Entrevista com a fotógrafa libanesa Rania Matar

A artista participa da coletiva Taswir: A Fotografia Árabe Contemporânea, em exibição no Instituto Tomie Ohtake até 28/4

Núcleo de Pesquisa e Curadoria - Instituto Tomie Ohtake
Christina aos 10 e 14 anos, Beirute, Líbano, fotografias de Rania Matar da série Becoming (2012-2016)

O Núcleo de Pesquisa e Curadoria do Instituto Tomie Ohtake, coordenado por Paulo Miyada, conta agora com uma nova formação. Fazem parte os curadores Diego Mauro, Luana Fortes, Luise Malmaceda, Priscyla Gomes e Theo Monteiro. Em virtude da nova configuração, o blog Caderno de Notas do Instituto está sendo reativado.

Reiniciamos nossa colaboração com a revista seLecT abordando a exposição Taswir – A Fotografia Árabe Contemporânea, que inaugura em 28/3 e fica em exibição até 28/4. A coletiva apresenta um recorte inédito do acervo de fotografia do Institut du Monde Arabe (IMA), de Paris, com obras que participaram da 2ª Bienal de Fotografia do Mundo Árabe em 2017 e da exposição Cristãos do Oriente – 2.000 Anos de História em 2018. O conjunto apresentado em São Paulo traz trabalhos de 14 artistas de 11 países.

Ao longo do período expositivo, serão publicados ensaios e entrevistas realizados pelos integrantes do núcleo que acompanharam o processo de pesquisa, seleção e realizaram a montagem da mostra. Para dar início, entrevistamos a fotógrafa libanesa Rania Matar, que se mudou para os Estados Unidos durante a guerra civil no Líbano, em 1984. A artista participa da exposição com quatro duplas de sua série Becoming, ainda em andamento, iniciada em 2012. O trabalho mostra retratos de garotas, fotografadas nos Estados Unidos, no Líbano ou em campos de refugiados, em dois momentos distintos de suas vidas. Cada dupla de fotografias mostra a mesma pessoa em diferentes idades, ressaltando o processo de transformação de meninas pré-adolescentes. A artista procura contrastar os elementos particulares da identidade de cada garota com aspectos universais desse processo de crescimento pelo qual toda menina passa. Inevitavelmente, o trabalho esbarra em debates de caráter feminista, apesar de Matar não definir sua obra como política sob essa perspectiva. Em entrevista realizada com o núcleo por skype, Matar conta, entre outras coisas, sobre sua mudança para os Estados Unidos, sobre seu interesse pela fotografia de jovens mulheres e sobre a série que exibe atualmente no Instituto Tomie Ohtake.

Recorte da série Becoming (2012-2016) exibido em Taswir: A Fotografia Árabe Contemporânea, no Instituto Tomie Ohtake

 

NPC – O que motivou sua mudança do Líbano para os Estados Unidos? Em que momento começou a trabalhar como fotógrafa?
RM – Eu comecei a estudar arquitetura no Líbano, mas em 1984 as coisas começaram a ficar muito difíceis lá em termos da situação política. Então eu decidi pedir transferência e vir estudar nos Estados Unidos para terminar os estudos. Comecei a trabalhar como arquiteta, me casei, tive filhos e comecei a fazer cursos de fotografia, a princípio para aprender a tirar melhores fotos dos meus filhos.

Depois do 11 de setembro, a situação nos Estados Unidos tornou-se muito eles contra nós. Tudo era considerado terrorismo. E isso não era o que eu conhecia, apesar de eu ter crescido durante uma guerra. As pessoas lá são gentis, as pessoas são acolhedoras, então eu decidi que queria contar esta história do Oriente Médio. Então comecei a voltar ao Líbano e a campos de refugiados para fotografar pessoas e lentamente, antes que me desse conta, eu não era mais uma arquiteta e estava trabalhando com fotografia.

