar as atividades”, completa.

“A arte não é virtual, é real”, diz Luis Pérez-Oramas

De fato, a falta de proximidade com o meio é o que fez com que muitos espaços inaugurassem mostras virtuais recorrendo apenas à digitalização de obras realizadas em suportes tradicionais, como desenhos e pinturas. A galeria Nara Roesler, por exemplo, em sua primeira incursão nesse campo, decidiu manter o cronograma que havia sido estruturado pré-pandemia – que previa uma exposição para marcar o centenário do artista León Ferrari. “A gente tinha poucos recursos técnicos e não os mais ideais, mas insisti na importância de realizar um gesto de presença em torno da data. A decisão era entre fazer algo ou nada”, argumenta Luis Pérez-Oramas, consultor curatorial da Nara Roesler. Para León Ferrari em São Paulo, promovida até 2/7, mas ainda disponível no arquivo da galeria, a solução foi realizar uma projeção das peças dispostas em conjunto no espaço, além de imagens individuais das obras. “Estamos cientes de que o virtual nunca será o suficiente. Acho que a galeria tem que ter uma presença virtual porque faz parte do protocolo da atualidade, mas eu não acredito em um meio que produz uma aproximação hipotética, mas não a experiência real da arte. A arte não é virtual, é real”, diz Pérez-Oramas, enfatizando o caráter pessoal de sua declaração.

Seguindo o novo “protocolo”, André Millan programou uma agenda de exposições com os artistas representados por sua galeria e já inaugurou a terceira mostra virtual no início deste mês – todas estão no site do espaço. “Não sei ao certo aonde vai parar tudo isso, mas é uma tentativa de transferir o que vivemos no real para o virtual, se é que isso é possível”, diz Millan, definindo-se como “analfabeto na questão online”. As escolhas dos trabalhos expostos (a maioria desenhos), de acordo com o galerista, passou também por critérios de valor de mercado. “Se trabalhamos com preços mais acessíveis, temos mais chances de conseguir sucesso”, afirma.

Voyeur, da série Desenhos Psico-Alcoólicos (2016), de Artur Barrio. (Foto: Divulgação)

Entre os artistas que já passaram pelo site da Millan, Artur Barrio declarou à seLecT não ter o mínimo interesse nesse momento de mostras virtuais: “Tudo uma grande chatice.” No programa online do espaço, ele consentiu com a exibição de 40 trabalhos da série Psico-Alcoólicos, que foram adquiridos pela Galeria em 2017 e agora aparecem reproduzidos na tela. Além de Barrio, Regina Parra e Guilherme Ginane foram os outros artistas que já expuseram neste formato.

Mas se virou senso comum dizer que as instituições estão engatinhando quando o assunto são as possibilidades e as potências do digital, é importante ressaltar a relevância da digitalização de obras que antes eram inacessíveis ao público – caso dos vídeos da Pinacoteca, que normalmente não estão online, e dos desenhos de Barrio, que foram pela primeira vez exibidos virtualmente. “A internet é muito poderosa como repositório, como arquivo, e acho que também pode ser interessante mostrar o acervo para ampliar o acesso. Ela é um transmissor potente para vários lugares do mundo e eu não excluiria esse aspecto”, argumenta Livia Benedetti, da plataforma aarea.co, que comissiona e apresenta trabalhos desenvolvidos especialmente para o meio.

Tempo suspenso
No artigo Curating Online Exhibitions, publicado em maio deste ano, no entanto, o curador Michael Connor, diretor artístico da plataforma Rizhome, argumenta que “é importante ter cuidado com a tendência conservadora de confiar na exibição tradicional de galerias como único ponto de referência”. Para ele, a exibição, no campo virtual, de mostras que seriam próprias ao espaço físico, pode funcionar também como um lembrete de que, confinados em casa, estamos privados das peças propriamente ditas. “As substituições convidam a comparação direta com uma experiência agora inacessível de ver obras de arte ao lado de outros seres humanos de carne e osso”, Connor escreve.

Se o filósofo Boris Groys já advogou a favor do fato de que os arquivos não consistem apenas em memórias gravadas – pois incluem planos direcionados não só ao passado, mas ao futuro –, a impressão, em algumas exposições que transformam obras tradicionais em arquivos digitais, não é a de estar diante de um tempo que ainda está por vir. O contato com esses projetos, neste momento de pandemia, passa a ser simples lembrança de algo impossível de alcançar.

