Estado de violência

Obras de Dora Longo Bahia, Gilvan Barreto, Clara Ianni, Gabriela Golder e Mariano Speratti expõem como governos ditatoriais reverberam na atualidade

Luana Fortes
Stills da nova versão de Brasil x Argentina (Amazônia e Patagônia), de Dora Longo Bahia, com imagens de queimadas na Amazônia e geleiras na Patagônia (Foto: Cortesia da Artista)

Caminhar pela Avenida Paulista, em São Paulo, pode implicar confrontar-se com pessoas conclamando uma intervenção militar no Brasil. “Fora, políticos, o Exército brasileiro vai ocupar o seu lugar” é o tipo de frase estampada nos cartazes. Enquanto isso, na Argentina, aumenta a negação do gritante número de desaparecidos durante a ditadura civil-militar no país. Situações constrangedoras como essas expõem a pergunta que não quer calar: superamos a brutalidade dos governos ditatoriais? Trabalhos desenvolvidos recentemente por artistas brasileiros e argentinos mostram que não.

  • Postcards From Brazil (2016-2018), de Gilvan Barreto, traz paisagens brasileiras recortadas com o número de mortos e/ou desaparecidos no local durante a ditadura militar e, no verso, depoimentos da Comissão Nacional da Verdade (Foto: Cortesia do Artista)
  • Postcards From Brazil (2016-2018), de Gilvan Barreto, traz paisagens brasileiras recortadas com o número de mortos e/ou desaparecidos no local durante a ditadura militar e, no verso, depoimentos da Comissão Nacional da Verdade (Foto: Cortesia do Artista)
  • Postcards From Brazil (2016-2018), de Gilvan Barreto, traz paisagens brasileiras recortadas com o número de mortos e/ou desaparecidos no local durante a ditadura militar e, no verso, depoimentos da Comissão Nacional da Verdade (Foto: Cortesia do Artista)
  • Postcards From Brazil (2016-2018), de Gilvan Barreto, traz paisagens brasileiras recortadas com o número de mortos e/ou desaparecidos no local durante a ditadura militar e, no verso, depoimentos da Comissão Nacional da Verdade (Foto: Cortesia do Artista)
  • Postcards From Brazil (2016-2018), de Gilvan Barreto, traz paisagens brasileiras recortadas com o número de mortos e/ou desaparecidos no local durante a ditadura militar e, no verso, depoimentos da Comissão Nacional da Verdade (Foto: Cortesia do Artista)
  • Colagens de Gilvan Barreto feitas para o livro Paraíso (Foto: Cortesia do Artista)
  • Colagens de Gilvan Barreto feitas para o livro Paraíso (Foto: Cortesia do Artista)
  • Colagens de Gilvan Barreto feitas para o livro Paraíso (Foto: Cortesia do Artista)

Tortura em cenários idílicos
Enquanto o Brasil era governado por militares, Gilvan Barreto crescia no município de Jaboatão dos Guararapes, na Grande Recife, conhecido como Moscouzinho por eleger o primeiro prefeito comunista do Brasil. O apelido do município é título do livro que Barreto editou em 2010 em homenagem ao pai, que era militante de esquerda. Em Moscouzinho (2010) o artista mistura histórias oficiais com memórias e experiências subjetivas. Imagens de arquivo, coletadas no Departamento de Ordem Política e Social (Dops), são camufladas entre fotografias de família e de paisagens. “Quando fui pesquisar no Dops, vi tanta mentira tornada documento que pensei que eu poderia criar documentos oficiais também”, diz Gilvan Barreto à seLecT.

Em 2018, o artista lançou outro livro, uma compilação de trabalhos inéditos e realizados nos últimos anos. O título, Paraíso, faz referência ao codinome do Centro de Informações da Aeronáutica (Cisa), localizado às margens da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. De acordo com a Comissão Nacional da Verdade (CNV), o local serviu como centro de tortura do governo militar. Acredita-se que lá morreu Stuart Angel, filho da estilista Zuzu Angel.

