Entrevista com Jochen Volz

Márion Strecker

Publicado em: 18/02/2015

Categoria: Entrevista, Reportagem

Tudo que aprendi, aprendi com artistas, diz o novo curador da Bienal de São Paulo

Volz_body

Legenda: Na foto menor à esquerda, Jochen Volz em apresentação dos casos de Inhotim e da Serpentine Galleries sobre comissionamento de arquitetura em pavilhões de arte (fotos: Daniela Paoliello [foto maior] e Rossana Magri [foto menor] / Cortesia Instituto Inhotim)

O curador da próxima Bienal de São Paulo, que deve acontecer em 2016, é um alemão que vive em Londres, mas conhece bem o Brasil. Ele é casado com a artista brasileira Rivane Neuenschwander, com quem tem dois filhos, e foi de 2005 a 2012 diretor artístico do Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Sua carreira começou na Alemanha, mas é multinacional. Entre as exposições nas quais atuou como curador, ainda que não o principal, estão a Bienal de São Paulo (2006), a Bienal de Lyon, na França (2007), a Bienal de Veneza, Itália (2009), e a Aichi Trienal de Nagoya, no Japão (2010). Desde 2012 ele dirige os programas da Serpentine Gallery, em Londres. Como crítico, escreve para revistas e é editor contribuinte da Frieze. Nesta entrevista, concedida no dia seguinte ao anúncio de seu nome pela Fundação Bienal, em dezembro, ele fala sobre a sua visão da prática curatorial, entre outros assuntos.

Vai voltar a viver no Brasil?

Estou agora elaborando um primeiro projeto e, a partir disso, um plano de trabalho. Claro que vou trabalhar em São Paulo, mas se vou me mudar com a família isso envolve outras pessoas, preciso de mais tempo para tomar essa decisão.

Você pretende trabalhar sozinho ou com cocuradores na Bienal?

Agora que foi lançada a notícia, posso começar a criar uma equipe. Com certeza, vou trabalhar com colegas, com uma equipe. Espero que nos próximos meses essa equipe possa se apresentar.

A curadoria em grupo está na moda?

Historicamente, eu diria que nas exposições até o início dos anos 1990 a curadoria era uma coisa muito personalizada, uma visão contando uma história. Acho que, desde os anos 1990, essa colaboração entre curadores, e entre curador e artistas, aumentou. Ficou mais importante ter mais diálogo, fora do conhecimento do curador convidado. Sim, acho que é uma tendência, mas não penso que é uma coisa que está na moda. Acredito que faz parte de uma área de conhecimento expandida, que fica maior e que precisa de mais diálogo.

Você já trabalhou como cocurador para as Bienais de Veneza e de São Paulo, não foi?

Sim, exatamente. Fui cocurador convidado pela Lisette Lagnado em 2006, na Bienal de São Paulo, onde trabalhei no projeto específico do Marcel Broodthaers. Em 2009, fui cocurador com Daniel Birbaum, que foi o diretor artístico da mostra internacional da Bienal de Veneza.

A gente vê hoje mais artistas fazendo curadoria. Estariam ao mesmo tempo os curadores explorando mais e mais estratégias artísticas para fazer curadoria?

Para responder isso temos de olhar um pouquinho para a palavra curador. Até os anos 1990, praticamente ninguém se chamava curador, o termo era organizador de exposições. Eram pessoas, como eu, formadas em história da arte, que começaram a organizar exposições e tentavam inventar novas formas de apresentar arte. Com a profissionalização dessa categoria, de gente que organiza exposições, e com o fato de chamá-los de curador, ficou bem claro que é importante inventar modos de apresentação, formas de interagir com a arte. A partir desse desejo de criar novos displays, features e maneiras de apresentar questões, convidaram-se mais artistas e outras pessoas de outras disciplinas para ajudar a pensar como fazer exposições. Eu sempre digo que toda a minha formação como curador tenho através ou a partir de artistas. Tudo que aprendi, aprendi com artistas. Como um artista pensa, coloca, formaliza, questiona, e trazer isso para perto da nossa produção é um desejo de muitos curadores que creem na ideia de o artista ser o produtor.

O curador deve ser uma pessoa que julga obras de arte ou deve ser um parceiro dos artistas?

Na minha carreira, tenho um lado que é crítico, que é realmente tentar entender o contexto de uma obra de arte e ter outras leituras, que podem ser críticas a essa obra de arte. Como curador, eu me sinto “sócio no crime” A ideia é de virar colaborador, para que o artista ache um modo de formalizar um questionamento da melhor maneira. Esse eu acho que é o nosso papel como curadores. E a partir do momento que você tem dois artistas juntos ou várias obras juntas, a criação de diálogos não é simplesmente a soma das partes, mas sim o que o discurso entre os dois acrescenta a cada uma das obras.

Como definiria uma boa curadoria?

