Escolas de artistas: Oficina Cultural 3º Andar (ou Escolinha)

Dora Longo Bahia, Eduardo Brandão e Felipe Chaimovich promoviam encontros com jovens artistas, em alternativa a um sistema de arte limitado

Leandro Muniz
Newton Leitão e Keyla Alaver (Fotos: Matangra)

Em uma série de reportagens, a seLecT apresenta escolas idealizadas e geridas por artistas nacionais e internacionais, históricos e em atividade. A especificidade desses projetos está na transformação dos modelos de ensino e de trocas, isto é, como os afetos e conhecimentos são transmitidos e como podem gerar novas dinâmicas de organização do espaço ou da economia desses centros de reflexão e prática.

Oficina Cultural 3o Andar (ou Escolinha)
São Paulo, 1995-2000

Dora Longo Bahia, Eduardo Brandão e Felipe Chaimovich eram professores na FAAP, de pintura, fotografia e história da arte, respectivamente, quando perceberam que, depois do fim da faculdade de artes plásticas, muitos alunos ficavam sem perspectivas profissionais na área. Naquele momento, não havia um mercado de arte consistente no Brasil, espaços de discussão ou instituições receptivas a artistas em começo de carreira. O nome oficial do projeto era Oficina Cultural 3o Andar – inclusive, por questões burocráticas de aluguel –, mas os alunos o chamavam informalmente de “Escolinha”. 

Keila Alaver, Ana Paula Cohen e Amílcar Packer na Oficina Cultural 3o Andar

“Era um lugar para que as pessoas não desistissem da arte, muita gente começa a trabalhar e de repente para de fazer arte por falta de interlocução. Era um espaço de fazer, de prática, que a gente achava muito importante”, diz Dora Longo Bahia à seLecT. Entre as influências indiretas do projeto, Dora menciona as aulas de história da arte Herbert Duschenes, pelo formato experimental de seus cursos na FAAP. As discussões se estendiam para encontros informais em sua casa, em discussões compartilhadas com sanduíches e vinho, trazendo conteúdos que não cabiam nas aulas, indo muito além da arte Ocidental.  

A Escolinha ocupava um andar inteiro alugado na região da Barra Funda, antes do bairro se tornar um polo cultural, com sedes de galerias como o Galpão da Fortes D’Aloia e Gabriel, a breve passagem da Baró por um galpão na região, ou a mesmo a fundação de espaços independentes, como o BREU ou o Olhão. No prédio já funcionavam alguns ateliês de artistas, a molduraria Marton, que hoje ocupa o prédio praticamente inteiro, e também um cinema destruído. Na 3o Andar, havia uma espécie de secretaria, um salão e três salas, uma com um ateliê coletivo dividido por cerca de dez pessoas, uma de uso livre onde aconteciam palestras e outra com um bar, onde aconteciam as festas e projeções. 

“Era um aluguel barato e a Barra Funda era bem diferente do que é hoje. Não havia nem os diversos empreendimentos imobiliários de condomínios fechados, prédios e restaurantes que hoje dominam a região, nem as iniciativas ligadas à arte, com os ateliês de artistas, galerias e espaços independentes. Era um lugar de difícil acesso, meio escuro, vazio, industrial e mais violento. Nós saímos de lá no começo de um processo de gentrificação que ainda segue”, complementa Dora.

Marcius Galan e Ronaldo Bressane

 

Dinâmica
Entre as atividades estavam ateliês, discussões, sessões de vídeo, apresentações de performance, festas, entre outras que promovessem o encontro e a troca – de maneira mais ou menos formal – sobre arte. Havia, desde encontros para discussão de trabalhos com Dora, Brandão, Chaimovich e com os artistas que dividiam ateliê no espaço, até aulas individuais e com professores convidados. Os encontros com os fundadores do projeto se davam aos sábados, enquanto houvesse fôlego para o debate, e durante a semana professores convidados – em geral, artistas mais experientes – promoviam aulas e apresentações. Os alunos tinham a chave do espaço e podiam se encontrar lá fora das aulas, o que enfatiza o convívio como objetivo daquela experiência. 