Quem dá o tom a Paraíso (2018) é o trabalho Postcards From Brazil (2016-2018), composto de 30 cartões-postais com paisagens idílicas brasileiras que serviram como cenários para a violência. De um lado, fotos apropriadas de bancos de imagem do Instituto Brasileiro de Turismo (Embratur), com recortes que expõem o número de vítimas assassinadas, torturadas e/ou desaparecidas naquele local. Do outro lado dos postais, testemunhos dos acontecimentos, retirados de relatórios da CNV.

Quando exibiu Postcards pela primeira vez, em 2016, ouviu dizerem que aquele era assunto antigo. “Não é nada velho”, respondeu. “Amarildo morreu em circunstâncias iguais às da ditadura militar. Naquele mesmo morro tinha um centro de tortura há 50 anos.” O pedreiro Amarildo de Souza foi torturado e assassinado por um grupo de policiais da Unidade de Polícia “Pacificadora” (UPP) da Rocinha, no Rio, em 2016. Na época, a Justiça carioca condenou 12 dos 25 denunciados, mas os apontados como mandantes dos crimes continuam recebendo salários que somam quase R$ 24 mil. Enquanto isso, a ex-mulher e os seis filhos de Amarildo recebem, juntos, um salário mínimo. Em 2017, uma indenização de R$ 3,5 milhões foi aprovada em primeira instância na Justiça, mas o governo do Rio recorreu da decisão.

  • Campo e contracampo (Presidente do Instituto Moreira Salles e 12 de janeiro de 2016) (Foto: Cortesia da Artista)
  • Campo e Contracampo (Presidente do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand e 11 De Junho De 2013), de Dora Longo Bahia (Foto: Cortesia da Artista)
  • Still da nova versão de Brasil x Argentina (Amazônia e Patagônia), de Dora Longo Bahia, com imagens de queimadas na Amazônia e geleiras na Patagônia (Foto: Cortesia da Artista)

Censura ou negociação?
Desde os anos 1990, Dora Longo Bahia faz trabalhos que respondem ao contexto político em que são produzidos. A onda de censura à arte em 2017, o levante de alas conservadoras no Brasil e de práticas que remetem aos tempos da ditadura motivam suas reflexões hoje. Professora da ECA-USP, a artista planeja para outubro, no período das eleições, um seminário chamado 1968 a 2018 – Da Censura à Negociação. “O que era censura antigamente hoje em dia chama-se negociação”, diz Dora Longo Bahia à seLecT.

Convidada a conceber um novo trabalho para a exposição Avenida Paulista, no Masp, em 2017, ela teve de fazer concessões. Seu projeto, pensado para os módulos expositivos de Lina Bo Bardi – os cavaletes –, era exibir, de um lado, retratos pintados dos presidentes de instituições culturais instaladas na avenida – em claro paralelo com os retratos da nobreza europeia, no acervo do Masp – e, no verso, cenas de violência policial em manifestações populares. Mas ela teve de negociar. No lugar dos retratos, Campo e Contracampo (2017) acabou exibindo telas em branco, mas a menção aos presidentes das instituições permanece nos títulos das obras. “A negociação é um eufemismo para a censura. E você fica pensando: será que fui censurado?”, diz Longo Bahia.

Este ano, a artista fez uma nova versão do trabalho Brasil x Argentina (Amazônia e Patagônia), de 2017, exibido no 35º Panorama de Arte Brasileira, no MAM SP. O trabalho relaciona destruição ambiental às rivalidades e equivalências entre Brasil e Argentina, passando inevitavelmente pelo futebol e por seus respectivos governos militares. A videoinstalação mostra imagens de queimadas em Rondônia e o derretimento de geleiras na Patagônia, acompanhadas de um texto que disserta sobre as estratégias de apagamento das liberdades civis. Inclui frases como “O governo argentino viu uma maneira de propagar ideais nacionalistas internamente e tentar melhorar a imagem desgastada do país no exterior” e “Quase 40 anos depois, o Estado democrático brasileiro ainda utiliza o campeonato mundial de futebol para promover um ideário nacionalista superficial”.