Para Lost in Translation, na galeria A Gentil Carioca, a proposta de Elsa Ravazzolo, diretora do espaço, foi enfocar em projetos não realizados. “Com a pandemia, todo mundo ficou em suspenso e a exposição nasceu da percepção de que os artistas sempre possuem projetos que acabam sendo postergados, por questões financeiras ou por dificuldade de realização “, explica. “O plano de todo mundo se alterou, desmoronou, mas ao mesmo tempo precisávamos mostrar que a galeria estava viva, presente, e continuava seu trabalho.”

  • Projeto Untitled, de Maxwell Alexandre (Foto: Divulgação)
  • Projeto Colar das Horas, de Rodrigo Torres (Foto: Divulgação)
  • Projeto Cicloviaérea, de Jarbas Lopes (Foto: Divulgação)
  • Projeto Extensores, de João Modé (Foto: Divulgação)

 

Entre as obras tiradas da gaveta para a mostra, em cartaz até 25/7 – de artistas como Laura Lima, Jarbas Lopes e Vivian Caccuri –, a de Maxwell Alexandre ilustra bem essa sensação. Ao clicar no ícone que leva à página dedicada ao seu projeto, onde vemos uma animação do desenho, o primeiro parágrafo explica que o trabalho consiste em “uma instalação de dois ambientes simétricos e contrastantes – composta por vários espelhos Romeo e uma piscina Capri –, onde o público, descalço, é convidado a adentrar a mitologia que o artista vem construindo a partir de símbolos da cultura popular”. A construção da sentença, no presente, nos remete imediatamente a um presente ao qual não temos acesso: a impossibilidade, aqui, não está somente na não concretização da ideia do artista, ainda em processo, mas na percepção de que, confinados, jamais conseguiríamos adentrar o espaço, descalços ou não.

“Ainda acho que o sistema da arte não estava preparado para uma mudança tão brusca”, diz Elsa Ravazzolo

“Todos os projetos têm uma presença física, mas a ideia é ajudar o visitante a entrar dentro do universo que esses artistas estão criando. Lost in Translation foi nossa primeira exposição totalmente digital e foi um desafio para o time da galeria”, diz Ravazzolo. “Mas ainda acho que o sistema da arte não estava preparado para uma mudança tão brusca do físico para o digital.”

Possíveis começos
“Se falamos tantas vezes que não temos no campo da arte espaço para as minorias, como artistas negros, mulheres, e estamos fazendo um movimento para rever essa questão, por que não fazer um movimento de contato também com curadores que entendem dos espaços digitais e de curadorias online?”, argumenta Christine Mello, que foi responsável pelo núcleo de Net Art na 25ª Bienal de São Paulo, em 2002, e é ainda hoje referência na área. Porque não fazer um movimento de conversar com artistas que estão lidando com esses ambientes digitais? Esse poderia ser um começo”, complementa.

Para adentrar nesse campo, Mello explica que é preciso uma mudança de pensamento, que prevê não só a contratação de outros profissionais – designers, programadores etc. – como o entendimento de que é necessário trabalhar ao modo das redes: de forma colaborativa, distribuída e simultânea, quebrando com a ideia de autoria que existe nos espaços expositivos.

“Temos um delay enorme com o mundo virtual, estamos todos correndo atrás e, em parte, porque precisamos de profissionais que não atuam ainda dentro dos museus e galerias”, diz Jaqueline Martins, que contou com programador Rudá Cabral para desenvolver a mostra Que Vão Que Vem, na sua galeria até 25/8. Na exposição, que coloca em diálogo trabalhos recentes de pedro frança com obras produzidas por Victor Gerhard entre 1965 a 1982, a ideia foi criar, a partir de imagens do próprio espaço da Jaqueline Martins, um ambiente em 3D reconhecível visualmente, porém possível de existir apenas online. Assim, o vídeo mostra a entrada para a galeria a partir de um buraco, onde as obras estão dispostas junto a uma fogueira; o piso é composto de grama; e a parede, dourada.

 

  • Estudo e reunião para a exposição Que Vão Que Vem, na Galeria Jaqueline Martins (Foto: Divulgação)
  • Vista da exposição Que Vão Que Vem, na Galeria Jaqueline Martins (Foto: Divulgação)
  • Vista da exposição Que Vão Que Vem, na Galeria Jaqueline Martins (Foto: Divulgação)
  • Workers Leave the Factory (2020), de pedro frança. (Foto: Divulgação).
  • DC, da série Drama Carioca (1965), de Victor Gerhard. (Foto: Divulgação)
  • DC, da série Drama Carioca (1965), de Victor Gerhard. (Foto: Divulgação)

O investimento em novos profissionais e plataformas, no entanto, nem sempre é fácil. No caso do Instituto Tomie Ohtake, que opera por meio da captação de recursos, projetos até foram desenvolvidos, porém, ainda não contam com verbas para serem realizados. “Estamos tentando viabilizar ideias que nasçam com artistas programadores, mesmo em construção de plataformas novas para mergulhar na obra de artistas que a gente já conhece, como a própria Tomie, mas nenhuma delas avançou ainda. Como não temos recursos próprios, tudo que propomos só vira realidade se nós temos parceiros”, diz o curador Paulo Miyada.