“Não havia a ideia de escola. A gente percebeu que, quando os artistas acabavam a faculdade, ficavam sem lugar para se reunir. São Paulo era outra cena, o transporte público era precário, os museus não tinham o aparato que têm hoje, nem o mesmo equipamento humano. A ideia era ter um lugar para conversar e os artistas não se perderem, não ficarem sozinhos. Não havia um desenho do que seria, mas havia a união entre as pessoas, cada um com seu conhecimento específico. Não cumpríamos um programa, as coisas iam acontecendo” diz Eduardo Brandão, hoje diretor da Galeria Vermelho. 

Renato de Cara e Keila Alaver

 

Na época, ele era professor na FAAP e fotógrafo no jornal Folha de S.Paulo, eventualmente documentando obras de artistas por meio de trocas, que inclusive constituíram uma coleção hoje em comodato com o MAM São Paulo. “Eu levava livros de fotografia, pois percebia que os assuntos na produção dos artistas poderiam ser melhor esclarecidos a partir de certas referências. Levava trabalhos que respondiam a problemas levantados nas aulas anteriores”, complementa Brandão. “Se eu via que três ou quatro trabalhos lidavam com a questão do ‘eu’, levava um livro da Nan Goldin. Tentava alimentar a produção daqueles artistas com a história, relacionando obras de diferentes períodos e lugares para que eles tivessem consciência tanto conceitual quanto formal do que estavam fazendo. Comecei a procurar uma literatura distinta da europeia e da norte americana, procurava fotografia africana, japonesa, latino americana… A internet não era como hoje e a circulação de informações era muito mais restrita”. 

Nos sábados à tarde, todos se reuniam para discussões de trabalhos, organização e discussão coletiva da programação de exposições, festas, apresentações e projeções. As exposições, em geral individuais, abriam com uma fala entre o artista e um palestrante convidado, que recebia um livro de peso sobre arte, como forma de retribuição. Entre os palestrantes estiveram Regina Silveira, Nelson Leirner, Cildo Meireles. Embora informal, essa programação tinha periodicidade, intercalando cada uma dessas atividades. Maurício Ianês, Gisela Mota, Leandro Lima e Ricardo Carioba eram alguns dos artistas que visitavam esses encontros e ainda seguem em atividade. À noite aconteciam os shows, projeções e festas. “As pessoas pagavam o que quisessem nas bebidas, o que também ajudou na nossa falência”, conta Dora Longo Bahia. 

Além das aulas com Bahia e Brandão, o curador Felipe Chaimovich também dava cursos particulares de estética e crítica de arte, alternando aulas expositivas, dinâmicas de leituras em grupo e produção e discussão de textos. Entre os alumni que seguiram na área da pesquisa e curadoria estão Ana Paula Cohen, Kiki Mazzucchelli e Fernanda Arruda. 

Para Eduardo Brandão, sua experiência com o circuito universitário da Califórnia nos anos 1980 foi fundamental para a dinâmica interdisciplinar que trouxe para suas aulas. “Visitei a escola de cinema UCLA e fiz algumas aulas como aluno visitante”, diz ele. “Na UC Santa Barbara frequentei cursos de história da arte, aquarela, pesquisei sobre arte conceitual, sempre gostei muito da história da fotografia e como o homem foi usando essa linguagem para contar sua história. A capacidade da fotografia de formalizar e concluir ideias me interessou sempre. Tive aula de dança, canto e trouxe essas experiências para a Escolinha porque era muito livre, falávamos de dança, música, tudo que respondesse aos trabalhos que os artistas traziam”. 

