Escolas de artistas : Escola da Floresta

O artista Fábio Tremonte propõe uma "pedagogia canibal" a partir de saberes de povos latino-americanos

Leandro Muniz
Escola da Floresta (2017, Foto: Divulgação)

Em uma série de reportagens, a seLecT apresenta escolas idealizadas e geridas por artistas brasileiros e internacionais, históricos e em atividade. A especificidade desses projetos está na transformação dos modelos de ensino e de trocas: como os afetos e conhecimentos são transmitidos e como podem gerar novas dinâmicas de organização do espaço ou da economia desses centros de reflexão e prática. 

Escola da Floresta
São Paulo, 2016 

Desde seu período de formação, o artista Fábio Tremonte (1975) atua também como educador, tanto no sistema formal, quanto nos programas educativos de instituições e museus. Em 2016, ambas as práticas passaram a assumir fluxos mais intensos no projeto Escola da Floresta, que não tem nem programa fixo, nem estrutura definida, fazendo dos encontros e trocas os seus eixos centrais. 

Em depoimento do próprio artista, a “escola é pensada como um espaço de compartilhamento, de encontro e de aprendizagem coletiva”, em ressonância com outras iniciativas que também buscam repensar os modelos de educação, compreendendo suas potências, para além da normatização do corpo e do pensamento. 

O início

“A ideia de fazer uma escola veio depois das ocupações dos secundaristas, em 2015. As ocupações me chamaram a atenção por serem jovens cuidando do espaço, da programação e transformando os usos do lugar e suas dinâmicas sociais. Na mesma época, eu trabalhava em uma instituição cultural privada que mudou o nome do núcleo educativo por outro mais publicitário, retirando a ideia de educação em um momento político em que ela começava a ser sucateada. Eu já pesquisava cultura indígena e pensar uma escola que tivesse um ecossistema diverso de programação, que se alimenta de si mesmo e é aberto, me pareceu fundamental”, diz Tremonte à seLecT

No momento de fundação da escola, também devemos contextualizar o início do golpe contra a presidente Dilma Rousseff e a agudização de uma instabilidade econômica no meio de arte, após alguns anos de aquecimento de mercado, profusão de editais e algumas iniciativas públicas e privadas, que abriram portas para diversos artistas e oxigenaram o sistema. 

“Já vinha percebendo que meu modo de operar como artista e meu modo de operar como educador eram muito parecidos. Às vezes se confundiam, mas não intencionalmente, e quando percebi isso comecei a pensar em juntar as duas atividades. Já vinha fazendo trabalhos desde 2014 que educação e arte estavam juntos, sem limites claros entre elas”, complementa. 

A Escola da Floresta reúne projetos anteriores de Tremonte, como a gráfica pública ou a produção de playlists temáticas ou encontros com outros artistas, todos reunidos em uma mesma proposta que está sempre aberta a colaborações e mudanças conforme novos parceiros se agregam. 

Pedagogia canibal

A Escola da Floresta (2017) em uma das propostas de ocupação temporária de espaços (Foto: Divulgação)

Como um dos conceitos centrais da Escola da Floresta, a ideia de “pedagogia canibal” busca estabelecer situações em que se possa aprender com o outro, desde a troca de pesquisas, projetos colaborativos entre artistas, ou experiências culinárias e de deriva. Outros conceitos chave são “sociabilidades do sul” ou a própria “floresta”, como organismo vivo que abriga múltiplas interações resistentes à produtividade acelerada do mundo capitalista. 

A história e saberes dos povos latino-americanos, tanto de povos originários quanto pós-colonização, com seus embates, conflitos e formas de resistência estão na base da pesquisa e formulação da Escola. “A Escola da Floresta tem um sotaque portunhol. Ela dá as costas para o Atlântico e se volta para os pampas, para os Andes e outras regiões da América Latina como forma de tentar estabelecer uma conexão”, diz Tremonte. As Derivas Culinárias, por exemplo, são uma pesquisa sobre a história de comidas locais da América Latina e seus fluxos com a Europa, principalmente, depois traduzidas em almoços coletivos, refletindo sobre formas de resiliência econômica e resistência cultural são sedimentadas em práticas cotidianas, como cozinhar. Em 2017, a Escola da Floresta também recebeu a SubEscuela, uma escola de artistas baseada em Rosário (Argentina) para uma série de atividades em São Paulo.

