Escritas esquemáticas, concretas e automáticas

Correspondências e dissonâncias marcam encontro entre Marilá Dardot, Willys de Castro e Lothar Charoux no IAC

Paula Alzugaray

N° Edição: 55

Publicado em: 26/09/2022

Categoria: A Revista, Crítica, Destaque

Vista de Diálogos Contemporâneos: Marilá, Willys, Lothar, em cartaz no IAC [Foto: Divulgação]

Marilá Dardot tem no ateliê uma máquina de escrever, sempre com a folha de papel preparada para receber o texto. Em vez de um caderno de notas, ela usa no dia a dia uma máquina de anotações. Hábito ou experiência estética? Uma de suas páginas datilografadas recebeu recentemente um título e ganhou um lugar na parede do Instituto de Arte Contemporânea (IAC), ao lado de estudos para logotipo e poemas visuais datilografados por Willys de Castro. Lembrete (2020) está, como diz Dardot, “entre o trabalho e o não trabalho”. O mesmo pode ser dito sobre os projetos de Willys de Castro e de Lothar Charoux que dividem o espaço de Diálogos Contemporâneos: Marilá, Willys, Lothar.

Especular sobre a curta distância entre o trabalho (artístico) e o não trabalho (artístico) nos processos gráficos e publicitários de Willys de Castro é uma das gratas surpresas da mostra: o artista datilografava estudos para slogans comerciais na forma de sofisticados poemas concretos. Do outro lado da sala, espelhado aos seus croquis para as campanhas e logotipo das Tintas Cil, um estudo datilografado para livro de poemas confirma a reciprocidade entre os campos da vida do artista, do poeta e do publicitário. Nos protocolos de catalogação de arte, estudos e anotações não são considerados obras, mas documentos de processo, que pedem outro tipo de aproximação, trato e interpretação. São matéria abundante para pesquisadores e historiadores produzirem conhecimento sobre o corpo da obra do artista. Mas, no IAC, centro de documentação e pesquisa que guarda mais de 70 mil itens de artistas e, desde 1997, já realizou 35 exposições de recortes de seu acervo, procura-se “libertar os arquivos e fundos de sua costumeira e necessária aridez expressiva, expondo o que permanece escondido para reavivar histórias e relações transversais de artistas”, como aponta Giancarlo Hannud, curador da exposição em cartaz até novembro. Marilá Dardot é uma artista que frequentemente joga e embaralha as categorias de trabalho e não trabalho; de hábito e de experiência estética. Convidada por Hannud a dialogar com os acervos documentais de Willys de Castro e Lothar Charoux, ela encontrou certa familiaridade com as práticas que os dois artistas ativos na segunda metade do século 20 articulam dentro e fora de padrões e grids da arte moderna. Planilhas, réguas e tábuas de contagem do tempo compõem diversos projetos de Dardot apresentados no IAC e também na individual Ainda Sempre Ainda, que esteve na Galeria Vermelho em julho e abre em 13 de setembro no Museu Paranaense, em Curitiba.

Detalhe de Tic-Tac, da série Pinturinhas Meditativas (2020), de Marilá Dardot

Na série de Pinturinhas Meditativas (2020), ela se propõe a inventar passatempos para lidar com o hiato temporal que se deu durante os meses mais rígidos de isolamento social, da pandemia da Covid-19. Quando se pensava que a quarentena se restringiria aos previstos 40 dias, Dardot elaborou Tic-Tac, um jogo-calendário em que pintava diariamente quadrados coloridos nas páginas quadriculadas de um caderno, atendendo a uma lógica de avanço progressivo e linear. “Mas o projeto falhou”, afirma. Entregar-se à perda total da noção de tempo levou-a a Depois (da série de Pinturinhas Meditativas), em que assume a falência das certezas, o que, no contexto deste Diálogo Contemporâneo, faz-se dissonante em relação ao concretismo e à racionalidade da geração de Charoux.

Outro eixo incontornável da exposição são as correspondências. Além de cartas trocadas entre Willys e Hélio Oiticica, abrindo a exposição, e da videoinstalação Correspondência (2008), parceria de Fabio Morais e Marilá Dardot, a curadoria favorece diálogos, por exemplo, entre técnicas e linguagens usadas pelos artistas. Como o uso da tipografia pintada à mão por Willys e da letraset por Dardot; ou os poemas visuais de um e os “pseudopoemas” de outra, na instalação Reverso (Sala fundo) (2022), no subsolo do edifício. Feitos com palavras retiradas das descrições do IAC sobre as obras, editadas “como se fossem poemas” e colocadas em ordem alfabética nos mesmos envelopes que guardavam as obras nos arquivos da instituição, os pseudopoemas lançam a artista ao risco dos exercícios de escrita automática e poética. Com seus poemas que não são poemas e trabalhos que não são trabalhos, Marilá colapsa algumas das ideias certas que tínhamos sobre Willys e Lothar.

Serviço
Diálogos Contemporâneos: Marilá, Willys, Lothar
Instituto de Arte Contemporânea – IAC, Avenida Dr. Arnaldo 120/126, São Paulo
Até 26/11

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