Mateus de Paula Santos , Daniel Belleza, Ricardo

 

O fim
Em 1999, Felipe Chaimovich saiu do projeto que seguiu até 2000, terminando por questões administrativas e orçamentárias. “Eu saí quando estava fazendo pós-doutoramento na FFLCH, num processo de pesquisa muito intenso, que me levou a sair da Escolinha”, conta o curador. A manutenção da Oficina Cultural 3o Andar não era rentável, as contas não fechavam. Para 5 ou 6 alunos pagantes, havia mais de 15 frequentando as aulas livremente. “A gente alugava aquele espaço, ficou inviável. Os alunos não pagavam, no fim das contas. Estava todo mundo acabando a faculdade, chegando de ônibus e comprando coxinha para passar a tarde. O interesse deles era pelo que poderia acontecer lá, pela interlocução”, diz Brandão. 

“Nós percebemos que as coisas estavam rolando independentemente de nós e decidimos encerrar. Alguns dos alunos também alugaram espaços em outro andar e seguiram promovendo discussões e encontros. Aquilo criou uma cena, ainda que numa escala pequena e de pouco alcance público direto”, complementa Dora. 

Dora Longo Bahia e Jan Fjeld

Desdobramentos
Embora tenha tido um papel relevante na criação de um circuito de trocas, apresentação e formação de artistas e curadores, muitos deles ainda atuantes no debate artístico, como Marcius Galan, Gisela Motta, Leandro Lima, Bartolomeo Gelpi, Keila Alaver ou Ana Paula Cohen, não há materiais de referência na pesquisa sobre o projeto. Talvez um sintoma da falta de preservação de memória e da história da cultura no país. Uma das poucas fontes de referência são as breves menções no texto de Dora Longo Bahia sobre a Anarcademia e um debate entre a artista e Eduardo Brandão mediado pela editora norte americana Stephanie Bailey durante um dos talks da feira Art Basel de 2017.

Entre desdobramentos importantes do projeto estão a fundação da Galeria Vermelho. A proposta para a fundação da galeria veio da participação de Eliana Finkelstein nas aulas. Ela era aluna da Escolinha quando procurou Brandão para a sociedade na galeria, a princípio destinada a comercialização de fotos, o que em menos de um ano se ampliou para um debate sobre arte contemporânea em geral, sendo relevante para a inserção de linguagens como o vídeo ou a performance no mercado de arte brasileiros. 

Gustavo Resende e Felipe Chaimovich

 

A Eliana frequentava as aulas e quando teve a ideia de fazer a galeria pensamos em abarcar mais gente e em como fazer para tentar um mercado para uma produção que não estava no roteiro, como a fotografia, o vídeo e a performance. No começo eu era contrário à ideia de uma galeria, só conhecia os projetos dos amigos Luisa Strina, Marcantonio Vilaça e Ricardo Trevisan. Eu juntei um pouco do que sabia do background, porque fotografei para todos eles, com minha experiência com a Escolinha, como conceito de troca e busca e com a minha prática com a Folha de S. Paulo, como dinâmica empresarial e apresentação de projeto”, diz Brandão. 

Outro desdobramento importante são os diversos grupos de estudos mantidos por Dora Longo Bahia desde então. A junção entre o ensino da arte e a prática artística é uma tentativa de superar uma suposta dicotomia entre essas duas frentes em discussões não burocráticas sobre arte, eliminando a polarização artista ou professor, que só gera mistificações sobre a prática e a produção artísticas. Dora formou o grupo Museu do Vazio (2001-2005), depois teve a Anarcademia (2008-2014) e atualmente segue com o Depois do Fim da Arte (2015), com os alunos de graduação e pós-graduação da USP. Cada um desses nomes e seus projetos – exposições, performances, palestras, festas, cineclubes etc – mudam de acordo com os participantes e as condições institucionais de sua realização. A dinâmica dos encontros e os objetivos, no entanto, são os mesmos: encontros periódicos na casa da artista com comida e bebida para se discutir o papel do artista na sociedade e suas contradições. 

Newton Leitão e Keila Alaver

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