Escolas de artistas: Escola de Arte Útil

Movimento criado pela artista cubana Tania Bruguera se destina ao estudo e prática da arte como ferramenta de transformação social

Leandro Muniz e Paula Alzugaray
Debate entre Mônica Nador e Tania Bruguera na Escola de Arte Útil (2019) em ativação na Pinacoteca (Fotos: Iza Guedes / Cortesia Pinacoteca)

Em uma série de reportagens, a seLecT apresenta escolas idealizadas e geridas por artistas nacionais e internacionais, históricos e em atividade. A especificidade desses projetos está na transformação dos modelos de ensino e de trocas, isto é, como os afetos e conhecimentos são transmitidos e como podem gerar novas dinâmicas de organização do espaço ou da economia desses centros de reflexão e prática. 

Escola de Arte Útil
Havana, 2003

A Escola de Arte útil é um projeto criado pela artista cubana Tania Bruguera, que mira em uma crítica à história da arte e às instituições responsáveis por criá-la, através de aulas e debates que acontecem dentro de espaços institucionais. O projeto busca propor novas formas de se transformar a realidade a partir de problemas urgentes nos contextos onde é ativado. “Mesmo que seja educação paralela, temos um engajamento institucional que é uma forma de intervir na educação, pois esse tipo de projeto deve se infiltrar na instituição”, conta Tania Bruguera à seLecT

A artista cubana Tania Bruguera (1968) lida com o comportamento das pessoas e com diferentes formas de educação como material primordial. Sua obra inclui performances, criação de espaços e ações de longa duração dentro de instituições, questionando a ideia de obras para serem contempladas, na medida em que seu objetivo é propor novas formas de compreender a realidade.

A Escola de Arte Útil tem origem em um projeto anterior, o Arte de Conduta (2003), que criou uma alternativa à educação formal no contexto cubano, como um espaço democrático que não existia na sociedade naquele momento. “Fechei o projeto em 2009 porque achei que foi muito bem-sucedido e queria fazer outra coisa mais arriscada”, diz. 

A primeira ativação da Escola de Arte Útil foi em 2018 em uma exposição retrospectiva no MoMA-NY. “Eu queria ativar todos os meus projetos anteriores, mas era impossível, por questões orçamentárias, e decidimos ativar somente um projeto, a Escola de Arte de Conduta. Quando fiz, em 2003, não havia tantas escolas de ‘arte social’, pelo menos na América Latina. Agora isso é normal, então, não fazia mais sentido continuar, porque estávamos perdendo a fricção que acho necessária a toda escola ou projeto social. Em 2018, o que as pessoas estavam rejeitando era a ideia de ‘arte útil’, então, achei importante criar uma discussão sobre algo que as pessoas não acreditam e não querem mais”, diz Bruguera.

Painel produzido ao final dos debates com os alunos da Escola de Arte Útil na Pinacoteca (Foto: Paula Alzugaray)

O que é Arte Útil
Arte Útil não é arte relacional, arte engajada, arte pública, ou arte ativista, embora possa se relacionar com todas essas outras instâncias de relação entre arte e sociedade. “Arte Útil tem a ver com o entendimento de que a arte, somente como proposição, já não é suficiente. Arte Útil vai do estado da proposição ao da aplicação da realidade”, escreve a artista no texto Reflexões Sobre Arte Útil, traduzido para o português e publicado na revista seLecT #42

Trata-se de entender que a Arte Útil tem uma dimensão pragmática, mas que não busque apenas resolver um problema, mas ampliar suas possibilidades na realidade. Uma pergunta que o método coloca ao artista é: que resultado a arte gera para aqueles que se relacionam com ela? Não é apenas uma prestação de serviço ou a aplicabilidade de uma solução, mas um vínculo entre um problema e uma proposta que busque transformá-lo, gerando benefícios. 

“Na Escola de Arte de Conduta queríamos falar da necessidade de se discutir ‘arte social’, mas agora queremos intervir no sistema pedagógico porque Arte Útil é uma prática que tem acontecido por mais de 100 anos, mas não tem tido a atenção que deveria da história da arte oficial”, continua ela. “Nos anos 1950, após a guerra, um cientista começou a combater a fome através de um banco de sementes. Hoje isso é normal, mas mudou completamente como vemos o mundo, gerou um novo paradigma. Outro exemplo, no começo do século 20, uma mulher abastada decidiu criar uma união para os trabalhadores domésticos, majoritariamente afro americanos. Isso também é Arte Útil”. 

A artista Tania Bruguera em debate com Mônica Nador na Escola de Arte Útil (2019) em ativação na Pinacoteca (Fotos: Iza Guedes / Cortesia Pinacoteca)

Projeto pedagógico
Bruguera estudou no Instituto Superior de Arte de Havana e realizou um mestrado no Art Institute de Chicago, onde se deparou com os limites da história da arte ocidental e seu desejo de ampliar suas normas. “Eu estava fazendo um MFA depois de estudar por toda a minha vida em Cuba, então minha educação como artista não estava ligada à tradição ocidental, mas a artistas africanos, latinos, asiáticos e árabes. Cresci com um vocabulário muito diferente e quando fui para o mestrado não senti quase nenhuma conexão com os nomes que me foram apresentados da performance ou da arte engajada”, continua. “Graduei e percebi que queria fazer algo que fosse um índice da tradição de onde vim. Comecei a falar para as pessoas que não fazia performance, mas arte de comportamento. No começo, ainda falava em inglês, behavior, mas achei melhor o termo em espanhol, arte de conducta, porque em espanhol conducta é comportamento, mas também conduíte, aquilo que conecta. O comportamento é a linguagem comum da sociedade e eu queria usar isso como material para meu trabalho”. 

