Esses jogos perigosos

Lisette Lagnado

Publicado em: 08/06/2015

Categoria: artes visuais, Crítica

José Leonilson produziu os desenhos e bordados que lhe garantiram seu lugar de proa na arte brasileira contemporânea.

Entre agosto de 1991, quando recebe o resultado do exame que lhe revela que é soropositivo, e 28 demaio de 1993, data de seu falecimento aos 36 anos, José Leonilson produziu os desenhos e bordados que lhe garantiram seu lugar de proa na arte brasileira contemporânea. Frequentador assíduo da mídia e do circuito da arte, era contudo dono de uma obra ainda refém de uma interpretação pouco elaborada, restrita às telas coloridas e sem chassi da Geração 80.

Aos poucos vieram as publicações monográficas, a primeira delas de minha autoria, São Tantas as Verdades(1995), baseada no seu repertório de inscrições que se tornariam lendárias, tais como “Leo não consegue mudaro mundo”, “esses jogos perigosos”, “para quem comprou a verdade”. A edição da longa entrevista, realizada nos últimos meses de vida do artista, deu mais trabalho do que o ensaio analítico. Qual Leonilson mostrar ao público naquele momento? No calor ainda da perda, dezenas de horas de gravação foram abandonadas para honrar a pergunta de Foucault: What is an author?

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Legenda: Peça da instalação de Leonilson para a Capela do Morumbi (1993), em que o artista bordou a palavra Lázaro (Foto: Eduardo Brandão/Projeto Leonilson)

Curiosamente, Leonilson já foi tema de dois filmes a partir dos diários que deixou na forma de fitas gravadas. Em 1997, Karen Harley realizou o hoje mítico Com o Oceano Inteiro para Nadar (1997), vencedor de inúmeros prêmios. A Paixão de J.L., do diretor Carlos Nader, acaba de levar o prêmio de melhor longa–metragem brasileiro no 20º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade.

Muito resta a revelar mesmo que a obra em si se caracterize como “caderno de anotações, um diário”. Um novo filme poderia investigar a multidão de referências que denotam a curiosidade delirante da “paixão” de um artista, que abraça Broodthaers, Kavafis e os Shakers, Arthur Bispodo Rosario e Frank Gehry. Livre da chamada “coerência moderna”, a obra de Leonilson é assombrada de índices que obrigam seu interlocutor a acompanhar a riqueza de suas viagens e visitas a exposições internacionais. Eva Hesse (1936-1970) ocupa um lugar particular nas afinidades de Leonilson. Uma linha transversal os une por meio de três pontos: a alegoria da doença (a artista morreu em decorrência de um câncer); uma identidade sexual socialmente construída; e o diário pessoal. Hesse representa para a crítica feminista de Nova York o que Leonilson encarna para os estudos queer no Brasil. É possível colocar em plano de equivalência o testemunho de marginalidade de uma artista mulher nos anos 1960 e o ambiente vivido por Leonilson. Machismo e homofobia partilham a mesma origem de poder.

Ao se aventurar na escultura, Hesse estava adentrando um território masculino. A diretora Marcie Begleiter teve acesso aos escritos de Hesse para fazer o primeiro documentário sobre a artista, 45 anos após a sua morte. E sua questão foi similar: como fazer um filme que olhasse simultaneamente paraa obra e o narrador?

Todas as vezes que um artista conta intimidades de sua vida pensando estar explicando seu trabalho, uma frase de Deleuze, extraída de Crítica e Clínica (1993), tem um efeito devastador: “Não se escreve com suasneuroses”. Como na literatura, a arte é expressão de uma saúde. Veicula pathos, muito amor e afeto; porém, não deve expor filigranas dosconflitos autobiográficos, sob o risco de asfixiar a potência poética das mil ressonâncias de uma palavra ao longo das gerações. Quando o “pequeno eu” invade as telas, perde-se a linha divisória que rechaçava artistas sem qualidades e fica mais difícil defender que a arte não admite sentimentalismos.

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