  • Still de Em Memória dos Pássaros (2001), da argentina Gabriela Golder (Foto: Cortesia da Artista)
  • Still de Em Memória dos Pássaros (2001), da argentina Gabriela Golder (Foto: Cortesia da Artista)
  • Na videoinstalação Cartas (2018), de Gabriela Golder, crianças leem cartas escritas na ditadura cívico-militar argentina (Foto: Cortesia da Artista)
  • Na videoinstalação Cartas (2018), de Gabriela Golder, crianças leem cartas escritas na ditadura cívico-militar argentina (Foto: Cortesia da Artista)
  • Na videoinstalação Cartas (2018), de Gabriela Golder, crianças leem cartas escritas na ditadura cívico-militar argentina (Foto: Cortesia da Artista)

Negacionismo
Na Argentina, o número estimado de mortos e desaparecidos durante o mais recente governo ditatorial é de 30 mil – 60 vezes maior que no Brasil. Mas as visões sobre a época ainda são distorcidas. “Estamos vivendo um momento muito difícil na Argentina”, conta a artista portenha Gabriela Golder à seLecT. “Novamente, muitas pessoas vivem na rua, acontecem milhares de demissões e muitas tentativas negacionistas a respeito dos desaparecidos da ditadura”, continua, referindo-se aos  membros do governo de Mauricio Macri que recentemente teriam reduzido o número de desaparecidos a 9 mil. “Falar de hoje é falar de 2001, é falar sobre a ditadura, é falar sobre sobreviventes, ruínas e resistências”, diz Golder.

Exibida na mostra coletiva O Futuro da Memória, no Parque da Memória – Monumento às Vítimas do Terrorismo de Estado, em Buenos Aires, a videoinstalação Cartas (2018) apresenta um grupo de crianças lendo cartas escritas durante a ditadura militar argentina, que Golder faz questão de denominar como “ditadura cívico-eclesiástica-militar”, para salientar a cumplicidade de múltiplos setores com o regime.
As cartas contam sobre a vida em prisões, no exílio ou na clandestinidade. A produção de Gabriela Golder é atravessada por sua vida pessoal. No primeiro trabalho em que abordou a ditadura, Em Memória Dos Pássaros (2001), a artista questiona a vida naquele período. “Como foi possível viver, amar, festejar um aniversário, sair de férias ou desfrutar o mar?”, indaga. O vídeo mostra imagens em branco e preto da repressão, coletadas em arquivos, e filmes sobre a infância da artista, em locais como a escola primária e a casa onde vivia nos anos 1970. “A memória é uma das questões essenciais em minha obra.

Não é possível construir/fazer/acionar sem memória. Uma memória viva, que articule permanentemente passado e presente para poder imaginar um futuro”, reflete.

  • A Oficina Da Memória (2018), do argentino Mariano Speratti, mostra crianças do futuro que tentam acessar os acontecimentos da ditadura cívico-militar argentina por meio de sons (Foto: Cortesia do Artista)
  • A Oficina Da Memória (2018), do argentino Mariano Speratti, mostra crianças do futuro que tentam acessar os acontecimentos da ditadura cívico-militar argentina por meio de sons (Foto: Cortesia do Artista)
  • A Oficina Da Memória (2018), do argentino Mariano Speratti, mostra crianças do futuro que tentam acessar os acontecimentos da ditadura cívico-militar argentina por meio de sons (Foto: Cortesia do Artista)
  • A Oficina Da Memória (2018), do argentino Mariano Speratti, mostra crianças do futuro que tentam acessar os acontecimentos da ditadura cívico-militar argentina por meio de sons (Foto: Cortesia do Artista)

2076
O argentino Mariano Speratti também participou da exposição O Futuro da Memória, em Buenos Aires, mas sua abordagem foi diferente. “O humor é uma ferramenta que permite entrar em temas que de outra forma podem amargar demais, como a morte, as perdas ou a política nacional”, diz Speratti à seLecT. A Oficina Da Memória (2018) contém uma narrativa ficcional repleta de humor: crianças participam de uma oficina estatal no ano de 2076, quando é decretado o fim das hostilidades visuais. As personagens usam óculos robóticos e conseguem acessar sons de 1976, quando encontram um fidget spinner, brinquedo giratório popular em 2017. Ao escutar propagandas e discursos da ditadura, as crianças tentam compreender o que aconteceu cem anos antes.