Tania Bruguera durante as discussões da Escola de Arte Útil na Pinacoteca (Foto: Leandro Muniz)

Uma das maiores contribuições de artistas de fora do sistema hegemônico da arte talvez seja o questionamento da própria ideia de arte. A Escola de Arte Útil é um projeto pedagógico ou uma performance de longa duração, expandindo os limites de cada um desses termos. “É muito importante que cada artista defenda a paisagem ideológica, política e emocional de onde ele vem e não apenas traduza para os outros. Hoje fala-se em descolonização e acho que isso é o que fiz durante toda minha vida”. 

Assim, o projeto pode ser aplicado em qualquer parte do mundo onde exista um artista com a formação e a noção ocidental de arte, porque trata-se de um trabalho que tenta desafiar esta própria tradição. O importante é que o projeto responda às urgências de cada lugar onde é criado. 

A metodologia da Escola busca identificar um problema, quem o causa, a quem afeta e então propor uma solução ainda não imaginada. O objetivo é identificar condições sistêmicas e criar benefícios inovadores para situações de urgência. As aulas são compostas por análises de caso e propostas para problemas concretos, através de múltiplas vozes, com suas irregularidades e dissonâncias, que são pontuadas por mediadores que buscam chegar em um lugar comum, através da crítica rigorosa dos projetos. 

“Todo projeto pedagógico deveria ser baseado em uma fricção de uma situação não resolvida que coloque os alunos e os professores e participantes em uma situação em que eles têm que descobrir juntos como resolver o problema. Se você já sabe o que vai acontecer, isso não é uma escola”, diz Bruguera. 

A cada vez que o projeto é ativado em um contexto diferente, elege-se alguém da instituição que recebe a Escola para acompanhar o projeto do começo ao fim. “Em São Francisco, muita gente falou de especulação imobiliária e de populações sem-teto; no México, houve gente focada em violência contra a mulher e na discussão sobre a entrada da polícia na Universidade. Em São Paulo, me parece que existem muitos monopólios e os projetos discutidos refletem sobre isso, na cultura, na natureza, no agronegócio”.

Arte Útil em São Paulo

Debate entre Mônica Nador e Tania Bruguera na Escola de Arte Útil (2019) em ativação na Pinacoteca (Fotos: Iza Guedes / Cortesia Pinacoteca)


De agosto a outubro de 2019, a Escola de Arte Útil foi ativada no contexto paulistano, dentro dos quadros da exposição Somos Muitxs: Experimentos Sobre Coletividade, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. A curadora Fernanda Pitta e o artista Fabio Tremonte foram os instrutores convidados para colocar o programa em prática, e os alunos foram selecionados pela Associação de Arte Útil, a partir de uma convocatória, que buscava conhecer os objetivos e resultados esperados por cada um. Bruguera esteve em outubro em São Paulo, para um workshop de quatro dias, quando conversou com a seLecT

Uma das galerias do museu foi convertida em sala de aula e os encontros aconteceram nas quintas e sextas feiras, à tarde. As dinâmicas alternavam estudos de casos e trabalhos em grupos. Foram convidados para apresentar seus projetos o editor Leonardo Araújo, o artista Diogo de Moraes, o artista Guilherme Teixeira, a curadora Beatriz Lemos, entre outros. No entanto, em muitos dos casos estudados, foi questionada sua associação com os preceitos do movimento. Afinal, difícil alcançar o objetivo máximo: tornar-se um dispositivo que influencia a realidade através da implementação da mudança social. Mas esse foi precisamente o desafio imposto aos grupos de trabalho. Os exercícios pediam que os alunos identificassem uma injustiça e, a partir dela, criassem um protótipo de proposta de Arte Útil para neutralizá-la. “Tentamos entender quais são as pessoas criando os problemas e achar soluções para situações sistêmicas”, diz Bruguera. 

O Arquivo de Arte Útil (2019) na Pinacoteca (Foto: Leandro Muniz)

O objetivo da Associação de Arte Útil com esse curso em São Paulo era incorporar a seu arquivo novos estudos de casos. A associação tem hoje um banco de dados com cerca de 200 projetos, do século 19 até o presente. O arquivo é acessível on line, mas na sala de aula da Pinacoteca, eles ficavam expostos nas paredes, para consulta do público da exposição e para as discussões dos alunos do curso. 

Para a curadora Fernanda Pitta, “a proposta de fazer Arte Útil realmente ultrapassa a lógica que da arte de denúncia e engajada, da arte pública e da estética relacional. Diz respeito a pensar transformações sociais efetivas em uma escala humana. Os estudos de caso e aulas apresentados têm dado estímulo para compreender diferentes práticas artísticas e sua efetividade. A equipe da Associação de Arte Útil está avaliando as propostas para inclusão no arquivo, tendo já incorporado a experiência do Diário do Busão, de Diogo de Morais, por exemplo”. 

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