Escolas de artistas: “Escola” Oysi

O resgate das culturas ancestrais baseadas na oralidade é o objetivo da “Escola” Oysi, criada por Cecilia Vicuña e James O’Hern, em 1995

Luana Fortes

Publicado em: 06/01/2020

Categoria: Destaque, Em Andamento, Escolas de Artistas, Projetos especiais

Cecilia Vicuña durante atividade em Caleu em 2011 (Fotos: Cortesia da Artista)

Em uma série de reportagens, a seLecT apresenta escolas idealizadas e geridas por artistas nacionais e internacionais, históricos e em atividade. A especificidade desses projetos está na transformação dos modelos de ensino e de trocas, isto é, como os afetos e conhecimentos são transmitidos e como podem gerar novas dinâmicas de organização do espaço ou da economia desses centros de reflexão e prática. 

“Escola” Oysi
Caleu, Chile, 1995
Fundada em 1995 pelos poetas Cecilia Vicuña e James O’Hern, a “Escola” Oysi é precisamente o que afirma seu nome, uma escola entre aspas. “Ela é nômade, flutuante e acontece quando acontece”, descreve Vicuña, que é também artista visual e cineasta. A estrutura da proposta é inspirada no entendimento de culturas indígenas sobre a troca recíproca e funciona como um sistema que se retroalimenta. 

A Oysi é definida como uma escola de ouvir, um processo, e não um lugar. Ela busca criar, instalar e implementar programas educativos em cooperação com comunidades que valorizam a transmissão oral de conhecimentos ancestrais e indígenas. “É uma experiência equivalente ao ritual, que busca uma redefinição da educação como libertadora do potencial humano”, explica Cecilia Vicuña à seLecT. A pergunta chave que motivou Vicuña e O’Hern a criar a “Escola” Oysi foi: Como podemos aprender com os valores democráticos de culturas orais, suas sabedorias e formas de se relacionar com o outro e com o mundo?

Já que o projeto foi criado por dois poetas, não surpreende que a palavra Oysi seja um neologismo. Em espanhol, Oysi pode significar “Você escuta? Sim!” ou “Hoje? Sim!”. Nas antigas línguas gaélicas, dialeto que teve origem na Irlanda, a palavra denota jovem veado, animal que é considerado por muitas culturas como um modelo para o comportamento humano, pois ele dá a sua vida pelo bem dos outros. E, ainda, sonoramente, a palavra remete ao lendário poeta irlandês Oisín, personagem da mitologia irlandesa, a quem se atribui a autoria de um ciclo de poemas épicos.

  • Cecilia Vicuña durante atividade em Caleu em 2011 (Fotos: Cortesia da Artista)
  • Claudio Mercado durante atividade em Caleu em 2011 (Fotos: Cortesia da Artista)
  • Um dos propósitos da Oysi é reconectar a comunidade de Caleu com a tradição ancestral dos Bailes Chinos da cultura pré-colombiana chilena do Aconcágua (Foto: Reprodução)

Projeto Caleu
Todo projeto da escola começa com uma oficina, para lançar o sistema e estabelecer procedimentos. Depois, a proposta depois segue seu curso pela iniciativa de outros artistas, professores e propositores. 

A primeira “Escola” Oysi teve início com um convite feito a Cecilia Vicuña para conduzir uma atividade na Escola Básica Capilla de Caleu, uma pequena cidade nas montanhas do centro do Chile. A artista havia ganhado uma bolsa do The Touchstone Center for Children, de Nova York, e decidiu oferecer ao Ministério da Educação chileno a realização de uma oficina. “Eles meio que não encontravam uma forma de se desfazer de mim, então decidiram se desfazer de mim me mandando a Caleu”, relata Vicuña num vídeo publicado em 2018 sobre a Oysi. 

O projeto Caleu se configurou com o objetivo de reconectar a comunidade local, especialmente crianças, com a tradição ancestral dos Bailes Chinos da cultura pré-colombiana chilena do Aconcágua. O tipo de dança foi declarado como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela Unesco em 2014. Outras danças que já ganharam o mesmo título são os brasileiros Samba de Roda, Frevo e Roda de Capoeira. 

O projeto em Caleu continuou sem a presença de Vicuña, mas a artista eventualmente retorna à cidade para mais oficinas. “Uma vez que eu comecei a trabalhar com essa comunidade, eles continuam me chamando e já vão três gerações que avós, filhos e netos continuam com esse trabalho”, conta. 

Em 2011, foi lançado uma publicação em que Vicuña transcreveu e traduziu o poema oral Albert, de James O’Hern. O livro foi criado durante a atividade Tugar Tugar: Salir a Buscar El Sentido Perdido, em Caleu, e traz ilustrações de Diego Neira, que na época tinha 9 anos. 

Assista aqui ao vídeo em que Cecilia Vicuña conversa com Claudio Mercado sobre a Oysi

  • Still do filme Kon Kon, de Cecilia Vicuña (Foto: Reprodução)
  • Still do filme Kon Kon, de Cecilia Vicuña (Foto: Reprodução)

A Criança de Aconcágua
Em 2010, a artista deu início a outro projeto da “Escola” em Quillota, cidade chilena localizada na região de Valparaíso, no vale do Aconcágua, que era antigamente um dos lugares mais populosos do Chile. Com a participação dos artistas Andrea Avendaño e Francisco Ríos Araya, foi realizada uma oficina com o propósito de relembrar a antiga lenda da Criança de Aconcágua. De acordo com a história, os incas sacrificavam as crianças consideradas perfeitas, chamadas de kapaqocha, levando-as até Cusco, a capital inca, para entregá-las aos Apus, espíritos das montanhas. Esse sacrifício garantiria a fertilidade do vale e a fluidez de seus rios.

A relevância de rememorar o mito era observada pela situação atual do rio do Aconcágua. “Hoje, o rio está morrendo e a criança e seu sacrifício foram esquecidos. Quillota era um centro cultural, onde pessoas de diversas culturas se reuniam. Agora é uma cidade industrial moderna e seus sítios arqueológicos estão cobertos para a construção de estádios de futebol”, escrevem os poetas no site da Oysi.

A lenda das crianças do Aconcágua também rendeu a Vicuña um documentário-poema de 54 minutos Kon Kon (2010), em que a artista trata sobre o significado esquecido de nomes antigos. A palavra Kon remete ao deus homônimo da mitologia inca e é também o nome de uma praia cujas águas são alimentadas pelo glacier do Aconcágua. Além disso, Kon ainda alude ao ciclo da água – de glacier a oceano a nuvem, trazendo também uma reflexão sobre os diferentes tempos e contextos em que a oralidade foi considerada importante para o conhecimento e a educação. 

Vicuña acredita que os meios digitais têm contribuído para um retorno à cultura oral. Para a artista, a oralidade tem um surpreendente vínculo com os conteúdos audiovisuais gerados para e pelo mundo tecnológico. “Existe outra vez uma espécie de confluência entre a necessidade de valorizar essa oralidade e esses meios”, afirma a artista. 

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