Para mim, há vários critérios. Uma boa curadoria é, por um lado, trabalhar com artistas que foram comissionados para reagir a um contexto, é ser radicalmente a favor do pensamento do artista. Quando um curador tem a coragem de ir até o fim com o artista, pensar e formalizar um questionamento crítico, mas formalizar de uma forma muito fina, poderia chamar de colaborador, um sócio na produção. Esse é um critério que não se aplica a toda exposição. Conseguir trazer na composição de uma mostra diálogos que abram o nosso olhar, que façam a gente entender questões que não seriam compreensíveis a partir de uma só obra, que o conjunto seja mais do que a soma de cada um, se isso acontecer, é um indício de uma boa curadoria. Acho que há outros critérios, de pesquisas muito profundas, curadorias mais históricas. São muito importantes as curadorias que olham para a história da arte, mas conseguem trazer questões que ainda têm relevância –que talvez tenham hoje mais relevância do que nunca. Essa ideia de apontar a relevância de uma produção, seja atual ou do passado, também é uma qualidade de uma boa mostra. Uma exposição que tem relevância reflete o que está acontecendo no mundo, o que está acontecendo na política, no social, na cultura, no meio ambiente, enfim, em várias áreas. É preciso trazer uma questão que tenha um diálogo com o que está acontecendo com o nosso mundo.

Você acha que a arte tem de ser popularizada? Acha que a Bienal tem de ter um grande alcance popular?

Acho que uma bienal tem o papel de falar para um público grande. É interessante que um público que não seja normalmente frequentador de exposições também possa levar uma descoberta, um questionamento, uma alegria, um sentimento para casa, depois de ter visto uma boa exposição. Acho que isso é superessencial. Quem expôs isso muito bem foi a dupla Gilbert & George: “Art for All”(Arte para Todos). Isso não significa que tudo tem de ser populista e não necessariamente popular. Acredito que uma boa obra de arte consegue falar com pessoas de várias formações, de vários costumes, com usuários frequentes e não tão frequentes de exposições culturais de arte contemporânea, que não tenham formação histórica ou teórica de arte. Acho que, sim, esse é um papel da arte em geral e de uma bienal. Isso não significa que tudo tem de ser raso. Minha experiência no Inhotim, que tem trabalhos complicados e sofisticados, mas que são acessíveis e criam um impacto também para um público que não necessariamente tem costume de ir a museus, e tem um impacto transformador para as pessoas, é uma coisa bonita de se ver. Isso também tem a ver com como a obra está sendo apresentada, como a gente consegue se relacionar, qual língua ela fala, enfim, há várias formas de isso acontecer, mas acho que tem o papel de ser aberto para todos, mas não necessariamente popular.

Nesse aspecto você acha que a mediação que a curadoria e os arte-educadores acabam fazendo tem a sua importância?

É absolutamente importante, sim. O conjunto de como uma exposição se apresenta para o público, como a gente está indo visitar um tema, seja como a gente está encontrando uma obra de arte, a própria obra de arte também tem formalizações mais abertas para todos, e outras mais fechadas. Mas o papel da mediação é essencial, sim.

Existem curadores realmente independentes ou isso é apenas uma maneira de designar os curadores que são free lances?

Eu só entendo como free lance. Realmente, quando alguém fala curador independente, eu entendo como não ligado, que não tem vínculo com alguma instituição, e isso significa free lance. Se eles são independentes no pensamento isso é outra questão.

Você acha ético em alguma circunstância um curador receber comissão por comercialização de obra de arte?

Para mim, essa ideia de um curador receber comissão é impensável. Acontece, mas um curador que se chama de curador não recebe comissão pela comercialização de uma obra de arte. Se acontecer, eu penso que outra nomenclatura seria necessária para descrever a profissão dessa pessoa.

Você pretende se afastar da Serpentine Gallery?

Neste exato momento, minha preferência é manter meu vínculo com a Serpentine.

Como foi escolhido pela Bienal? Você submeteu um projeto, participou de um concurso, fez entrevistas, enfim, como foi o processo?

Sobre isso seria interessante você perguntar à própria Bienal. Eu apresentei primeiro uma ideia e, em razão disso, fui convidado a fazer a curadoria. Se eles fizeram isso com vários candidatos, eu não sei. Essa é uma questão para a própria Bienal.

Você poderia nos falar alguma coisa sobre essa ideia apresentada?

Não, porque é o rascunho de uma ideia que agora terá de ser discutida, para se tornar uma ideia mais sólida e, depois, um projeto. É parte da minha responsabilidade ao próprio processo, até ele ficar mais redondo.

#Entrevista publicada originalmente na edição #22

Artigo anterior:
Próximo artigo:

Nota de esclarecimento A Três Comércio de Publicações Ltda. (EDITORA TRÊS) vem informar aos seus consumidores que não realiza cobranças por telefone e que também não oferece cancelamento do contrato de assinatura de revistas mediante o pagamento de qualquer valor. Tampouco autoriza terceiros a fazê-lo. A Editora Três é vítima e não se responsabiliza por tais mensagens e cobranças, informando aos seus clientes que todas as medidas cabíveis foram tomadas, inclusive criminais, para apuração das responsabilidades.