NPC – Esses processos de desenvolvimento das mulheres seriam para você universais? Ou existem peculiaridades entre essas duas culturas pelas quais você transita? A semelhança, nesse caso, seria maior que a diferença?
RM – Eu percebi que eu tinha muito interesse em fotografar crianças e mulheres, quero dizer, eu sou uma mãe e eu sou uma mulher. Percebi que ao trabalhar com mulheres, em determinado momento eu parei de olhar para elas como refugiadas e passei a olhá-las como iguais, como mães. Isso tornou-se uma coisa constante em meu trabalho desde então. Comecei a focar nesse senso de universalidade. Não importa onde você esteja, existe sempre uma humanidade compartilhada que nos une de alguma forma. Nesse momento comecei a assumir a fotografia de jovens garotas e mulheres. Isso tornou-se meu primeiro livro, chamado Ordinary Lives. Quando o livro foi publicado, fiquei interessada em fotografar garotas adolescentes. Minha filha, na época, já era adolescente e eu me fascinava por ela e pelo fato de que ela estava crescendo e se transformando. Passei a fotografá-la. Então percebi que quando suas amigas vinham em casa, elas estavam de certa forma performando umas para as outras. Então decidi fotografar cada garota sozinha e esse se tornou o projeto A Girl And Her Room. Fotografei meninas nos Estados Unidos, no Líbano e em campos de refugiados. Novamente nesse caso, apesar de cada garota ter tido uma vida diferente, elas estavam todas passando pelas mesmas mudanças em suas vidas.

Em determinado momento, passei a focar na minha filha mais nova, que tinha 12 anos, e eu me tornei fascinada por como seu corpo estava mudando e como, enquanto essa mudança acontecia, logo antes da puberdade, sua atitude estava se transformando completamente também. É um momento tão determinante na vida de uma menina, mas também muito bonito. Assim comecei a fotografar meninas da mesma idade da minha filha e esse trabalho todo foi muito autobiográfico. Esse tornou-se o livro L’Enfant Femme. Ele é bem distinto dos outros. Trata muito sobre a relação das meninas com a câmera e como elas posicionam suas mãos, o que decidem fazer com seus quadris, sobre esses detalhes de suas atitudes. Às vezes você percebe que elas estão tentando posar como mulheres adultas, mas ao mesmo tempo são desajeitadas. Eu acho isso muito comovente. Então comecei a me interessar em acompanhar essas garotas, e esse é o projeto que estão exibindo aí no Instituto Tomie Ohtake.

Comecei a fotografar as mesmas meninas, três ou quatro anos mais tarde, depois da puberdade. Isso foi muito cativante para mim, ver as mudanças que ocorreram e vê-las se tornando pequenas mulheres. Muitas ficaram mais confortáveis com seus corpos e outras tornaram-se mais desajeitadas, porque elas passaram a entender melhor o que significa posar. Mesmo que eu esteja mostrando a identidade particular de cada menina, existe uma universalidade do processo de crescimento, do corpo que muda, das garotas que se tornam mulheres. Eu tento focar no que as une.

NPC – Além de suas filhas, que são obviamente muito próximas a você, como você escolhe quem fotografar? Você tem ou desenvolve alguma relação com essas garotas?
RM – Sabe o que é muito interessante? Eu tendo a trabalhar muito melhor com garotas que eu não conheço. Eu meio que as descubro durante o processo. Claro que quando eu as fotografo quatro anos mais tarde, já as conheço, mas o fato é que eu construí uma relação com elas de fotógrafa com modelo. Isso é importante, não ser associada a uma figura materna. Apesar de eu estar olhando para elas como minhas filhas, elas me veem como uma fotógrafa, não uma mãe. É bem distinto o tipo de relação que eu posso criar com elas.

Samira aos 11 e 16 anos, Campo de Refugiados Bourj El Barajnhe, Beirute, Líbano, fotografias de Rania Matar da série Becoming (2012-2016)

 

NPC – Você se considera feminista? Como é o movimento feminista no Líbano em relação ao dos Estados Unidos? Que tipo de discussões feministas estão presentes em suas fotografias?
RM – Eu sou feminista, mas meu trabalho não vem de um ponto de vista feminista. Meu trabalho é feito a partir de um ponto de vista materno.

