Solange Farkas vence Montblanc de la Culture Arts Patronage Award

Para os diretores da Fundação Cultural Montblanc, a diretora do Videobrasil realmente entende inclusão

Luana Fortes
Alain dos Santos, diretor da Montblanc Brasil, Juliana Pereira, Solange Farkas e os diretores da Fundação Cultural Montblanc, Till Fellrath e Sam Bardaouil (Foto: Divulgação)

A dupla de curadores Sam Bardaouil e Till Fellrath assumiu a direção da Fundação Cultural Montblanc em 2016 e desde então contribui para seu desenvolvimento. O duo está ativamente realizando mudanças, especialmente no Montblanc de la Culture Arts Patronage Award, prêmio destinado aos denominados patronos da arte, pessoas que investem tempo e dinheiro em projetos culturais.

Sua 26ª edição, realizada em 2017, abrange 17 países, cada um representado por três membros em um júri internacional de premiação. No Brasil, fizeram parte do comitê Luciano Cury, diretor do canal de TV Arte1, André Sturm, secretário municipal de Cultura em São Paulo, e Paula Alzugaray, editora da seLecT. Eles foram responsáveis pela decisão de premiar a Associação Cultural Videobrasil, dirigida e idealizada por Solange Farkas, com 15 mil euros e um instrumento de escrita exclusivo da série Patronos da Arte, este ano criado em homenagem ao antigo patrono e cardeal Scipione Borghese. Os outros projetos concorrentes eram o Instituto Criar de Cinema, TV e Novas Mídias, fundado por Luciano Huck, e o Instituto Ricardo Brennand.

Para as próximas edições, no entanto, Bardaouil e Fellrath prometem algumas mudanças. Sobre isso e mais, seLecT conversa com os co-Chairmen da fundação:

Sam Bardaouil, na cerimônia de premiação no Brasil (Foto: Paula Alzugaray)

Como o Montblanc de la Culture Arts Patronage Award pode impactar o universo da arte de maneira global, já que ele envolve cada vez um número maior de países?
Sam Bardaouil: Obviamente o escopo do prêmio é fenomenal. Está em 17 países, Bangladesh pela primeira vez, e eu acho que quando falamos da Montblanc, antes de falarmos da fundação, estamos falando de uma marca globalmente reconhecida, especialmente pelo instrumento de escrita. E o que isso significa é muito bonito. Escrever é sobre compartilhar conhecimento e comunicação. É sobre a marca pessoal que uma pessoa deixa com sua caligrafia que é única. Nesse sentido, é muito bom estar associado a esses valores porque eles correspondem à natureza da arte. Com o reconhecimento da Montblanc, a fundação envia uma mensagem positiva para as pessoas. Então o que estamos fazendo é importante e necessário em muitos lugares.

Vocês assumiram a posição de diretores da Fundação Cultural Montblanc no mesmo ano em que o Brasil foi adicionado à lista de países contemplados pelo Montblanc de la Culture Arts Patronage Award. Isso foi uma coincidência?
Till Fellrath: Não acho que foi uma coincidência. A primeira coisa que decidimos fazer é aumentar o escopo da fundação. A marca já é global, mas a fundação também precisa ser. É muito importante apoiar a arte em todos os mercados em que a Montblanc atua. Nós já havíamos trabalhado em lugares que não são necessariamente tradicionais no mundo da arte, então teríamos feito isso de qualquer forma. Trabalhamos muito em países para os quais muitas pessoas não viajam ou olham. Eu acho que deveríamos olhar. O Brasil, por exemplo, é um universo tão grande… Então, existe uma verdadeira lacuna. E isso não é aceitável. Acho que muitas vezes o dinheiro que uma organização recebe – este ano, nós estamos dando 250 mil euros no total – pode ir muito mais longe em lugares como o Brasil. Porque é mais difícil conseguir financiamento aqui do que nos Estados Unidos, por exemplo. Não que não seja importante, mas temos uma preferência particular e o Brasil é um grande exemplo.

Quais outras mudanças estão sendo implementadas desde que passaram a dirigir a Fundação?
TF: Algo que fizemos recentemente é montar um conselho internacional de experts, chamado Curatorium. Nós selecionamos cinco colegas que dirigem instituições. Jochen Volz, diretor da Pinacoteca de São Paulo, é um deles. Isso sinaliza a importância que damos ao cenário artístico brasileiro, que queremos apoiar de forma mais agressiva do que no passado. Nossa ambição é tornar a fundação o mais ampla possível para dar oportunidades onde elas são necessárias. Para fazer isso, estamos nos apoiando na rede de contatos de nossos colegas do Curatorium, assim como no mercado local de cada país. A partir do ano que vem, funcionaremos com um sistema de nomeação, em vez de júri. Estamos procurando pessoas que vão nomear e sugerir iniciativas para o prêmio de forma mais direta. Então, nós e o Curatorium escolheremos os vencedores finais.