Decidir trabalhar com crianças veio de algo íntimo e pessoal. O pai de Speratti, Horacio, foi jornalista, militante peronista e um dos 30 mil desaparecidos durante o regime militar. Como filho e pai, o artista preocupa-se com a herança da memória. “Minha modesta contribuição tentou revisitar uma importante parte do passado ligada à colaboração civil com a ditadura, para ver se isso produz diferentes ressonâncias sobre os nossos modos atuais de percepção”, diz o artista.

Mariano Speratti conta que acompanha de perto a situação política brasileira desde o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em 2016. “A situação no Brasil não é de todo estranha para nós, principalmente porque o golpe civil de Temer e o encarceramento de Lula estabeleceram um precedente muito perigoso de um modelo ‘legal’ de avanço sobre a vontade popular que funciona como um farol para os setores de poder não só da Argentina, mas de toda a América Latina”, diz Speratti.

  • Clara Ianni reflete sobre violência de Estado no Brasil democrático em Mães (2013). O vídeo mostra processo terapêutico de mães de vítimas que morreram em 2006 durante o episódio Crimes de Maio (Foto: Cortesia Galeria Vermelho)
  • Clara Ianni reflete sobre violência de Estado no Brasil democrático em Mães (2013). O vídeo mostra processo terapêutico de mães de vítimas que morreram em 2006 durante o episódio Crimes de Maio (Foto: Cortesia Galeria Vermelho)
  • Clara Ianni reflete sobre violência de Estado no Brasil democrático em Mães (2013). O vídeo mostra processo terapêutico de mães de vítimas que morreram em 2006 durante o episódio Crimes de Maio (Foto: Cortesia Galeria Vermelho)

Brutalidade
A paulistana Clara Ianni debruça-se sobre episódios excluídos da história oficial brasileira. O trabalho Formas de Transição (2017), intervenção no Memorial da Resistência, em São Paulo, questiona a hegemonia na representação da história nacional. A artista infiltrou, entre as informações da linha do tempo do museu, 32 placas diagramadas com o mesmo layout do memorial, listando crimes cometidos pelo Estado após a ditadura militar. “Na elaboração desse trabalho pensava muito em como o governo democrático, mesmo antes do golpe de 2016, reproduzia violências muito similares às do período militar”, diz Clara Ianni à seLecT. A reflexão de Formas de Transição é um revérbero do que a artista propôs, em 2013, com o vídeo Mães. O trabalho foi realizado a partir de uma colaboração com o movimento Mães de Maio, formado em 2006 após o episódio que ficou conhecido como Crimes de Maio. Estima-se que mais de 560 pessoas morreram no estado de São Paulo naquele ano, a maioria por conta de ações de vingança de policiais militares contra ataques atribuídos ao Primeiro Comando da Capital (PCC) – vale lembrar que, de acordo com uma lista divulgada pela CNV, o número de pessoas mortas e desaparecidas no regime militar no Brasil é de 434. Diante desse contexto, o trabalho de Clara Ianni traz registros de um processo terapêutico entre psicólogos e as mães do movimento. “A história dos países ‘subdesenvolvidos’, do ‘Terceiro Mundo’ ou do capitalismo periférico é marcada pela brutalidade”, diz a artista, quando questionada sobre a importância de falar sobre violência. “Afinal, não se passa ileso por um processo de colonização, escravidão ou ditadura”, conclui. 

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