Entrevista Criolo

Luciana Pareja Norbiato

Publicado em: 07/04/2014

Categoria: Especial Arte e Política, Reportagem

A íntegra da conversa entre a seLecT e o rapper criador da Rinha dos MC’s

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Legenda: O rapper Criolo (foto: Robert Astley Sparke)

Você concorda com a afirmação de que toda arte produzida na periferia é, por definição, política, ou seja, tem um caráter de problematizar a realidade? Por quê?

A cultura da periferia é forte desde que nasceu. É uma construção intelectual diária que reflete a realidade das pessoas que ali vivem e a força dessas pessoas em conseguir se deslocar pra outros lugares através da arte. Visibilidade é uma palavra danada, pois aqui neste pedaço de borda chamado periferia, sempre nos vimos, nos encontramos, amamos, choramos, criamos, demos visibilidade um ao outro. A criação, a arte, independem do número de ouvidos, olhos e membros do outro. A pergunta se é ou não política, tento entender. Se crescemos em sociedade, este ‘ser social’ por si já é um ator político, seja lá de que maneira se expresse.

Como você vê o crescimento do funk da periferia? Você acha que há uma potência contestatória no funk, mesmo em sua vertente “ostentação”? De que forma o funk é também uma maneira do morador da periferia contestar a realidade?

O crescimento do funk ostentação me convida a exercitar um pensar: o que mais o sistema capitalista vai criar para depois culpar a favela? Com relação as letras, cada um escreve aquilo que vive ou aquilo que acredita ser o melhor pra se envolver e desenvolver. Eu, por muitas vezes, reproduzi palavras sem perceber o peso elas carregavam. Ainda jovem empreguei o termo ” traveco” em um de meus raps, por exemplo, e só depois de anos fui perceber que era uma palavra extremamente preconceituosa, e estava ali em um texto meu, mesmo a intenção da canção sendo boa. Temos que ter responsabilidade pelo que dizemos, cantamos, escrevemos. Mas precisamos entender o que de fato estamos contestando? Não tá claro de quem é culpa? Até quando o capitalismo vai jogar a responsabilidade na favela?

Como você vê o mercado de música na atualidade, com todas as questões que a difusão via internet traz – boas e más? Como é para o artista da periferia essa situação atual? Faz diferença ser da periferia na hora de conseguir espaço no mercado?

Acho que a possibilidade de dividir com rapidez suas músicas é algo mágico. Quando comecei tínhamos que ‘loopar’ a instrumental na fita cassete de 4 em 4 segundos, isso só pra ter uma base pra rimar. Depois pra essa fita chegar em outro bairro dependia de quem fosse pros lados do tal bairro, pois nem o dinheiro da condução nós tínhamos. Poderia demorar mais de um mês pra levar uma música sua pra outras pessoas. Hoje você faz em minutos. Não sei se a diferença está em ser da periferia, mas acredito sim que contextualizar o que está ao redor de quem divide suas canções ajuda compreender melhor os porquês dessa canção existir.

* Entrevista que serviu de base para a reportagem A periferia arde, publicada na seLecT 17

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