No Líbano, a situação é mais complexa do que em outros países. Lá tem muitas religiões e é uma cultura bem ocidentalizada. As pessoas tendem a pensar sobre todas as mulheres do Oriente Médio como veladas e associam véus a opressão. Eu acho que é muito mais complicado do que isso. No Líbano, existem mulheres que usam véus e outras que não. Uma das fotografias que está na exposição é de uma menina de véu, mas o seu hijab é vermelho, bem luminoso e chamativo. Então, existem muitas mais camadas do que pensamos. Algumas das meninas decidem usar um véu porque elas querem. Acho que meu trabalho é político de outro aspecto. Trata-se mais de empoderar as meninas do que focar na mulher do Oriente Médio.

NPC – Nos chamou a atenção como cada garota escolhe mostrar sua identidade e como algumas dessas escolhas desconstroem ideias ocidentais sobre a mulher árabe. É ótimo ver isso exibido no Brasil, pois acaba-se tendo contato apenas com o que se vê divulgado em jornais e revistas.
RM – Nos Estados Unidos é igual! As pessoas não sabem nem que existem cristãos no Líbano, então é muito importante para mim mostrar isso. Minhas fotografias mostram garotas cristãs e muçulmanas. E uma das garotas muçulmanas está usando um hijab e outra não. Fico muito feliz de ver que em uma seleção pequena conseguiram mostrar uma situação complexa.

NPC – Quando você fotografa uma garota, o quão livre ela está para escolher suas poses?
RM – É 100% como elas querem posar. A única coisa que peço a elas é que olhem para a câmera, porque acho esse olhar fixo muito importante, e que não sorriam. Porque essas são meninas que só conhecem a selfie e estou fotografando em filme de médio formato, não em digital, então elas não podem ver o visor da câmera. Elas posam, mas não podem ver a pose. Então elas tem que se livrar de toda a ação da selfie e começar a pensar sobre o que fazer com suas mãos, seus pés, como se expressar. Elas acabam levando a seção toda mais a sério quando percebem que não estão no ambiente da selfie.

Dania aos 9 e 12 anos, Campo de Refugiados Bourj El Barajnhe, Beirute, Líbano, fotografias de Rania Matar da série Becoming (2012-2016)

 

NPC – Elas acham estranho não ver a foto assim que a tiram?
RM – Sim! Elas nem sequer sabem o que é fotografia analógica, não sabem sobre o que estou falando, não sabem o que um negativo, acham que é um vídeo. Por isso levam a seção mais a sério. Elas ficam mais conscientes do que estão fazendo com seus corpos. Eu não as posiciono. Eu as deixo posar. Eu apenas tiro muitas fotos e, no final, escolho as imagens, como editar. Mas são elas que se dirigem.

NPC – O fundo das fotografias é normalmente muito semelhante, mesmo quatros anos mais tarde. Isso é intencional?
RM – Eu tento fazer isso, mas algumas vezes não consigo, porque as garotas se mudam ou algo do tipo. Mas, se eu puder, gosto de deixar o fundo igual e fotografar a pessoa no mesmo lugar. Assim dá um sentido de tempo específico e deixa óbvio que aquela é a mesma pessoa. Eu sempre estou muito consciente do fundo das minhas fotografias. Elas são quase retratos ambientais, de tão importante que isso é para mim.

NPC – Muitas de suas séries tornam-se livros. Quais são os benefícios de mostrar seu trabalho em uma publicação, em comparação a quando apresenta ele em exposições?
RM – Bom, um livro é uma espécie de conclusão. Eu sinto que quando fiz um livro, isso significa que o trabalho está terminado. Além disso, o livro está aqui para ficar, enquanto as exposições vêm e vão. Em exposições, normalmente mostramos uma pequena seleção. Já nos livros, podemos incluir o projeto completo. Existem fotografias nos livros que não necessariamente exibiremos, porque não são as top 10 imagens, mas elas são igualmente importantes para contar uma história.

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