SB: Outra coisa que estamos fazendo é ativamente apoiar artistas, promovendo a criação de novos trabalhos para expandir a coleção da Fundação Cultural Montblanc.

TF: Em vez de adquirir um trabalho que já existe em uma feira ou galeria, usamos a verba para comissionar um trabalho novo de um artista emergente. E esse trabalho será exibido numa bienal, num museu ou num espaço cultural. Assim, o público também é beneficiado. Depois disso, a obra é adquirida para a coleção e vai para a sede da fundação. Outra vez o Curatorium tem participação ativa na escolha desses artistas.

  • Instalação In Between the Lines 2.0, de Katherine Nuñez e Issay Rodriguez, comissionada pela Fundação Cultural Montblanc e exibida na 57ª Bienal de Veneza
  • Instalação In Between the Lines 2.0, de Katherine Nuñez e Issay Rodriguez, comissionada pela Fundação Cultural Montblanc e exibida na 57ª Bienal de Veneza
  • Instalação In Between the Lines 2.0, de Katherine Nuñez e Issay Rodriguez, comissionada pela Fundação Cultural Montblanc e exibida na 57ª Bienal de Veneza

Vocês conhecem projetos de diversos países, viajam muito e visitam inúmeras exposições. Quais as diferenças e semelhanças que podem notar entre as cenas culturais de cada lugar? De que modo elas afetam o trabalho de vocês?
SB: Pessoas trabalhando nas artes em lugares diferentes precisam operar em diferentes cenários sociais, políticos, históricos e geográficos. Então é muito importante ter consciência disso quando visitamos esses lugares, falamos com colegas ou tentamos escolher quais projetos e artistas premiar. O que procuramos em todos os lugares é que a pessoa premiada esteja realmente implicada e fazendo uma verdadeira diferença. Nós sempre nos perguntamos: Se esse projeto não existisse, a paisagem cultural dessa cidade seria diferente? Se não fosse diferente, esse projeto obviamente não está trazendo nada. É pelo menos assim que gostamos de proceder agora que estamos na fundação há um ano. E o Videobrasil é um grande exemplo para esse efeito, quando pensamos no trabalho que Solange Farkas tem feito. O fato de que o projeto, o festival, não só influenciou artistas no Brasil, mas também no sul global, é impressionante. Para muitos artistas, participar do festival foi um marco na carreira e fez com que agora eles estejam bem estabelecidos.

TF: Acho que é muito fascinante que quanto mais você viaja, mais você percebe que as pessoas são bastante similares. Podem existir desafios políticos, mas o que a arte consegue fazer é passar por cima disso. Quando você escuta música, você não questiona de onde ela vem. Você se conecta com ela. Você pode gostar, ou não, claro, mas você pode se conectar com ela de forma universal. A arte tem esse poder.

O que se destacou no projeto de Solange Farkas?
TF: Existe algo muito especial sobre alguém que realmente corre riscos com artistas jovens e diz: “Eu acredito no seu projeto. Não vou dizer se ele é bom ou ruim, apenas que eu acredito nele e que vamos te dar as ferramentas para te apoiar”. E ao trazer artistas internacionais até aqui, cria-se uma rede de amizades, conversas, colaborações. Isso é incrível. A Solange é uma pessoa que realmente entende inclusão. Você deve arriscar, mesmo que não obtenha sucesso no final. Dê a oportunidade e depois veja onde o projeto vai. Ela faz isso de uma maneira maravilhosa.

De que maneira sua prática curatorial afeta sua posição na fundação e vice-versa?
TF: Todos os projetos que fazemos se conectam. Existe uma ótima sobreposição. Se estamos trabalhando em uma exposição e vemos grandes artistas, pensamos que poderiam ser interessantes aquisições para a coleção da fundação, por exemplo. Nós não estamos interessados em vir até o Brasil como diretores da fundação, participar de um evento, tirar uma foto e ir embora. Pensamos que nossas posições como curadores e diretores estão associadas a grandes responsabilidades. Por isso, precisamos escutar, aprender, nos engajar em sérias conversas e estar realmente investidos com cada comunidade.

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