Kiluanji Kia Henda: entre o paraíso e as trevas

Em série fotográfica, artista angolano explora o imaginário das expedições coloniais a fim de compor sua versão da história

Luana Fortes
Nos Dias de um Safári Sombrio #5 (Fotos: Cortesia Galeria Filomena Soares)

Falar sobre a obra de Kiluanji Kia Henda requer pensar o contexto em que ele nasceu e cresceu. O artista chegou ao mundo quando Angola acabava de ter sua independência declarada. Como em qualquer processo de emancipação, o esforço para chegar lá não foi pequeno. Em 1961, três frentes começaram a lutar contra a colonização portuguesa, apoiadas por países com distintos ideais. Em plena Guerra Fria, o jogo de forças em Angola chegou a abalar a passividade do contexto internacional. Mas com a declaração da independência, em 1975, após 13 anos de conflitos da chamada Luta Armada de Libertação Nacional, não cessaram os debates. Este não foi o início da paz, mas sim de uma guerra aberta. A Guerra Civil Angolana começou no ano de nascimento de Kiluanji e só foi terminar em 2002. Quem cresceu nesse cenário participou ativamente da construção da identidade de uma nova Angola.

“Sinto-me muito mais recompensado e desafiado em trabalhar num contexto em que existe uma necessidade de se resgatar ou, ainda, de inventar uma história, dada a falta de acesso do que foi registado no passado, desde um olhar estrangeiro”, diz Kiluanji à seLecT ao ser questionado sobre a importância de viver e trabalhar em Angola, hoje. Sua atuação como artista coincide com o aparecimento de uma cena artística contemporânea no país, nos últimos dez anos. Mesmo sem infraestrutura – o artista afirma não existir até hoje um museu de arte em Angola –, a Trienal de Luanda representou, para sua geração, a plataforma de acesso à cena internacional. “Existe a necessidade urgente de um questionamento sobre os períodos turbulentos que vivemos, legitimando novas narrativas. A arte pode ser um veículo excelente para exorcizar um passado extremamente trágico, mas também para projetar um futuro, ainda que fantasioso”, diz.

Nos Dias de um Safári Sombrio #7

 

Na nova série In The Days of a Dark Safari (Nos Dias de Um Sáfari Sombrio – 2017), Kiluanji explora visões paradoxais de uma África pré-colonial. O projeto é composto de fotografias realizadas no Museu Nacional de História Natural, em Luanda, construído no período colonial. O cenário da narrativa fantasiada por Kiluanji é o diorama do museu, que interpreta a fauna e flora do país, com a presença de animais empalhados. Uma das maiores atrações do local é a Palanca Negra Gigante, espécie rara de antílope de Angola, que nas fotografias de In the Days… é coberta e descoberta por um tecido preto.

Se o diorama representa a visão oficial da história e da paisagem de Angola, o artista optou por evidenciar sua artificialidade. Assim, problematiza também a criação de um Museu de História Natural como lugar de narrativas forjadas e, portanto, hostis.

Paraísos perdidos e reinos da corrupção
Quem é o observador e quem é o observado? O trabalho instiga uma mudança de perspectiva. Os papéis invertem-se quando os olhos daquele que deveria ser passivo – o exemplar da espécie rara – estão encobertos. O espectador pode até passar a ser considerado a presa, quando o animal está protegido de seu olhar. Esse tipo de ambivalência caracteriza a produção de Kiluanji Kia Henda, que elabora indagações e respostas aos julgamentos – internos e externos – a respeito do continente africano.

A Última Viagem do Ditador Mussunda N’Zombo Antes da Grande Extinção (Ato II)

 

In The Days of a Dark Safari estrutura-se sobre duas leituras do passado africano: “A leitura é feita a partir de um imaginário das expedições coloniais, que considerava um continente das trevas, como se pode ler no livro de Joseph Conrad, um dos maiores clássicos da literatura inglesa, ou pela interpretação de um discurso populista africano, em que a África pré-colonial era um paraíso”, explica.

Em Heart of Darkness (1899), a África era vista como algo monstruoso e demasiado livre, um lugar obscuro e desconhecido que deveria ser dominado e controlado. No outro extremo está a visão populista do passado como um paraíso imaculado, que deve ser resgatado. “Um dos motivos para a miséria que se vive no continente, usado com muita frequência no discurso de muitos políticos africanos (principalmente onde se vive sob ditadura), é resultante da presença europeia. Não posso dizer que esse discurso seja completamente falso, mas tem sido amplamente utilizado por meia dúzia de pessoas no poder para encobrir a sua má gestão ou a corrupção sem limites”, reflete.

A Última Viagem do Ditador Mussunda N’Zombo Antes da Grande Extinção (Ato V)

 

Essa reflexão deu origem a uma subnarrativa, dentro da série In The Days of a Dark Safari. As imagens de The Last Journey of the Dictator Mussunda N’zombo Before the Great Extinction (A Última Viagem do Ditador Mussunda N’Zombo Antes da Grande Extinção – 2017) apresentam o artista angolano Miguel Prince interpretando o arquétipo de um ditador em sua última viagem ao paraíso imaculado. A personagem representada teve como referência e inspiração o ditador Mobutu Sese Seko, governante do Congo entre 1965 e 1997. Ela aparece apreciando as paisagens artificiais e os animais empalhados, até um desenlace trágico.

A série, composta de 13 fotografias e um vídeo – quatro delas reproduzidas neste Portfólio –, constitui uma versão da história e uma construção de futuro, apontando para o fim das ditaduras. “Vivemos uma espécie de atropelamento histórico, entre a necessidade imperiosa de pertencer à modernidade e problemas da era da pedra por resolver”, diz. Certo de que as novas gerações de Angola jamais aceitarão ser governadas por um ditador, Kiluanji trabalha pela invenção de novas identidades africanas.

seLecT expandida: Confira a íntegra da entrevista de Kiluanji Kia Henda em bit.ly/kiluanji

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