  • Antonio Henrique Amaral Bocas 1967 18,5 x 18,5 cm Data:31/01/04 Foto:Rubens Chiri/Perspectiva
  • De Boca Aberta (1966), de Antonio Henrique Amaral (Foto: Divulgação)
  • Antonio Henrique Amaral Consensus,1967 xilogravura, 45,5 x 64 cm10 cópias e 4 P.A. Data:20/02/04 Foto:Rubens Chiri/Perspectiva
  • Sem Título (1962), de Antonio Henrique Amaral (Foto: Divulgação).

A alternativa, então, foi trabalhar com os meios que a instituição possui: seu site e as redes sociais. A mostra Aglomeração Antonio Henrique Amaral, desse modo, parte da ideia de compartilhar uma pesquisa em processo. Semanalmente, desde 28/6, estão sendo publicadas nas redes obras seguidas de informações e comentários – a proposta é, quando for possível, montar um espaço expositivo em uma sala física do Tomie Ohtake com o resultado. “É um artista propício nesse momento, importante de ver agora. Ele nos liga com um passado que também foi de muita brutalidade no campo da política”, acrescenta Miyada.

Para além das exposições virtuais, a Fortes D’Aloia e Gabriel parece ter incorporado também o conceito de rede. Entre a última semana deste mês e a primeira de agosto, a galeria lança a plataforma Transe, um viewing room que mostrará espaços independentes de São Paulo, como Auroras, Projeto Vênus, Casa do Povo, Pivô Arte Pesquisa e Galeria Superfície – todos eles terão uma página própria hospedada no site da Fortes D’Aloia e Gabriel. Mas embora o pensamento seja o de fortalecer um trabalho em conjunto, todos os projetos foram pensados de forma autônoma: a Galeria Superfície, por exemplo, irá criar uma seleção de imagens, textos e vídeos sobre a obra de Lotus Lobo. Já o Pivô irá aproveitar o ambiente virtual para dar visibilidade ao trabalho dos oito artistas em residência no 2o Ciclo do Pivô Pesquisa 2020, em uma proposta de mudar o conteúdo apresentado quinzenalmente.

  • Vista da exposição Litografia Lotus Lobo (2018), imagem que será exposta na plataforma Transe (Foto: Divulgação)
  • Vista da exposição Litografia Lotus Lobo (2018), imagem que será exposta na plataforma Transe (Foto: Divulgação)
  • Vista da exposição Litografia Lotus Lobo (2018), imagem que será exposta na plataforma Transe (Foto: Divulgação)

Paralelamente a esse convite, o Pivô lança em 24/7 sua plataforma, o Pivô Satélite, que foi desenvolvida juntamente com um programador e uma equipe de designers gráficos. A proposta é apresentar nos próximos meses o trabalho de 12 artistas, que serão selecionados por três curadores. Quem inicia o projeto é a curadora independente Diane Lima, que desenvolve pesquisas com artistas racializados e dissidentes, com debates anticoloniais e que, em sua maioria, não trabalhavam com o digital.

Para ela, o desafio é pensar em como criar diálogos entre as pesquisas que já estão sendo realizadas e esse novo mundo virtual. “Há um debate sobre a utopia da internet como lugar de acesso e distribuição, mas também uma crítica em relação a esse acesso. O que me interessa é contrapor esses dois mundos”, diz a curadora. Para inaugurar o Satélite, ela escolheu a artista Rebeca Carapiá, que apresentará a inédita Para-raios para Energias Confusas, uma instalação composta por esculturas, vídeos e arquivos PDF que, por meio da relação entre o ferro, o cobre e a modelagem 3D, irá simular uma performance. “Descartar agora os curadores e artistas que não trabalham no digital para abrir um programa unicamente voltado para profissionais engajados no online criaria um apagamento, um processo de exclusão que não temos noção de como pode resultar ao longo do tempo”, indaga Lima.

Velas para Barcos Feitos para Afundar, obra de Rebeca Carapiá exibida na mostra Metal Contra as Nuvens (Foto: Divulgação)

 

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