Entre o vórtice e a várzea

O ZL Vórtice promove trabalhos colaborativos com as comunidades da várzea do Rio Tietê, junto a artistas e laboratórios de pesquisa

Nelson Brissac Peixoto

N° Edição: 47

Publicado em: ANO 09, Nº 47, Jun/Jul/Ago 2020

Categoria: A Revista, Destaque

Várzea do Rio Tietê (Fotos: Cortesia ZL Vórtice)

Nos confins da cidade, na várzea do Tietê, ruas sem calçamento, sempre empoçadas, correm junto a córregos poluídos e entulhados de detritos. A ocupação estende-se até as margens do rio, onde se lançaram até carcaças queimadas de automóveis. é nesse cenário de colapso que é jogado o destino urbano, social e ambiental da cidade de São Paulo. Aterros feitos com restos de demolição alteraram por completo a topografia, apagando a memória do território. Mas inundações periódicas não deixam esquecer que aquelas edificações precárias, desprovidas de saneamento básico, ocupam a planície em que o rio de meandros se espraia quando das cheias. As grandes obras de contenção de enchentes e a ocupação urbana desordenada impactaram o sistema hidrológico e ecológico, deixando a área ainda mais vulnerável a eventos extremos. É nessas condições críticas, na várzea do Rio Tietê, na Zona Leste de São Paulo, que se desenvolve o projeto ZL VÓRTICE.

O ZL VÓRTICE difere, nos conceitos e procedimentos, de ARTE/CIDADE (1994-2002). O ARTE/CIDADE foi um projeto de intervenções urbanas, em que artistas e arquitetos propunham obras em grande escala para provocar a experiência de áreas abandonadas e arruinadas da capital. Operações que se davam em interstícios: edifícios desocupados, ramais ferroviários desativados, zonas desindustrializadas. Projetos individuais voltados para aguçar a percepção que temos da metrópole. O ZL VÓRTICE propõe uma abordagem distinta. Vários laboratórios de pesquisa desenvolvem, juntamente com os moradores, tecnologias e projetos de drenagem e reurbanização para essa área de moradias precárias na várzea do Tietê. Os projetos agora são colaborativos e visam consolidar soluções tecnológicas para áreas críticas, sujeitas a inundações, contribuindo para as políticas públicas e capacitando os moradores para participar ativamente em ações voltadas para incrementar as condições urbanas e ambientais das comunidades. Estratégia que tem encontrado forte resistência na administração pública, pouco receptiva à inovação tecnológica e à participação comunitária.

A equipe do projeto ZL Vórtice durante a produção de obra com concreto colorido, de Regina Silveira

Áreas críticas
Em vez de levar o público a redescobrir lugares esquecidos da cidade, trata-se agora de trabalhar com quem mora nessas áreas críticas. A expedição dá lugar a projetos desenvolvidos em colaboração com os protagonistas locais. Intervenções urbanas são substituídas por desenvolvimento de tecnologia para urbanização, preservação ambiental e políticas públicas. Galerias drenantes para escoamento de água pluvial, compostas de moldes pré-fabricados em concreto de alto desempenho, produzidos localmente pelos moradores. As fôrmas são modeladas e executadas por fabricação digital, permitindo obter elementos que variam conforme a topografia. Ou pavimentos permeáveis, com piso intertravado em concreto colorido, desenhados por Regina Silveira, e também fabricados no local pelos moradores. Os elementos modulares coloridos formam palavras e imagens, sugeridas pelas comunidades em encontros com a artista.

Vários fatores induziram a essa mudança de parâmetros. Em primeiro lugar, a profunda mutação pela qual passam as metrópoles, com a generalização da miséria e da violência, a perda dos espaços públicos e a redução do papel do Estado na vida da cidade. É recorrente entre os artistas o sentimento de hostilidade existente contra obras em espaço público, vandalizadas e destruídas. É como se a arte tivesse cada vez mais dificuldade de cumprir seu papel histórico de estruturar a percepção do espaço urbano. Por outro lado, a redução da capacidade operacional da administração pública na cultura e nos serviços básicos estreitou as possibilidades de projetos artísticos operarem como agenciadores de ações em grande escala na cidade. Por fim, ocorre uma transformação no que se entende propriamente por agir na cidade. Está cada vez mais evidente que qualquer atuação, se pretende ser pertinente, deve abarcar aspectos urbanos, sociais e ambientais. A intensificação da degradação da situação socioambiental revela brutalmente o caráter sistêmico e complexo das condições metropolitanas, exigindo abordagens multidisciplinares e colaborativas.

Complexidade que requer maior articulação entre arte e ciência: o conhecimento das condições ambientais (o sistema fluvial, a dinâmica de escoamento das águas de chuva), as técnicas de desenvolvimento, fabricação e reciclagem de materiais (concreto, biocompostos) e os sistemas de monitoramento (sensores) necessários para testar protótipos. Um campo em que devem colaborar geógrafos, engenheiros hidráulicos, arquitetos e artistas. Incluindo a gestão pública e os moradores. São vários os desafios técnicos a ser enfrentados pelos laboratórios e profissionais que participam do ZL VÓRTICE. São eles: Laboratório de Fabricação Digital da FAU-USP (FabLab SP), Laboratório de Microestrutura e Ecoeficiência dos Materiais da Poli-USP (LME), Laboratório de Geomorfologia da FFLCH-USP (LabGeo), Luiz Orsini Yazaki – ex-coordenador da Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH), Tecnologias da Inteligência e Design Digital da PUC-SP (LabTIDD) e o Departamento de Engenharia Civil e Ambiental do Politecnico di Milano, Itália.

Pesquisar a geomorfologia e a hidrologia do sistema fluvial de modo a identificar uma possível resiliência de suas configurações, fortemente atingidas pelas intervenções antrópicas. Desenvolver, instalar e testar, em conjunto com os moradores, tecnologias de manejo de águas superficiais e de requalificação urbana em áreas de grande disfunção e degradação urbana e ambiental. Várias oficinas foram realizadas, desde 2015, nos recintos dos laboratórios e na própria comunidade, onde foram desenhados e testados materiais e processos construtivos próprios para situações críticas e a manipulação pelos próprios moradores, a fim de assegurar a capacitação e o compartilhamento de tecnologia.

Serão os laboratórios capazes de incorporar experimentos que só podem ser realizados in loco, no campo? O rigor dos laboratórios de pesquisa na definição de estratégias de restauro ambiental e de dispositivos de tratamento da água, na qualificação e padronização dos materiais e procedimentos em projetos de infraestrutura urbana na várzea do Rio Tietê, é confrontado com as condições extremas encontradas na área. A questão é, guardando os princípios de precisão técnica, desenvolver tecnologias adaptadas a situações de grande instabilidade ambiental e urbana e propiciar a difusão do conhecimento e a participação social em todas as etapas do processo. Conseguiremos transformar esta situação crítica num espaço de experimentação e invenção?

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