Em 2017, a Escola da Floresta promoveu a leitura do Relatório Figueiredo em um microfone aberto na Oficina Cultural Oswald de Andrade. Supostamente desaparecido em um incêndio no Ministério da Agricultura, o texto de mais de sete mil páginas foi encontrado no Museu do Índio no Rio de Janeiro 45 anos depois de sua finalização em 1967. O texto descrevia um esquema de corrupção dentro do Sistema de Proteção ao Índio, como vendas de terras e genocídios contra a população indígena. A leitura em voz alta é uma prática recorrente durante a formação escolar. O texto é apenas replicado no espaço público, multiplicando e fazendo ressoar um documento esquecido, que sintomaticamente indica como problemas políticos são repetidos historicamente, em uma ação que fica entre a performance de longa duração e a denúncia política. 

No texto Escola da Floresta:  Breves notas ou um texto-colagem escrito por muitas mãos e meios – uma espécie de descrição dos princípios da escola, com ares de manifesto – uma colagem de diversas referências, replica a dinâmica da escola em sua forma de apresentação, que inclui uma multiplicidade de vozes. 

Entre as atividades da Escola estão encontros, traduções, exposições, festas e eventos culinários, pensados para as demandas específicas de cada projeto, contexto e participantes envolvidos. Tudo isso em um tempo alargado em que cada decisão, ação ou espaço de ócio é resultado dos vínculos entre aqueles que assumem posições transitórias e não hierárquicas dentro do projeto. Artistas, alunos, professores, pesquisadores e público comutam seus lugares. 

Espaço mutante

Em sua dissertação de mestrado, a curadora Kamilla Nunes dedica um capítulo à Escola da Floresta, em um texto composto de citações, traduções e comentários críticos que produzem imagens poéticas para a forma mutante que o projeto pode assumir. “A escola se serve muito do que há ao seu redor. Da sua casa, da sua cidade, do seu ateliê, dos seus amigos, dos seus conhecidos e desconhecidos, dos espaços de arte, dos espaços públicos, dos públicos. E ‘se servir’ diz respeito a uma relação de interdependência e de cooperação”, diz ela. 

Para Tremonte, a Escola da Floresta é proposição, não obra. É um projeto eminentemente colaborativo, no qual convida outros artistas que contribuem seja com a apresentação de trabalhos em exposições, falas, setlists ou outras proposições surgidas dos interesses tratados coletivamente. “Aula é algo que foge da proposta da escola. Prefiro encontros, sem um conteúdo programático.”

Os participantes ou alunos não têm programa a seguir, sendo o artista provavelmente o único aluno fixo de seu próprio projeto. “Eu insisto no termo escola pela referência aos estudantes das ocupações, porque eles queriam aquela estrutura, mas transformando-a, potencializando-a. Ao invés de um espaço normatizado, tem uma ideia de espaço de resistência.”

Prospecções

A Escola da Floresta no Ateliê397 (Foto: Divulgação)

Em 2019, a Escola ganhou sua primeira sede, abrigando encontros, grupos de estudos, festas e uma exposição com trabalhos em um varal, repensando também os possíveis formatos para um espaço expositivo. Após essa experiência piloto, ainda ligada ao universo privado do artista, a Escola seguiu para o Ateliê397, onde tem novo abrigo. Na estrutura mutante, estão duas bibliotecas e uma série de publicações de artistas. 

“Durante os três primeiros anos, a escola funcionou através de parcerias com artistas, projetos independentes, instituições. A ideia era usar esses espaços e suas estruturas. Mas, este ano, a Escola da Floresta ganhou um espaço físico financiado coletivamente. É um projeto de arte e grande parte do comportamento dele é de acordo com o meu investimento no aluguel dos espaços ou convites para projetos. A ideia é ter cada vez mais apoiadores, pessoas físicas e instituições que viabilizem a existência do espaço”, explica. Pode-se argumentar que o projeto ainda age em uma esfera micropolítica, mas, talvez, daí que esteja a sua força de multiplicação. 

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